Dom. Jun 13th, 2021

PADRE ABRAÃO DA COSTA LOPES

Georgino Rocha (Texto)

Padre Abraão nasce na cidade de Braga, em 1925, onde vive e trabalha em vários sectores, designadamente como empregado de livraria, já adulto faz estudos nos seminários de Braga, de Aveiro e dos Olivais e vem a ser ordenado presbítero em 1966, por D. Manuel de Almeida Trindade, na Igreja paroquial de São Bernardo.

Exerce o ministério pastoral na «Obra da Rua», em Paço de Sousa (1966-1978) e, depois, como colaborador do pároco de Vilarinho do Bairro, o P. António Vidal. Daqui passa sucessivamente a ser pároco de Amoreira da Gândara, de Ancas, de Eixo, de Eirol, de Requeixo e da Gafanha da Boa-Hora. A partir de 1984, é gerente da Livraria de Santa Joana, em Aveiro. Em setembro de 1999, por motivos de saúde, ausenta-se para Braga, onde tem familiares e amigos que lhe dedicam especial atenção. Habita actualmente na Casa Sacerdotal, São Martinho de Dume. Em Setembro próximo, espera fazer 92 anos de idade.

Porta aberta

Na última visita que lhe fiz, estranhei o facto de ter aberta a porta do quarto, sem que nada o justificasse. A funcionária atenta diz-me de imediato: “É ele que quer. Sempre foi assim”. E a minha memória voa para a «Obra da Rua» que consagra a pedagogia da “porta aberta” como processo de educação. No site da Obra pode ler-se, entre os princípios orientadores: Liberdade e espontaneidade: Ninguém espere fazer homens de rapazes domados. “Porta sempre aberta”; responsabilidade: Em nossas casas todos e cada um tem a sua responsabilidade; virtudes humanas: Solidariedade, generosidade, camaradagem, amor ao próximo “Os mais velhos cuidam dos mais novos”.

  1. Abraão sintoniza com o processo educativo da «Obra» que lhe imprime um típico estilo de vida na relação pessoal e na acção pastoral. Estilo efusivamente manifesto ao acolher o pequeno grupo de amigos que o visita e vai reconhecendo cada um. Sinal de um coração aberto à situação em que se encontra e que valoriza admiravelmente, à alegria de sentir as bênçãos de Deus em pequenas coisas e gestos atenciosos, simples, e, quando ajudado, à memória agradecida das pessoas que encontrou no exercício do ministério pastoral. O olhar irradia com nova intensidade ao contar que, nas suas muitas limitações, Deus lhe conserva a visão necessária para rezar a «Liturgia das Horas» sem grande dificuldade, facto que considera um benefício tão grande como um milagre. É que não consegue ler mais nada nem sequer o seu nome.

Roteiro pastoral

Juntos, fizemos um breve roteiro pastoral, peregrinando com a memória pelos rostos de pessoas e locais onde havia trabalhado. Seguimos a lista acima indicada. À medida que lembrávamos algum nome e ele o reconhecia, batia palmas de alegria, o olhar revestia um novo brilho, os lábios pronunciavam, ainda que a custo, palavras breves e expressivas. Uma vida de muitos anos concentrava-se naquele momento, a distância geográfica e histórica fazia-se proximidade contagiante, a experiência adormecida brotava em gestos e monossílabos de encanto, dando sentido à doação que sempre alimentou a sua entrega generosa. O P. Abraão comunicava assim o seu autorretrato espiritual desenhado em traços significativos que deixam marcas na história de quem conviveu ou se cruzou nos seus caminhos.

A título de exemplo, destaca-se o testemunho da Irmã Margarida Vieira, membro da comunidade das Irmãs de S. José de Cluny, na Gafanha da Boa Hora, que afirma ao repórter do «Correio do Vouga» a 03.08.1994 ser “ maravilhosa” a experiência em curso. Ela era a responsável pastoral da paróquia, enquanto o P. Abraão mantinha as funções de pároco, indo de Aveiro onde geria a livraria Santa Joana. As outras quatro Irmãs animavam o serviço socio-caritativo, acolhiam e acompanhavam jovens, reuniam com catequistas, faziam a preparação de batismos e casamentos. “Entre a Comunidade de Irmãs, os paroquianos e o padre Abraão, está a haver uma absoluta colaboração e um entendimento que muito nos apraz registar. Ninguém levanta barreiras a ninguém. Há uma harmoniosa colaboração” – remata o Diácono Daniel Rodrigues, repórter do Jornal diocesano.

