Sex. Out 22nd, 2021

ROSTO DE MISERICÓRDIA – PADRE RAUL DOMINGUES DA CRUZ

Pe. Georgino Rocha (Texto)

Pe. Raul Domingues da Cruz nasce a 1909, no Sobreiro, lugar de Albergaria-a-Velha, aqui frequenta a escola primária, ingressa depois no Seminário do Porto onde conclui os estudos eclesiásticos e é ordenado na Sé por D. António Augusto de Castro Meireles, bispo desta diocese, a 6 de Agosto de 1933. Celebra a “missa nova” em Fátima, na capelinha das Aparições, a 17 de Agosto de 1933. É encarregado interinamente da paróquia de Valmaior e, depois nomeado pároco de Ribeira de Fráguas a 31 de Outubro seguinte. Realiza missão notável, na simplicidade discreta e na caridade pastoral generosa, numa doação completa, até 1986, ano em que recolhe à terra natal e em que vem a falecer a 21 de Maio.

A sua vida decorre num tempo marcado por grandes acontecimentos que se repercutem no exercício do seu ministério, sobretudo junto do povo necessitado, dos jovens em busca de um futuro de esperança, de crianças a despontarem sonhos de uma vida feliz. E o P. Raul reparte-se em esforços de bondade e de serviços de proximidade.

Acontecimentos marcantes

A mudança do regime político, em 1910, imprime um novo rumo à situação da Igreja em Portugal. A 1ª república, nos seus diversos actores, designadamente agentes políticos, impõe leis que “ferem” profundamente a consciência cristã, espoliam os bens da Igreja e perseguem responsáveis religiosos e eclesiásticos. Embora com tonalidades diferentes, a tensão crescente encontra “um escape” com o envio de capelães para acompanhar o corpo expedicionário português na parte final da 1ª Grande Guerra e com as aparições de Fátima em 1917.

A revolução de 28 de Maio de 1926, comandada pelo General Gomes da Costa, pretende restituir a dignidade à Pátria deslustrada pelos atropelos republicanos e inicia uma era de estabilidade política que oficialmente se configura no Estado Novo com a constituição de 1933. Neste ano celebra o P. Raul em Fátima a sua primeira missa. A Igreja pode respirar, com intensidades várias, os ares de um tempo novo, de formação e revigoramento anímico e espiritual nos fiéis, de  reorganização dos serviços, designadamente seminários, de construção de templos, de revitalização nas paróquias. Os católicos dispõem de directizes doutrinais e práticas, saídas do Concílio Plenário Português em 1926 e da Carta colectiva do Episcopado de 1930. São convocados para uma nova forma de presença pública, organizada, unidos e coesos. Surge a Acção Católica em 1933 que rapidamente se estende a muitas paróquias. O P. Raul acolhe e implementa este  movimento com a constituição dos organismos da Juventude Agrária.

Outros acontecimentos se sucedem com forte repercussão pastoral, como a restauração da diocese de Aveiro, em 1939, a realização do 1º Sínodo e a publicação das “Constituições do Bispado” em 1944, a difusão do Catecismo Nacional, a partir dos anos 50 e a celebração do II Concílio do Vaticano e sua recepção na Igreja. Sem esquecer “o vinte e cinco de Abril”, a revolução que desencadeia um movimento de enorme mudança em Portugal.

Nova Igreja paroquial

Segundo refere Nélia Oliveira e Nuno Jesus no seu livro “Ribeira de Fráguas – a sua História” – 2010, um violento incêndio deflagra na velha igreja matriz desta paróquia na madrugada de 4 de Maio de 1953. O fogo propaga-se a quase todo o edifício, apesar dos esforços do P. Raul que chama o povo tocando os sinos a rebate. Como não há telefone, o pároco, descalço, põe-se a caminho de Albergaria para alertar os bombeiros. O templo fica profundamente danificado e algumas partes são consumidas pelo fogo. A sua construção era de 1666.

Um outro é preciso erguer, sem demora. A situação é muito preocupante: Gente pobre e cansada de dar ( o Seminário de Santa Joana estava em construção), a procura de local mais central para a população, o consenso a gerar à volta deste ideal comum, o acerto de projectos e respectivo orçamento… caem sobre “as costas” do P. Raul como uma cruz pesada. Aflito e sem recursos, sente o peso das limitações e apoiando-se num valoroso grupo de colaboradores, “lança mão” de iniciativas várias, ficando célebre “o cortejo da telha” e a carta enviada aos colegas párocos da diocese e a amigos de outras terras. E dá o exemplo de generosidade, encaminhando os parcos haveres de que dispunha para “a caixa comum”. Em 1959, no dia de S. Tiago, padroeiro da paróquia, é dado início à edificação da nova matriz que se conclui, só ao fim de quase doze árduos anos, tal a dificuldade em se arranjarem fundos para custear as despesas.

