Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

O atraso de Leão XIII

António Jorge Pires Ferreira

Muito se tem falado da “Magnifica humanistas”, a encíclica de Leão XIV sobre a IA, geralmente de forma positiva. Clara Ferreira Alves escreveu, na última edição do “Expresso”: “Foi a Igreja Católica, os sábios cientistas do Vaticano mais do que o Papa, a primeira grande instituição a compreender a infinitude de que estamos a falar. A Igreja Católica acumula séculos de conhecimento com o instinto de autopreservação. Percebeu o perigo de um fenómeno que pode conduzir à extinção” (Revista do Expresso, 19-06-2026). E por causa deste documento – e do nome do atual papa – evoca-se a “Rerum novarum” de Leão XIII. Dizem alguns que a nova encíclica é a “Rerum novarum” dos nossos tempos. Mas há uma diferença fundamental. Leão XIV, em 2026, foi muito mais rápido do que Leão XIII, em 1891. Dirão que os tempos são outros, o ritmo é mais acelerado, agora, que a comparação não se pode fazer. Na realidade, a Igreja Católica, no século XIX, a partir de Roma, demorou muito a perceber o drama dos trabalhadores e a revolução industrial, a chamada “questão operária”, entretida que estava com a perda dos Estados Pontifícios durante a reunificação italiana. Pio IX isola-se, voluntariamente, no Vaticano (1870). Entretanto, Marx e Engels tinham publicado, em 1848, o ‘Manifesto Comunista’, que termina com as frases que inspiraram muitas lutas operárias: “Os proletários nada têm a perder a não ser as suas grilhetas. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!”. Na sequência, muitos trabalhadores abandonam as igrejas cristãs. E, antes que o Papa desse alguma orientação, católicos como Adolphe Kolpin, na Alemanha, e Albert de Mun e Maurice Maignen, em França, criaram os Círculos Operários para reaproximar a classe operária da fé católica. A “Rerum novarum”, sem dúvida importante para o que se seguiu, chegou mais de quarenta anos depois do ‘Manifesto Comunista’ e mais de vinte anos depois do ativismo de católicos, leigos e padres, “no terreno”.


Foto de Albert de Mun , pioneiro do catolicismo social | By [Isidore Alphonse] Chalot, Paris – This image is available from the New York Public Library’s Digital Library under the digital ID 1158451: digitalgallery.nypl.org → digitalcollections.nypl.org, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=12740255