Dom. Nov 28th, 2021

Sinais dos Tempos

Rubrica dedicada à reflexão sobre os desafios que a pandemia de COVID-19 coloca à Igreja e ao mundo

‘Covid-19:
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

 

José Miguel Sardica*

Antes da chegada da pandemia, o mundo já vivia uma era de incerteza, potenciada desde que o “fim da história”, anunciado no rescaldo de 1989, se mostrara uma previsão demasiado simplista. Ao unilateralismo triunfalista das democracias e do modelo norte-americano sobre o mundo sucederam uma nova arrancada globalizadora, a afirmação rápida da China e de outras paragens do mundo pós-ocidental, e um turbilhão de problemas varrendo o imenso mundo árabe e repercutindo em relações tensas e violentas com o Ocidente. Mais recentemente, a deslegitimação das democracias representativas e do progresso capitalista às mãos de novos populismos e nacionalismos criou mesmo uma era de contestação e de dissídio em relação às convenções e certezas em que estávamos habituados a viver.

A crise da pandemia, por ser universal, transnacional e interclassista, veio acentuar o mal-estar humano, mostrando, afinal, a sua fragilidade perante um “agente” inimigo invisível, e semeando uma espécie de insuportabilidade da contingência que, afinal, nem a ciência, nem as políticas públicas conseguem dominar. Talvez, dentro de alguns anos, quando for possível fazer o balanço desta pandemia, como no passado se fizeram balanços de outras vagas epidémicas – como a da gripe pneumónica de 1918-19 – possamos compreender o que foi que perdemos para sempre e o que foi que ganhámos através da adversidade.

A Igreja é um pilar de fé e de civilização com milénios. Assistiu e resistiu a muitas catástrofes, entre elas as epidemias virais, que afetavam os corpos, mas também as “epidemias” de heterodoxia, contestação, radical secularização e laicismo. E, todavia, a Igreja resistiu. Talvez a pandemia atual, devolvendo o ser humano à sua fragilidade, recordando as urgências de cuidar da “casa comum” ambiental, obrigando à frugalidade em muita coisa, seja o alento de que a Igreja universal precisa para reduzir alguma sobrecarga institucional, que a coloca muitas vezes distante da sua ecclesia, e tornar-se mais popular, mais fraterna, mais próxima dos que a procuram, fazendo dos seus dignitários verdadeiros “pastores” de homens e mulheres.

Nos tempos medievais da peste negra, esta era temida como um dos “cavaleiros” malditos do apocalipse. No século XXI, tais temores quase milenaristas já não têm razão de ser. A ciência e o conhecimento hão de vencer a pandemia. No entretanto, a oração e a fé, que emanam da Igreja e que na Igreja tomam sentido para os crentes, serão o que desde sempre foram: consolo e esperança, invocação e agradecimento, numa nova aprendizagem de solidariedade e de humanidade em tempos que parecem sombrios.


*José Miguel Sardica
Historiador e professor associado com agregação da Faculdade de Ciências Humanas e do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. A sua investigação e docência incidem sobre a história portuguesa e internacional dos séculos XIX e XX, sendo autor de mais de uma centena de livros, capítulos e artigos académicos sobre diferentes temas e épocas da história contemporânea. É também investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura e membro da direção da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, subdiretor do Programa Interuniversitário de Doutoramento em História e colunista e comentador da rádio Renascença em assuntos de história ou de atualidade política e social.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay