Qui. Jun 17th, 2021

Sinais dos Tempos

Rubrica dedicada à reflexão sobre os desafios que a pandemia de COVID-19 coloca à Igreja e ao mundo

‘Covid-19:
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

‘Covid-19:
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?

Vivemos numa época de globalização. Uma explosão em Beirute, pela sua dimensão, é notícia em simultâneo em todo o mundo. O resgate de uns miúdos que tinham ficado presos em grutas inundadas na Indonésia desencadeou uma onda instantânea de solidariedade pelo globo. A informação flui à velocidade da luz, conduzida pela fibra ótica. Pela televisão e internet, sabemos no momento o que se vai passando de bom e de mau, seja onde for.

O surgimento de uma pandemia como a que estamos a viver confinou cada um em sua casa. Tem impedido, principalmente os mais velhos, de estarem próximos dos seus amigos, dos seus familiares e de todo o mundo exterior. Não há abraços nem beijinhos. Conversa, só pela internet, nem sempre acessível! Esta situação é propícia a que cada um veja no outro um potencial agressor, mesmo que involuntário. Temos de nos “proteger” dos nossos familiares, amigos ou vizinhos. A “proteção” é o isolamento, pois a sociabilização pode matar. Como se o isolamento social não fosse uma forma de tirar a vida! Este clima não é só no meu bairro, é em todo o mundo. O planeta está empenhado na “guerra à Covid-19”. Esta “guerra”, como qualquer guerra, só pode despertar sentimentos de isolamento, medo e insegurança.

O isolamento desencadeia egoísmo primário, infantil, mesmo em adultos “esclarecidos”. Estes sentimentos geram segregação, muitas vezes por causas fúteis, radicalismos sociais e extremismos políticos. São a antítese dos ideais de confiança no próximo, esperança no futuro e de cooperação que têm feito avançar a civilização dos Homens. Num mundo em que as relações interpessoais de proximidade correm risco de entrar irreversivelmente em ocaso, onde os mais velhos não saem de casa e os mais novos crescem na ausência do sagrado, a Igreja tem de marcar a diferença. Não se pode fechar em templos de cadeiras dispersas nem em missas paroquiais de porta fechada. Não pode ficar à espera dos crentes. Essa Igreja está em ocaso e é urgente que se reinvente.

– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

A covid-19 acentuou no mundo a desigualdade entre pessoas, comunidades e países. Numa época de comunicação globalizada, há a consciência de que a minimização dos efeitos da pandemia passa mais por uma ação coletiva do que individual. Podemos negar que precisamos do outro, muito mais que precisamos de Deus. No entanto, são os momentos que vivemos que nos dão consciência, enquanto comunidade, da nossa fragilidade. Precisamos da vacina que os cientistas estão a desenvolver, dos alimentos que alguém cultiva e nos traz aos supermercados, da água potável que corre pelas torneiras, da eletricidade que nos ilumina e que permite estarmos ligados ao mundo através dos nossos computadores e telemóveis, precisamos do ar que respiramos, … precisamos de Deus.

É em momentos de desacomodação que surgem oportunidades de mudança, individuais e coletivas. À tendência de isolamento de pessoas, cidades e países, deve-se contrapor o espírito de comunidade solidária, de Deus feito Homem refletido no próximo. A Igreja Missionária terá uma nova aurora, não em terras distantes, mas na nossa própria terra, “pescadora de Homens”, homens e mulheres, evangelizadora, transmissora de valores e da vida na sua plenitude. Sem radicalismos, mas acolhedora da divergência de opinião, na certeza de que a procura do bem supremo passa pela cedência em superficialidades. A aurora da Igreja passará pelo reconhecimento da sua missão fora dos templos. Uma Igreja em que todos serão poucos para a sua missão.

À tendência para a radicalização, para os extremismos proporcionados pelo medo e incerteza, a aurora para o mundo (e para a igreja no mundo) passa pela partilha da verdade e caridade, pois só o caminho da confiança trará o conforto necessário à esperança e à cooperação material e espiritual. Estamos todos no mesmo barco, uns à deriva no Mediterrâneo na esperança de uma vida nova, outros em terra, nos seus afazeres. Todos esperando pela ajuda divina que tarda em chegar.


* Manuel António Coimbra, 57 anos, Aveiro. Professor Associado com Agregação do Departamento de Química da Universidade de Aveiro. Membro da equipa fundadora do CUFC – Centro Universitário Fé e Cultura, da Diocese de Aveiro, e Sócio Fundador da ADAV Aveiro – Associação de Defesa e Apoio da Vida.


Imagem de Frauke Riether por Pixabay