Dom. Jun 13th, 2021

ROSTOS DE MISERICÓRDIA

MARIA ANTONIETA E JOAQUIM DE MENDONÇA

Pe. Georgino Rocha

Maria Antonieta dos Santos Cabral de Mendonça e Joaquim Arnaldo da Silva Mendonça casam a 8 de Dezembro de 1951 – dia de Nossa Senhora da Conceição, de quem eram muito devotos – na Sé velha de Coimbra. Foram pais de 6 filhos – 2 rapazes e 4 raparigas que “educam no sentido da união familiar e do amor da responsabilidade”, e vivem como casal a alegria da doação mútua e do serviço ao próximo em suas múltiplas situações. Dedicam-se à Igreja, não apenas tendo muito em conta a sua mensagem sobre a qual refletem profundamente, mas esforçando-se generosamente no apostolado que lhes era pedido ou espontaneamente procuravam. Escrevem páginas lindas no livro da sua vida – de que urge fazer memória constante – em que ficam registadas ressonâncias de acontecimentos marcantes deste período em que a aurora de esperança se ergue e afirma: A ação em Estarreja do reitor P. Donaciano, a realização arciprestal do Congresso Eucarístico, o envolvimento civil e político do Engenheiro Mendonça (como desde agora será nomeado) em Aveiro para onde vêm viver em 1969,  o ambiente familiar onde prima a atenção à pessoa individualizada e à comunidade de todos, o testemunho irradiante de um casal feliz durante a sua longa vida.

Opção pelo matrimónio amadurecida

Maria Antonieta (assim será referida neste texto memória “rosto de misericórdia”) nasce na Guarda, a cidade dos cinco f’s: Forte, farta, fria, fiel e formosa, no seio de uma família de 10 irmãos e, como testemunha Maria Helena Cabral de Mendonça, Leninha, como será citada outras vezes), uma das filhas, “tornou-se verdadeiramente instruída pela vivência de uma vida dedicada à família e à ajuda ao próximo”. A sua escola preferida é sempre a universidade da vida onde se faz gestora/educadora de tantos projectos quantos os filhos que, generosamente, assume e educa.

O Engenheiro Mendonça é de Estarreja e o mais novo de três irmãos. Vive a infância em Lisboa, regressa à terra natal para prosseguir estudos, frequenta a Universidade do Porto, onde conclui o curso de engenharia civil em 1951. Conhece a Maria Antonieta por intermédio de uma amiga de ambos. Fazem um percurso de namoro, ora por encontros pessoais, ora por cartas – que a família conserva religiosamente – durante sete anos, o tempo necessário para ele terminar o curso. “Relevante para o perfil do casal, considera-se a formação humanista plurifacetada feita também de uma aprendizagem simultaneamente erudita e humilde. Trabalharam juntos sempre ajudando os outros desde muito cedo”, refere a Leninha.

Ambiente vivido na terra natal

Joaquim Mendonça é certamente envolvido pelo ambiente vivido na terra natal em que a figura do reitor P. Donaciano se movimenta com grande desenvoltura e influência. E um período de grandes transformações com a chegada de unidades fabris, a abertura do externato/colégio “Egas Moniz”, o Hospital “Visconde de Salreu” confiado à Misericórdia e outras instituições de beneficência, a reorganização do Sindicato Agrícola de Estarreja, a realização do Congresso Eucarístico em 1942. Estes factos e muitos outros repercutem-se e vão moldando o modo de ser e de agir deste jovem estudante, a sua personalidade, com acentuadas características de atenção ao que acontece e ao seu alcance humanitário.

Referência especial merece o Congresso eucarístico de Estarreja, celebrado a nível arciprestal, que, segundo noticia o Correio do Vouga de Junho de 1942, “mobiliza milhares de participantes e tem grande impacto na população. Segue o programa da diocese para estes eventos com uma semana preparatória de pregação, a distribuição aos pobres mais necessitados de mil pães em todas as Juntas de Freguesia e outros actos públicos oficiais, tendo o reitor de Estarreja assumido responsabilidades especiais. Destaque também para a celebração da missa campal, o almoço servido às crianças do concelho, o coro falado por membros da Acção Católica, a alocução por um dos bispos presentes, a adoração eucarística e a procissão pelas ruas da vila”. A mensagem do Evangelho marca profundamente a vida das pessoas, o pulsar da sociedade e o ritmo da Igreja.

A vida em Aveiro

A grande preocupação que brilha na vida do casal vai para a família. A ela se dedica praticamente em exclusivo a Maria Antonieta, auxiliada sempre que possível pelo marido. A ela serve o Engenheiro Mendonça com desvelo, provendo às necessidades do lar. “Conhecia o seu nome e a sua figura como Governador Civil de Aveiro – testemunha Celerina Cunha, ao tempo responsável pelo Voluntariado no Hospital de Aveiro, de que adiante se falará. Admirava aquele cavalheiro que comigo se cruzava quando, com a simplicidade de um cidadão comum, fazia as compras para a família no mercado do peixe ou no das frutas e hortaliças: ao tempo, fins da década de 70, não era comum, homens da sua condição social, assumirem tais tarefas”.

Deram-se à sociedade de uma forma exemplar. O Engenheiro Mendonça é nomeado Governador Civil em 1979-1980 e desempenha as suas funções com grande dignidade. Recebe a medalha de Mérito da Câmara Municipal de Aveiro a 12 de Maio de 1999.

