Sex. Dez 3rd, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Subida do Monte Carmelo

José Vicente Rodrigues*

1 – Com o termo «linha essencial» refiro-me não só a esta obra, mas a todas as Obras maiores. Apresentamos como que a coluna vertebral, o sistema nervoso das coisas, isto é, o que dá consistência e mantém em pé a mola dos escritos, neste caso e lhes comunica movimento e acção. Com isto pretendo indicar os elementos estruturais que sustentam a mola destas grandes Obras. O modo de apresentar esta linha essencial admite as suas variantes, como se poderá comprovar em cada caso.

2 – Subida do Monte Carmelo. João da Cruz desenhou a figura do Monte (já comentada) que, devia ir à frente do livro. Além deste esquema gráfico compôs as 8 canções da Noite Escura «e nela se contém o modo de subir até ao cume do Monte» (Argumento).

Tendo diante dos olhos o Monte e as canções começa o seu comentário aos livros Subida-Noite. A junção das duas imagens: subida ao Monte e fuga da própria casa, de noite, em busca do Amado, opera desde o princípio na mente do autor. Na Subida a atenção gravita para as duas semelhanças quase a par. Na Noite atende quase exclusivamente à fuga na noite.

3 – Os verbos usados subir e sair apresentam uma imagem espacial bastante movida do homem, da alma enamorada. A meta da ascensão é o cimo do Monte. O lugar do encontro amoroso, do encontro, de quem saiu de casa em busca do Amado, é a torre de um castelo (cf. canção 7 “o ar da ameia”…; 2 N 18, 1 ss), um castelo colocado no cimo de um monte. Como não comentou as últimas canções não sabemos como teria montado as duas figuras ou símbolos, embora já o deixa bastante claro nos versos.

4 – A «linha essencial», ou ideia geral, neste caso, de Subida-Noite, vai-a o leitor descobrindo por meio dos primeiros elementos: o gráfico do Monte e as 8 canções. Tendo em atenção o título e o subtítulo de Subida, que é uma verdadeira síntese, vai crescendo a captação da mente do autor. No Argumento confluem o Monte e a Noite da fuga. A meta é conseguir pelo caminho breve a perfeita união da alma com Deus, isto é, o alto, o mais alto estado desta união, que outros chamam a perfeição, mas, que João da Cruz, seleccionando a sua linguagem, chamará união da alma com Deus, deixando assim frente a frente os protagonistas da busca, e do encontro; o homem e Deus, melhor, Deus e o homem. Os meios oferecidos ao homem são os assinalados no título do livro e no das canções. O mesmo título do livro traduz já o conteúdo real das regras para subir o Monte (cf. 1 S 13, 10-13) e das canções da Noite. Aconselho uma boa leitura do prólogo programático no qual se manifestam as motivações do autor perante a falta de directores de almas idóneos, etc.

5 – A palavra-chave do livro e do itinerário da alma é noite, a noite escura, da qual se faz menção no título das canções («noite escura da fé») e no prólogo «a noite escura» (nn. 1, 2, 3). Em 1 S 1 no título do capítulo, etc., (Aconselho uma bom repasso em OC p. 176, nota 2, e em p. 177, nota 1). Assim como ultrapassa a «perfeição» com a «união com Deus», assim ultrapassa «as purgações ou purificações espirituais» com as «noites, porque a alma […] caminha como de noite, às escuras» (1 S 1, 1).

6 – Divisão quadripartida. As razões práticas, didácticas e antropológicas que o levam a dividir a única noite em quatro, influem também na configuração da obra escrita Subida-Noite. A verdadeira e precisa divisão de toda a obra é a seguinte:

1 – Noite do sentido 1 S 1, 4-6; 1 S cc. 3-12; 1 S cc. 14-15.

* 1 S 1, 1-3: é como a introdução geral das duas noções: sensitiva e espiritual.

2 – Noite activa do sentido: 1 S c. 13, melhor, modo activo de entrar na noite do sentido.

3 – Noite do espírito (aspecto activo e passivo juntamente: 2 S c. 13; c. 6, 1-5).

4 – Noite activa do espírito, de modo geral, incluindo entendimento, memória e vontade: 2 S c. 4; c. 6, 6-8.

* 2 S c. 5 serve-lhe de parêntese para falar da união da alma com Deus.

5 – Noite activa do entendimento 2 S 7, 13; 2 S 8-32.

* Em 2 S 7, 1-12 fala de todo o caminho: noite do sentido e do espírito no aspecto activo e passivo.

6 – Noite Activa da memória 3 S cc. 2. 15

* o cap. 1º é introdução geral a todo o livro. Embora em 3 S c. 2 fala da noite activa da memória, trata-se antes de resolver objecções que vão muito mais longe.

7 – Noite activa da vontade 3 S cc. 16-45.

8 – Noite passiva do sentido. Noite, liv. 1º.

9 – Noite passiva do espírito. Noite, liv. 2º.

