Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Padre ou gestor?

António Jorge Pires Ferreira

 

Há mais de dez anos, quando António Pinto Leite era presidente da ACEGE (foi- -o de 2011 a 2016), a Associação Cristã de Empresários e Gestores quis ajudar os padres. A ideia era simples, como a ouvi numa sessão da ACEGE no Seminário de Aveiro: se libertarmos os padres de trabalho não essencial que lhes ocupa mais de um quarto do tempo, ganhamos mil padres. Na altura, estimava-se em quatro mil o número de padres em Portugal. Não sei se o projeto foi avante. Era um ato de generosidade dos gestores cristãos. Mas julgo que não deu grandes frutos. Não ouvi falar de qualquer êxito concreto. Mas todos sabem, a começar pelos padres, que uma boa parte do tempo deles é em tarefas não essenciais ao ministério. Às vezes, em conversas de circunstância, até se diz que o curso de Teologia deveria ter umas cadeiras de Gestão & Recursos Humanos, o que, acontecer, seria, quanto a mim, mais contribuir para a burocratização da identidade presbiteral. Esta reflexão despretensiosa vem a propósito de uma leitura recente que quero partilhar com os leitores – para mais, quando a nossa Diocese se reconfigura com as comunidades pastorais: “Quando o pastor virou gestor: crise sacerdotal, paróquia administrada e o sentido do ministério presbiteral no século XXI”. Diz respeito aos padres, claro, mas diz respeito a todos, porque os padres existem para as comunidades e as comunidades podem ajudar os padres a desempenharem melhor a missão assumida. Deixo aqui o início da reflexão: “Nas últimas duas décadas, a vida paroquial católica mudou de ritmo e de linguagem. Onde antes predominavam a catequese, a confissão, a visita às famílias e a celebração sacramental como eixo do dia, multiplicaram-se reuniões de conselho, prestação de contas, contratos, planos de manutenção predial, gestão de folha de pagamento, articulação com órgãos públicos e metas de arrecadação. (…) A crise sacerdotal contemporânea não se reduz ao número de ordenações. Ela combina, num mesmo quadro, a escassez de vocações, o envelhecimento do clero, a renúncia ao ministério antes da idade de aposentadoria, a dificuldade de encontrar párocos dispostos a assumir comunidades e o cansaço de homens que permanecem na função, mas já não reconhecem nela o sentido vocacional que os atraiu ao seminário. (…) Em Portugal, estudos sobre ministros pastorais registram uma relação entre sobrecarga, depressão e sintomas de esgotamento”. Pode ler a publicação, que é de uma universidade dos Jesuítas do Brasil, de acesso livre, em bit.ly/4pj3k9O.


Imagem recolhida de bit.ly/4pj3k9O