Seg. Jun 14th, 2021

Sinais dos Tempos

Rubrica dedicada à reflexão sobre os desafios que a pandemia de COVID-19 coloca à Igreja e ao mundo

‘Covid-19:
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

Sinais dos Tempos – Um olhar sobre os dias que temos pela frente

 

Numa sala com as portas e janelas seladas, um pequeno rasgo de luz pode iluminar todo o espaço. Por muito que nos custe, este vírus foi o minúsculo organismo que iluminou as nossas fragilidades. Porém, este é o tempo certo para renovarmos o olhar sobre os dias que vivemos.

Recentemente ouvi a história de numa paróquia italiana, em que os prédios onde vivem os paroquianos ficam próximos da Igreja. Dada a necessidade sanitária do distanciamento social, o sacerdote começou a celebrar a missa no telhado. A liturgia que expressa o modo de nos unirmos a Deus em oração renovou-se sem perder a profundidade espiritual. Mas nem tudo renova, ainda que se revista daquilo que o mundo considera como novo. Como é o caso do investimento maior na vida digital.

A conectividade online permanente intensificou-se, mas a fragilidade dos relacionamentos reais revelou-se. Casais que antes se viam de manhã e à noite, passaram a estar mais tempo juntos e descobriram que não se conseguiam suportar mais.

Antes da Covid-19, o tempo em que as pessoas conseguiam manter a sua atenção estava a diminuir pelo consumo excessivo de conteúdos digitais, por exemplo, nas redes sociais. Após a Covid-19, com a multiplicação de tantos Zoom’s, Google Classrooms, etc., mais tempo se passa diante dos ecrãs. O cansaço ganhou uma nova dimensão, revela a fragilidade sobre o modo como gerimos a nossa atenção, e as consequências para o olhar (nos seus múltiplos significados) são ainda desconhecidas.

Um pensamento de Simon Sinek, autor de O Jogo Infinito, interpelou-me. Num jogo infinito não existem aqueles que ganham, e os que perdem, porque o importante é mantermo-nos dentro do jogo. Por isso, o pensamento que Sinek teve foi o de que, antes, classificávamos os dias como bons, ou maus, mas numa perspectiva de nos mantermos em jogo pela incerteza destes tempos, esses dias acabaram. Agora, existem os dias que temos pela frente, e os dias que deixámos para trás.

Os dias que queremos deixar para trás, difíceis, são o ocaso. Cada ocaso leva-nos a mergulhar em momentos de pausa, e repouso. Mas sabemos que depois de cada ocaso existe uma aurora. São os dias que temos pela frente. O futuro que chega no tempo certo (tempo kairológico) e traz consigo a esperança de um dia pleno de vida, possibilidade, novidade e, sobretudo, esperança.

Antes da Covid-19, muitos deixavam de ver na Igreja um sinal de esperança. Os escândalos, as incompreensões, marcaram negativamente a vida das comunidades. Marcas profundas de como a vida do Evangelho não era o fio condutor da vida de muitos que se afirmam como cristãos. São dias que ficaram para trás, no ocaso, mas não devem ser esquecidos. Talvez perdoados, e servir de experiência para o exame de consciência que permanentemente devemos fazer.

Mais e melhores serão os dias que temos pela frente. A disrupção “viral” revela-se uma oportunidade de perdoar, re-centrar no que tem valor perene, e reconhecer na criatividade relacional um acto criativo de Deus em nós e entre nós. Vislumbra-se o tempo da gratidão pelo que nunca desmorona: Deus.

Os rostos mascarados pelas ruas, encontros e celebrações são como o véu de uma noiva que entra a caminho do altar para dar início a uma vida nova que nasce do amor. O trajecto que a noiva-Igreja percorre neste período é um compasso de espera que antecede o momento de levantar o véu e descobrir o rosto que escondia. Que rosto é esse? Depende de ti.


Miguel de Oliveira Panão | Blog & Autor

 

 

Imagem de Hans Braxmeier por Pixabay