7 – Por três motivos se chama noite ao trânsito da alma à união com Deus:

– da parte do termo de onde sai, que implica negação e carência de gosto e desapego de todas as coisas.

– da parte do meio ou caminho por onde há-de ir, o caminho ou a peregrinação da fé, em fé.

– da parte do termo aonde vai, que é Deus, no seu mistério.

Cada um destes motivos se constitui em noite (1 S 2, 5), com grandes exigências práticas na vida (1 S 2, 2-4).

8 – A definição ou noção fundamental de noite que dá em 1 S 3, 1: «a privação do gosto no apetite de todas as coisas» não é completa, mas engloba, sem falta, «mortificação do apetite», «negação de gostos em todas as coisas», «negação e carências», tudo isto assumido evangelicamente.

Os danos existenciais provocados e agravados pelos desejos, apetências desordenadas, numa palavra pelo amor desordenado que se esconde em todos estas desordens, dão ao Santo maior razão para falar da necessidade de mortificar todo este mundo de apegos e escravidões e de caminhar, livre e sem equipamento, na noite «às escuras e sem nada», procurando a fonte viva e o cume do Monte (cf. 1 S cc. 6-12 onde fala dos apetites desordenados, que hoje traduziríamos talvez por fixação, adição, impulsos desordenados, etc., como pensam alguns modernos.

9 – Ao falar da «escura noite da fé, em desnudez e purgação sua», já no mesmo título das canções, e assinalá-lo como o caminho por onde se chega à união com Deus, à união do Amado, já se está a apontar firmemente para o teologal, o caminho teologal, e as palavras de ordem que dá para entrar activamente (= livremente, voluntariamente») na noite (cf. 1 S c. 13) estão já embebidas na substância teologal e cristologal. É essencial o enamoramento do Esposo Cristo (1 S 14, 2). Reaparece assim em 1 S 5, 2 a noção-conteúdo da noite como «a privação de todos os gostos e mortificação de todos os apetites»; e isto, note-se bem, «por amor de Jesus Cristo» (1 S 13, 4), «por Cristo» (1 S 13, 6).

10 – Em 2 S 3 estabelece-se com toda a firmeza: a fé é noite escura para a alma. A beligerância que se dá à fé é preciso entendê-la; de facto, em todos os argumentos exibidos para provar este asserto entra tanto ou mais do que a fé a caridade e a renúncia que é obra da vontade. Deixa-o anteriormente dito: «… logo entra a alma na segunda noite, ficando só em fé, sem excluir a caridade, mas as outras notícias do entendimento […] que é coisa que não cai no sentido» (1 S 2, 3).

11 – Foca devidamente a questão central da união com Deus (2 S c. 5), deixa campo livre às virtudes teologais, que são o meio próximo e o caminho para chegar à perfeição da união recebida no baptismo (2 S 5, 5). Há que fazer avançar todo o homem: a fé tem relação com o seu entendimento, a esperança com a sua memória e a caridade com a sua vontade (2 S c. 6). Neste capítulo já encontra plenamente João da Cruz o melhor caminho para as suas explicações a dar com a chave teologal, que dava a impressão que andava a procurar anteriormente. As exigências teologais entendem-se fixando-se em Cristo na cruz, ouvindo os seus convites e seguindo o seu supremo exemplo (2 S c. 7). Assim, a alma pode encarar o caminho teologal e compreender as razões mais íntimas e pessoais do mesmo (2 S cc. 8-9). «Só a fé é o próximo e proporcionado meio para a alma se unir a Deus […], e, portanto, quanto mais fé a alma tem mais unida está com Deus» (2 S 9, 1). Já fica explicada essa «solidão» da fé e o valor de «só a a fé»: c. 1 S 2, 3.

12 – Frei João distingue as inteligências (notícias) e apreensões que o entendimento pode receber por via natural e sobrenatural: 2 S c. 10, e daqui em diante vai ensinando como comportar-se, como ultrapassar danos e obstáculos e haver-se com os proveitos contrários através de todos os meios que Deus põe ao alcance do homem, vivendo em fé. Tema delicado o da passagem da meditação à contemplação, deixando-se conduzir por Deus (c. 2 S cc. 11-15).

Há que entender e entrar pelos caminhos de Deus que tem uma pedagogia e condescendência especiais no seu trato com o homem (2 S cc. 16-21).

13 – Voltando ao esquemas e divisões propostas em 2 S 10, 4, examina visões, revelações, locuções e sentimentos espirituais, ensinando a caminhar por eles à união com Deus, sem parar nem se enredar em nada disto. E, como sempre, vai o entendimento «às escuras e sem nada», isto é, não se apegando a nada nem mudando indevidamente os meios em fins (cf. 2 S cc. 23-32).