“Com grande espírito de sacrifício e uma enorme tenacidade conseguiu dar resposta conveniente a todas as interrogações e dificuldades da população no objetivo da construção da nova igreja. É nas dificuldades que se revela a têmpera dos homens, e o Padre Raul conseguiu-o”, afirmam os autores mencionados.

 

Colaboração no exercício do poder local

O P. Raul exerce cargos públicos em dois períodos cruciais para a vida das populações. Desempenha funções de Vereador da Câmara Municipal de Albergaria, entre 1946 e 1950, e de escrivão da Junta de Freguesia de 1942 a 1956. Os efeitos da 2ª Grande Guerra faziam-se sentir de forma agravada para as famílias com poucas posses. O racionamento de bens indispensáveis, a declaração/controle da produção agrícola, as taxas/décimas agravadas… recaíam “sem dó nem piedade” sobre as costas da pobre gente do campo. O amor ao bem do povo sobrepunha-se a qualquer possível simpatia pelo regime político vigente, ainda que fosse normal neste período histórico uma natural satisfação pelo clima social conseguido. Foi também durante anos professor de Moral Católica no Colégio de Albergaria.

 

Pastor com cheiro “a ovelha”

O P. Raul cultiva um estilo de vida muito próximo aos paroquianos. É um bom “pároco de aldeia”! Acolhe quando o procuram, vai sempre que pressente ser prestável, leva consigo o que lhe parece mais útil e benéfico,  reparte bens alimentares apreciados como o mel das suas colmeias, mais de cinquenta, os produtos agrícolas da sua horta, o peixe apanhado na pesca fluvial ou na ria de Aveiro, a carne das aves e dos animais das suas caçadas. Sabe ser mediador em contendas por questões de serventia de campos ou outras.

“O Pe. Raul deu praticamente tudo incluindo a própria vida estando 50 anos ao serviço de uma paroquia e de um povo, sem reservas e sem limites daquilo que podia dar” declara um paroquiano entusiasmado que acrescenta: O carro que comprou, um Volkswagen Carocha, foi pago com metades de porco, ou seja, ia dando meia carcaça de porco para pagar a prestação do carro”.

Apoia as famílias na oração ao Sagrado Coração e ao coração Imaculado de Maria, cujas imagens quer ver em todas as casas. Apaixonado pela mensagem de Fátima, fomenta a recitação do terço e a peregrinação à Cova da Iria. Promove a renovação da catequese participando juntamente com catequistas em cursos de preparação, introduz o serviço dos ministros extraordinários da comunhão e da visita aos doentes, favorece o despertar vocacional, tendo a alegria de surgiram dois novos padres na sua paróquia. Como testemunham paroquianos seus: “Prestou sempre atenção aos mais pobres, aflitos e doentes, foi sempre uma voz de esperança, de conforto, de amizade, conselheira e, muitas vezes, agiu com ajuda material”.

 

Rosto de bondade irradiante

“Conheceu o P. Raul da Ribeira de Fráguas?”, pergunto a um colega que se aproxima dos noventa anos de idade. “Muito bem. Um homem bom, pároco solícito e piedoso”, responde.

É também esta a memória de quem relata o modo de ser e de agir do prior Raul. Tinha um carinho especial pelas crianças que lhe retribuíam as atenções. “Nos passeios realizados pela Escola, o padre Raul sempre as acompanhou e as animava com palavras alegres e amigas e até com rebuçados que distribuía por elas. Nos convívios da catequese (…) quando o senhor prior chegava, corríamos a beijar-lhe a mão e a todos afagava com carinho. É esta a imagem de saudade, bondade e agradecimento que o povo da Ribeira de Fráguas mantém nos seus corações”. Mantém e perpetua numa praça pública que lhe é dedicada.

E a misericórdia brilha no rosto de quem serve por amor, enfrenta as dificuldades com confiança, cultiva a paciência perseverante, faz da sua vida uma doação constante como hino de louvor a Deus, de alegria do Evangelho e de sentido da mais nobre aspiração da nossa humanidade.