SER IDOSO EM LAR COMUNITÁRIO 3
Pe. Georgino Rocha
Ocupação preferida
A ocupação preferida de Gil, o nosso protagonista, é o artesanato da ria. Procura ter sempre material de reserva na sala que destinou para estes trabalhos na sua vivenda. E como está recheada! Que bonito é ver a fase em que vão as suas obras?! Umas em tosco, outras já desbravadas, outras ainda a atingir a configuração final, a receber os primeiros traços de embelezamento. Que bem ficam as pinturas das pequenas embarcações, a fazerem lembrar o seu mundo de outrora, com os mercantéis de sal e de moliço, as frases “picantes” com que marnotos e salineiras se mimoseavam, as plantas agrestes e as flores vinagreiras impregnadas de maresia, os montes de sal brilhante a contrastar com um céu azul arrebatadpr!.
O imaginário do velho marinheiro constitui a área preferida da sua vivenda, onde refaz as experiências mais gratificantes e alimenta as aspirações sonhadas, ainda insatisfeitas. Aqui se reencontra a si mesmo e a cada um dos seus, a cada “coisa” que dá sentido à sua vida. Aqui adquire mais valia tudo o que, apesar de trivial no dia-a-dia, estabelece contacto com esse “mundo em letargia” e vem despertá-lo com uma nova emoção, cheia de saudade e gratidão.
Gestão de assuntos pessoais
Aborrece ser pesado a alguém. “Enquanto tiver forças e não me faltar o ânimo” – confidencia, cheio de convicção – “hei-de tratar das minhas coisas, governar a minha vida”. E como quem vê mais longe e quer permanecer mais livre, acrescenta: “tenho o direito de cumprir os meus deveres”.
Coerentemente, movimenta-se por seu pé e faz passeios frequentes ora sozinho, ora acompanhado; procura estar informado, recorrendo aos meios noticiosos e visitando a sala onde se ensina a usar os novos instrumentos de comunicação; mantém-se em contacto com a família, sem exageros de dependência; toma as refeições por sua mão na sala-refeitório de grupo; cultiva o gosto de observar os horários comuns; afirma serenamente as suas convicções e é tolerante com quem tem opinião diferente. Para segurança, traz consigo um censor que facilmente liga aos serviços da residência.
Periodicamente, controla a saúde. Recorre aos médicos da instituição e quase sempre fica satisfeito. Prefere a consulta geriátrica em que se cruzam os saberes dos vários especialistas, mas acha que as rotinas podem ser feitas apenas por aquele que está mais indicado conforme os sintomas.
Tem dificuldade em tomar a medicação de modo correcto, sobretudo a que exige observância de horas e de dosagem feita na altura. Por isso, aceita de bom grado o apoio dos funcionários, que lhe oferecem o melhor que sabem e podem. Cultiva por eles um grande apreço, aceita sem dificuldade as suas observações e, quando está em desacordo, gosta de afirmar o seu ponto de vista. Raramente tem dificuldades em chegar a acordo amigável com eles.
Conhece e aprecia os direitos das pessoas que vivem na instituição, mas acha que as relações humanas se empobrecem quando estão marcadas pela reivindicação de direitos ou pela exigência de deveres. “A qualidade da vida nasce e manifesta-se na dignidade de cada pessoa; é a partir daqui que temos de ser razoáveis, solidários e tolerantes” – conclui, com notável sabedoria.