SER IDOSO EM LAR COMUNITÁRIO | 7

Pe. Georgino Rocha

 

Memória agradecida

Gil, o idoso em lar comunitário, viveu um caso que gosta de contar. Ao fazê-lo, o brilho do olhar irradia a vibração do amor, que brota de um coração apaixonado. Ao fazê-lo o tom da voz oscila entre a emoção contida e a clareza forte do amante. Está viúvo, há uma série de anos. E as recordação abundam, mas a de hoje desperta a sua ternura em reserva de memória

A esposa residia num lar de pessoas idosas e sofria de alzheimer avançado. O diagnóstico médico adiantava a perda total da memória. A capacidade de relação seria nula. Sem reação a estímulos ou a vozes. Sobrevivia. Simplesmente.

Um dia, o marido, nosso protagonista, dirige-se ao quarto da esposa e um médico vem ao seu encontro. Após a saudação, diz-lhe: Senhor Gil, não vale a pena andar a cansar-se para vir visitar a sua mulher. E relata-lhe o diagnóstico, concluindo: “Ela não sabe quem o senhor é”. Olham-se com firmeza e, sem mais esperas, o nosso protagonista responde: Ela pode não saber quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é para mim”. E as lágrimas deram um novo brilho aos seus olhos.

Apreço pelos responsáveis do lar

É grande apreciador de quem tem funções no lar. Acha admirável que juntem a competência profissional ao jeito e gosto de acompanhar os residentes, de saber receber e informar os familiares, de organizar a vida em comum de forma participativa e alegre. Nunca recorreu ao livro de reclamações, nem a formas organizadas de reivindicação, mas acha importante que sejam dadas essas oportunidades aos utentes.

Reconhece, sem esforço, que o ambiente se constrói com atitudes positivas e que as pessoas podem modificar os seus comportamentos com formas de relação adequadas. Exercita o uso dos sentidos, pois já experimentou quanto fere um olhar agressivo, um toque ríspido, um cheiro desagradável. Tem um projecto de vida que valoriza as suas capacidades, gere limitações e procura tirar partido dos recursos. A energia das saudades dá-lhe força no presente e serena confiança no futuro.