 Foi presidente do Clube dos Galitos durante mais de 20 anos. A obra do pavilhão do Clube dos Galitos é “a menina dos seus olhos”, um sonho concretizado. Dedicou-se à causa dos Bombeiros, designadamente dos Bombeiros Velhos de Aveiro (em duas ocasiões esteve em perigo de vida), como comandante e como Presidente da Assembleia. Foi também um dos fundadores da Liga dos Amigos do Hospital de Aveiro. “A mãe também deu o seu contributo, sendo voluntária desta mesma Liga e participou em campanhas de angariação de bens para a luta contra o cancro”, declara a Leninha.

Preocupação pelas pessoas doentes e seus familiares.

O testemunho de Celerina Cunha destaca a preocupação do Engenheiro Mendonça pelas pessoas doentes e seus familiares, dizendo: “Apesar das altas responsabilidades profissionais e familiares, numa grande empresa da nossa cidade e numa família de 6 filhos, sempre se mostrava disponível quando solicitado para qualquer serviço ligado com a estruturação e implementação do Serviço de voluntariado. Cordial nas relações com a Administração, com o Capelão ou com profissionais não perdia uma oportunidade de melhorar as condições de internamente dos doentes do nosso Hospital que, ao tempo, se prolongava por meses, em muitos casos”.

E salienta as “iniciativas e os eventos que promoveu e em que se empenhou, enquanto Presidente da Liga dos Amigos dos Hospital. Sendo uma pessoa muito bem formada, era sua primeira preocupação a formação inicial  dos candidatos ao voluntariado. Não se poupava a esforços para obtenção de meios que permitissem a participação de candidatos e voluntários nas Ações Formação para voluntários hospitalares, regularmente organizados pelo Voluntariado do Hospital de S. João ou pela Equipa Nacional da Pastoral da Saúde. Assumiu em colaboração com a capelania e o Conselho de Administração do Hospital, a organização das Festas de Natal dos Doentes do nosso Hospital e do Dia do Doente. Manifestava uma grande sensibilidade, quer nas suas comunicações orais, quer naquilo que escrevia: aproveitava estes eventos como oportunidade para motivar para a humanização dos cuidados, das pessoas e das estruturas. E, em jeito de quem faz a leitura de uma vida, afirma: “Todos os assomos de obstáculo eram para si desafios: perante algumas dificuldades de espaços físicos para as reuniões regulares da Direção da Liga, disponibilizou a sua casa onde éramos acolhidos pela sua esposa D. Maria Antonieta, também voluntária, com todo o carinho e mesmo alguns mimos”.

Governador Civil de Aveiro

Os anos 1979-1980 eram muito agitados na vida política nacional. O consulado de Sá Carneiro, Freitas de Amaral e Adelino Amaro da Costa produzia efeitos democráticos que os militares da Revolução de Abril viam com suspeita. O Engenheiro Mendonça é chamado a exercer funções de Governador Civil pelo ministro Eurico de Melo. Assume o mandato com determinação e cm 14 de Dezembro de 1979 define com clareza as funções da Assembleia Distrital como “órgão defensor dos interesses de uma região ubérrima em qualquer sector da vida e promotor das atividades que transformem, cada vez mais, o progressivo Distrito de Aveiro e lhe assegurem o indesmentível lugar que ocupa na vida nacional…

Será necessária a presença ativa de todos os membros interessados na realização desse plano, mas o que é mais importante, interessados em renovar toda a ação, empenhados unicamente no progresso, no bem-estar e na paz dos concelhos e das populações deste belo distrito”.

Dedicação comprovada à Igreja

A dedicação à Igreja é uma constante do casal que se expressa numa atitude de solicitude cuidada e de uma colaboração generosa. “Foi um casal extremamente dedicado à Igreja, dando-se de «corpo e alma», reconhece a filha Leninha. Participaram ativamente tanto a nível da sua paróquia (a Sé) onde a mãe foi catequista muitos anos, bem como na diocese de Aveiro”. Envolvem-se em iniciativas relevantes e serviços humildes. A atestá-lo ficam os Cursos de Cristandade, a Missão Regional, a Obra do Apostolado do Mar (Stella Maris), a participação, a convite de D. Manuel de Almeida Trindade, em 1987, na comissão que elabora estudos prévios em ordem à possível criação de novas paróquias, devido à evolução social, abertura de rodovias e outras transformações previsíveis.

O Engenheiro Mendonça foi sócio gerente da Empresa Savecol,  construtora de várias obras da diocese, designadamente a Casa Diocesana em Albergaria, o Centro Universitário Fé e Cultura e o acabamento da igreja do Seminário da Santa Joana, bem como a grande revisão da manutenção do edifício.

“Do Senhor Engenheiro Joaquim Arnaldo de Mendonça recebi o exemplo de pessoa solícita, bondosa, próxima, tolerante, completamente dedicado aos outros”, conclui Celerina Cunha no seu testemunho de proximidade. Da Maria Antonieta fica o exemplo de mãe dedicada, de catequista generosa, de cidadã interveniente e de missionária itinerante nas encruzilhadas dos caminhos da vida pastoral. O “púlpito” que privilegiou – a construção da família e sua irradiação apostólica – credenciam-na como rosto da alegria do amor e da misericórdia. O casal, sentindo embora as limitações dos seres humanos, soube fazer das ricas capacidades naturais e desenvolvidas “por uma aprendizagem simultaneamente erudita e humilde” uma dádiva permanente em serviço generoso.