Vagueira, exemplo a seguir

A preocupação por estar onde as pessoas estão e precisam de ajuda leva o P. Abraão e um grupo de generosos voluntários a realizar durante anos uma experiência inovadora: Erguer uma tenda gigante na praia da Vagueira para acolher veraneantes e celebrar a eucaristia. “No fim da celebração, refere Daniel Rodrigues, conversámos com ele, que, em linguagem discreta e simples, comentou-nos que «a iniciativa nasceu de uma necessidade pastoral. A minha comunidade, nesta época, aumenta muito com os veraneantes e era necessário prestar-lhe o mínimo de assistência religiosa, quer aqui na praia quer no parque de campismo ou na sede da Paróquia. E foi essa necessidade que me levou a tomar esta iniciativa, embora provisória, mas que julgo continuar até que, nesta praia, haja um templo». E adianta: «a Vagueira está a crescer de uma maneira inusitada e esta iniciativa serve também para se ir sensibilizando esta gente para a constituição de um futuro núcleo eclesial. A experiência tornar-se-á uma realidade com a construção do templo, a que me referi».

Vagueira, exemplo a seguir. O II Sínodo da Diocese, a decorrer, desperta a consciência de muitos cristãos e mobiliza boas-vontades. A hora é de acção alicerçada na oração, de dar as mãos e sonhar o futuro já presente nas realidades interpelantes. Realidades de que se faz eco o hino sinodal: “Caminhos novos se abrem, são caminhos de esperança”…”Unidos em comunhão, testemunho verdadeiro; despertos para a missão, somos Igreja de Aveiro”.

Livraria, local de encontro e espaço de irradiação

A arte de saber estar e “rentabilizar” os recursos de uma livraria já vinham de longe. Mas acentua-se, a partir de 1984, ano em que começa a gerir a livraria Santa Joana. Remodela os espaços, renova o recheio, cria ambiente familiar que, pedagogicamente, encaminha a visita para os mostruário e as estantes onde se encontra o que lhe pode interessar. Amigo da beleza, gosta de evangelizar pela arte. Apreciador do valioso, ainda que antigo, procura valoriza-lo, expondo-o e comentando-o com sobriedade. Atento às necessidades pastorais acompanha a vida das pessoas e, sobretudo, a das paróquias e, recheia a livraria, nas épocas litúrgicas marcantes.

Uma das lembranças que me ocorre salientar, afirma o Diácono Fernando Martins, tem a ver com “a simplicidade do seu viver e das suas relações com os frequentadores da livraria, não deixando passar a oportunidade de sugerir, delicadamente, esta ou aquela obra acabada de chegar. Dele, pois, recebi e aproveitei algumas propostas de compra”.

E o então director do «Correio do Vouga» continua o seu testemunho: “Um dia entrei na livraria e ele convidou-me para ir ao seu gabinete. Sentei-me a seu convite e mostrou-me, com um sorriso largo a iluminar o seu rosto um pouco seco, um livro antigo com edição especial. Bonito e bem cuidado, o livro nem era de autor conhecido. Folheando-o, foi-me explicando a razão por que o havia comprado para seu regalo. Deu-me a entender que possuía mais obras raras”.

Envelhecimento feliz

O modo afável de ser, o gosto pela beleza, o apreço pela arte, sobretudo santoral, constituem um registo valioso do ministério do P. Abraão. A vida gasta em doação é testemunho qualificado da grandeza do seu espírito aberto aos sinais dos tempos. O saber retirar-se a tempo, aceitando a voz da natureza que alerta a consciência para a proximidade de uma nova etapa da vida, é prova de humilde lucidez e de corajosa decisão.

Agora está na Casa Sacerdotal de Braga. Sereno e feliz. Despojado do passado e aberto ao futuro de Deus, vivendo o instante do presente. Acarinhado por todos. Dando um belo testemunho de quem sabe envelhecer como tão bem soube viver.

Reproduzo versos de estrofes do poema/oração que se encontra à entrada do corredor onde fica o seu quarto plurifuncional: “Ajuda-me, Senhor, a reconhecer as coisas boas da minha vida; dá-me força para aceitar as minhas limitações; faz, Senhor, que eu seja ainda útil para o mundo, com as minhas pequenas tarefas, mas sobretudo com o meu testemunho de paciência e bondade, de serenidade, alegria e paz. Que os últimos anos da minha vida mortal sejam como um pôr do sol feliz: na oração e na caridade, na compreensão e na esperança. Que eu saiba envelhecer e morrer com a serenidade e a coragem com que Tu, Senhor, morreste na Cruz!”.