Seg. Jun 14th, 2021
Direto ao contraditório | Uma rubrica dedicada à reflexão crítica sobre as certezas de sociedade tidas como insofismáveis

Tiago Azevedo Ramalho

  1. Quando o bom é mau e o mau é bom. – Dobrado o ano civil de 2020 – ano absorvido, desde pouco após o seu início, por uma pandemia, primeiro, e pela opção política humana, depois, de se adoptar intensas medidas de restrição à liberdade com vista a reduzir a probabilidade do contágio pandémico –, surgem bem naturalmente os desejos de um melhor ano de 2021. Diz-se em alta voz: «Um bom ano!”. Mas escuta-se nas entrelinhas: “Um ano livre da pandemia!…”.

É bem compreensível este desejo de superação da pandemia. À semelhança de muitas outras doenças, que aliás perdurarão por bem mais tempo, a Covid-19 fragiliza a vida humana e é potencialmente letal. Por outro lado, as medidas de combate foram de tanta intensidade que restringiram do modo muito acentuado a possibilidade de interacção social. Da conjugação destes dois factores resultou que a Covid-19 fosse experimentada como um mal, esperando-se com justiça a respectiva superação.

Mas, ainda sendo um mal, a Covid-19 não deve ser absolutizada, tida como o Mal absoluto. Porque não o é. E o inverso também pode ser dito. Debelar-se a Covid-19 é um bem, não o Bem.

O grande Mal será antes talvez a solidão, o isolamento, o vazio de quem se perde em si, olhar um qualquer outro como um inimigo. Esse Mal ingente que conduzirá alguns dos que superaram a Covid-19 a solicitarem, acaso mude o regime legal, que de modo intencional, provocado e normativamente legitimado seja provocada a sua própria morte. E o Bem, pelo contrário, andará pelo que nos constitui pessoas, pela prevalência alteridade sobre a identidade, pela comunhão que sara e cura relações rasgadas pelo conflito, connosco e com os outros.

A Covid-19 constitui um mal físico, vital (como o negar?) – mas, repita-se, não é o Mal absoluto. Com efeito, mesmo sob a sua sombra, continua a ser possível, nalguns casos até mais possível, viver o que realmente há de bom – desde que, precisamente, a pessoa, apesar de todos os males singulares que a aflijam, experimente a força beatífica (literalmente: causadora de alegria) de uma teia de relações pessoais. E a vacina que nestes dias começa a ser dispensada, se constitui seguramente um bem (como o negar?), também não é um Bem absoluto. Quanto vale a saúde quando se está vivo como indivíduo e morto como pessoa?

Estranho jogo de máscaras, este: o que parece um mal, pode em nada afectar a experiência do Bem; e o que parece um bem, pode não trazer o Bem de que se precisa.

  1. Para trás: um rico e variado ano de 2020.Para trás ficou o ano de 2020, que não foi apenas o ano da pandemia. A terra rodou uma vez mais à volta do Sol, que nos aqueceu e iluminou. O mar, durante quase sempre, ou se calhar mesmo sempre, esteve belo. Nasceram e cresceram crianças, renovaram-se famílias. E muito mais.

Não se trata com isto de procurar ver um bem em tudo, mesmo naquilo que deve ser denunciado sem concessões como um mal: mas de reconhecer que o mundo continua a ser muitíssimo complexo, e que há sempre mais, imensamente mais, do que apenas um elemento nele presente.

O ano de 2020 não se reduziu à pandemia, pois. Mas a tanto se reduziu grande parte da vida pública e da atenção humana. De entre muitos exemplos, é-me dolorosamente presente uma edição de um jornal diário, de algumas dezenas de páginas, que a certo momento do ano passado incidiu integralmente sobre questões relativas à Covid-19. Deu-se como que um radical estreitamento de vistas que conduziu a que, de todo o espectro de elementos presentes na realidade, apenas um fosse colocado em destaque, colonizando as demais esferas da vida. Aliás, durante certo período, o estreitamento não foi apenas das vistas, mas também dos corpos: para todos, no período de 19 de Março e 2 de Maio de 2020 (e agora novamente…); para muitos, em termos práticos, mesmo para além dessa data (idosos em lares). E isto embora seja sempre possível haver estreitamento dos corpos desacompanhado do de vistas.

Se toda a vida foi interpretada como reduzida à pandemia não foi pela Covid-19. Foi mesmo pelo estreitamento de vistas.

  1. Leitura dos sinais dos tempos: o aniquilamento da vida privada. – Estado de coisas este que é um sinal do nosso tempo. Se cada um leu o seu ano de 2020 em função da pandemia Covid-19, foi também porque em boa medida aceitou inscrever de modo total a sua vida particular no discurso público. Ou seja, já não interpreta como valiosos, dignos de uma particular consideração, os acontecimentos do seu quotidiano. Deste modo, uma parte significativa da população deixou de entrever uma possibilidade de um sentido particular da sua própria vida à parte dos sentidos veiculados pela mediatização pública. Assistimos ao efeito de uma sociedade mediatizada, cibernética, em interacção constante, em que se pressente que o verdadeiro real é o mediatizado, e não o próximo imediato. Efeito que, não contrariado e dificilmente contrariável, atenta a força com que se impõe, continuará a marcar o quadro social bem para além do momento em que a pandemia se extinga.

Será bom que no novo ano se vença a pandemia. Mas, por quanto se disse, o ano só será bom, penso, caso se redescubra que o valor da própria vida, e que o mundo de que ela participa, é mais, imensamente mais, do que qualquer um dos factores isolados que nele estejam presentes. Na verdade, se a sombra da pandemia (desta pandemia ou de uma qualquer outra que surja amanhã ou depois de amanhã) se continuar a dobrar sobre nós, então é aí que se terá de viver e é aí que se há-de procurar instaurar relações humanas vivas, fecundas, ricas – recusando-se a suspensão da própria vida na expectativa de um futuro saudável. Pois a vida, ao contrário do uso do intelecto, nunca se suspende: desperdiça-se ou aproveita-se.

Para tanto, teremos talvez de nalguns momentos desligar o televisor, o telemóvel, o computador, de recusar a esfera pública, e de afirmar com coragem a prioridade da vida pessoal, de todas as vidas pessoais – e sim, de enfrentar o medo de, tudo desligado, depararmos apenas com o vazio (mas também é apenas o vazio que pode ser preenchido). Pois qual o significado da vida humana, afinal, se a biografia particular que nela se inscreve – com quanto tem de único e de irredutível, com quanto permite que a gente seja feliz, ainda que com lágrimas – é de nula relevância? Dela cuidar não é irresponsabilidade, nem extravagância, nem egoísmo, mas sinal de recobro do sentido das proporções.


Imagem de Tumisu por Pixabay