14 – Ao iniciar o terceiro livro de Subida, o autor faz um balanço do que foi feito com o entendimento «para que, segundo esta potência, se possa unir a alma com Deus pela pureza da fé». Apresenta o que se há-de fazer com a memória e a vontade «purificando-as também acerca das suas apreensões para que segundo estas duas potências, a alma se venha a unir com Deus em perfeita esperança e caridade». Em 3 S 1, 2, oferece o plano geral a seguir em relação à memória (notícias de) e à vontade (afeições de). [Leia-se o texto completo directamente e leia-se também a advertência metodológica que dá em 3 S 2, 1-3].

Sobre a memória e a esperança fala em 3 S cc. 2-14; no capítulo 15, 1 faz um bom resumo de todo o tema da memória e esperança, da posse e da esperança. Os capítulos anteriores tornam-se um pouco obscuros e difíceis, por isso, quer esclarecer no c. 15.

15 – Vontade e caridade. Isto é o principal, por isso, escreve: «não teríamos feito nada em purgar o entendimento para o fundar na virtude da fé, e a memória na da esperança, se não purgarmos também a vontade acerca da terceira virtude, que é a caridade, pela qual as obras feitas em fé são vivas e têm grande valor, e sem ela não valem nada» (3 S 16, 1).

Esta exposição mais radical faz-se na base do preceito do amor, pois tudo o que o homem espiritual tem que fazer e o que frei João lhe pode ensinar compendia-se neste preceito (Dt 6, 5; 3 S 16, 1). Vai mover-se no terreno afectivo representado pelo mundo das paixões: gozo, esperança, dor e temor (Ibid., 2-3). Conforme estas energias passionais estejam ordenadas ou desordenadas irá adiante o homem «porque todo o negócio para vir à união de Deus está em purgar a vontade das suas afeições e apetites, para que assim de vontade humana e baixa venha a ser vontade divina, feita uma mesma coisa com a vontade de Deus» (Ibid., 3).

16 – Examinará, em primeiro lugar, a paixão do gozo, que está tão presente na noção de noite escura, embora sob a palavra gosto (1 S 3, 1 ss). Divide o gozo em activo e passivo (3 S 17, 1). Haverá que examinar e guiar a atitude da vontade diante de tantos géneros de bens que se podem apresentar ao homem. Trata-se de que a vontade vá sendo regida e vivificada pela virtude teologal da caridade. Os géneros de bens de que vai falar são os:

– temporais (cc. 18-20),

– naturais (cc. 21-23),

– sensuais (cc. 24. 26),

– morais (cc. 27-29),

– sobrenaturais (cc. 30-32),

– espirituais (cc. 33- 45).

17 – O ritmo ternário com que expõe os cinco primeiros géneros: quais são, danos, proveitos faz que se possa seguir a linha essencial de modo fácil e ordenado.

Adverte que se guia por um fundamento que «será como um báculo em que nos havemos sempre de no apoiar» e que cada leitor há-de levar sempre entendido, pois essa é a luz para se guiar e entender toda esta doutrina do amor-caridade e assim poder «endereçar em todos estes bens o gozo a Deus, e é: que a vontade não deve gozar senão só daquilo que é glória e honra de Deus e que a maior honra que lhe podemos dar é servi-lo segundo a perfeição evangélica; e o que é fora disto é de nenhum valor e proveito para o homem» (3 S 17, 2).

Firme neste princípio, segue o ritmo assinalado e levando o homem, através do uso destes bens, à meta da sua perfeita união com Deus. Os danos nascem do apego indevido a estes bens, e os proveitos nascem de apartar o coração de semelhante gozo. Na análise dos danos e proveitos, João da Cruz, além de se mostrar um grande mestre de espírito e guia seguro, resplandece como um grande psicólogo, cheio de agudeza.

18 – Ao examinar o último género de bens: os espirituais, quebra o ritmo ternário dos capítulos. Na nossa edição pode ver uma nota pertinente, de Federico Ruiz, na qual se precisa como «estes capítulos sobre os bens espirituais ou mediações religiosas estão construídos sobre a estrutura e os dinamismos da vida teologal, especialmente a fé e o amor. Tais bens são puros meios para entrar em comunhão teologal com Deus: «imagens» para facilitar o conhecimento da fé, e «motivos» para estimular o amor de caridade. A linguagem insistente mostra o seu afã de que os meios cheguem a cumprir o seu objectivo pessoal e vital: fé e devoção, viva imagem, ao vivo, o vivo do recolhimento, o vivo da oração, a verdade do espírito. Tem medo justificado de que tantas manifestações «religiosas» fiquem em pura materialidade: figura, feitura, ornato, pintura, imagem, cerimónia» (OC p. 404, nota 1, cap. 35).

Muitos destes capítulos são muito amenos e estão cheios de chispa e ironia em que sabia abundar frei João da Cruz, a quem, por outro lado, não treme a mão quando tem que fazer denúncias de qualquer abuso ou desvio.

Assim, o livro da Subida, incompleto, enlaça com o da Noite, com o qual, como dissemos, constitui uma só obra, um díptico.


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 226 -230.


Imagem de Kanenori por Pixabay