Sáb. Out 16th, 2021

ROSTO DE MISERICÓRDIA

 MARIA FERREIRA DOS SANTOS

 

Pe. Georgino Rocha

Maria Ferreira dos Santos (Mariazinha Capela neste registo evocativo da sua vida apostólica) é a filha mais nova do casal Francisco dos Santos Carrancho e Regina dos Santos Ferreira, nasce em S. Salvador  de Ílhavo a 18 de Novembro de 1930, onde vem a falecer a 1 de Dezembro de 2017. Cresce com dois irmãos no seio de uma família íntegra e trabalhadora. Faz o percurso normal da vida cristã, tendo como pároco da Igreja matriz o P. Basílio Ferreira Jorge e outros que lhe sucederam auxiliados por coadjutores jovens e dinâmicos. Participa e vem a ser responsável no apostolado paroquial, designadamente na Juventude Operária Católica, secção da Vista Alegre, na catequese e, a partir de 1967, na equipa de visitadores de doentes. Solteira, por opção, consagra a sua vida ao bem dos outros, sendo apoiada pelas associações de piedade a que pertencia e animada pelos organismos apostólicos de que era membro. Costureira de profissão, faz do trabalho um meio privilegiado de irradiação evangélica no contacto com as pessoas que a procuram. Em casa procura aliar a arte à virtude, e ao desejo da perfeição a delicadeza paciente.

Os longos anos da vida proporcionam-lhe uma série de acontecimentos marcantes que acompanha com enorme curiosidade evangélica e notória atenção cristã. Vê nascer e morrer na sua paróquia secções da Acção Católica, florescer e murchar o entusiasmo de movimentos novos, germinar e adquirir consistência, apesar da fragilidade humana, equipas de serviço e de animação. Conhece muitas pessoas influentes na renovação da Igreja com as quais se vai relacionando ao longo dos anos. Vive momentos históricos da sociedade portuguesa que deixam marcas profundas e colidem com a sua formação moldada em movimentos católicos abertos à renovação.

O perfil de Mariazinha Capela surge, nesta memória abençoada, discreto e irradiante, nobre na humildade e edificante na mansidão. Faz lembrar a revisão de vida que Jesus tem com os discípulos, após o regresso da primeira missão, revisão bem ilustrada na oração final: “Eu Te bendigoó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do teu agrado” (Lc 10, 21-24). O testemunho da sobrinha Margarida adianta que foi “sempre muito humilde, com poucas posses mas de coração grande de tempo para os outros”. Vamos apresentar alguns traços vincados, servindo-nos de breves relatos de quem a conheceu de perto.

 

Militante da Acção Católica

A diocese de Aveiro regista, na década de 60, uma animada movimentação dos organismos da Acção Católica. A paróquia de Ílhavo marca uma presença notável. O P. Sebastião Rendeiro é assistente diocesano, ele que havia estado em Ílhavo vários anos e a esta paróquia voltaria, após a nomeação do prior Júlio Rebimbas para bispo do Algarve. Duas secções da Acção Católica: a da JOC/F na Vista Alegre e a da JAC/F no Vale de Ílhavo vêm formando jovens e irradiando o seu movimento nos ambientes locais há vários anos. Destas secções partiram dirigentes diocesanos e nacionais. Por aqui anda a Mariazinha.

“A Celebração do Dia da JOC Internacional”, pode ler-se na tese de doutoramento do P. Georgino Rocha, é feita em Ílhavo a 24 de Julho de 1966, como coroamento da campanha do ano em que participam cerca de 2.000 jovens provindos dos quatro cantos da Diocese”. E o relato afirma ser uma jornada-acontecimento em que «os jovens cantam, rezam, comungam, tocam, dançam, confraternizam entusiasmados pelo calor da amizade, fascinados por ideais que os enchem até ao íntimo». Ílhavo vem à rua e vive intensamente esta Dia. Assim muitos outros jovens são atingidos e despertos para valores novos que a JOC vive e promove. (Volume II, pág 145).

 

Doada ao Senhor Jesus para servir com liberdade

“E agora?, pergunta ao confessor. Por limite de idade tenho de deixar a JOC. Não fiquei solteira para me acomodar. Conhece algum movimento ou associação em que me possa integrar?” E o jovem padre responde cheio de bom senso e de ousadia confiante: “Certamente que já tentou, não é verdade? Mas eu, se não conhecer, procuro; e se não existir, vamos iniciá-lo. O seu desejo contém um gérmen que augura coisas novas. Convém estarmos atentos ao que o Espírito Santo nos quer propor”. E não demorou muito. A realidade estava a clamar nas necessidades verificadas.

 

Cofundadora dos visitadores dos doentes ao domicílio

Deus surpreende sempre, mesmo quando se está em busca. “É de salientar o movimento surgido em Ílhavo, em 1967 por iniciativa de Maria Capela, de Maria Vizinho e do P. Georgino Rocha, narra José Carlos Costa no seu livro «Pedaços de Saúde: Para um bem integral» pág. 251, iniciativa que vinha a fermentar já há alguns meses e se materializa na preparação mais intensa para este serviço. E o relato continua aduzindo factos, de que se salienta a participação no congresso promovido pelo Centro Internacional «Voluntari de la Sofferenza», em Fátima. A temática tem como núcleo central “O doente ao serviço da comunidade cristã, à luz dos ensinamentos de Paulo VI e do II Concílio do Vaticano”.

Outras iniciativas de vulto se seguiram. O objectivo era/é o de avivar na pessoa doente a sua dignidade e valor; de acompanhar as famílias que o desejem e não apenas fazer visitas; de motivar o doente para “ser apóstolo” de outros doentes.

A Mariazinha é a primeira responsável juntamente com o Prior P. Urbino, em Ílhavo, até 2000 e colabora com o P. Georgino nos serviços pastorais da diocese procurando difundir e organizar o movimento e apoiando dona Armanda Guedes, entretanto nomeada coordenadora.

 

 Membro do Instituto Caritas Christi

O desejo de perfeição espiritual como fonte de fecundidade apostólica impele a Mariazinha a “bater à porta” do instituto Caritas Christi. Queria “viver o seu «Sim» incondicional”. Depois da iniciação indispensável, entra em 1966. Conta agora com novo suporte para manter em “alta” o vigor daquele sim. E realiza diversas funções, designadamente dois mandatos de responsável diocesana e de vários retiros. Quem com ela conviveu atesta ser uma “testemunha muito fiel, silenciosa, orante, disponível para os outros, simples, amiga de servir”. (Circular Nacional, Fevereiro 2017, nº 10, p. 9).

 

Doente dependente: uma nova luz 

A doença de Parkinson manifesta-se em 2005, ano em que morre João Paulo II que sofreu do mesmo tormento. A Mariazinha dizia “que um dia morreria como ele sem conseguir falar ou caminhar”. E assim aconteceu. Esteve dependente de terceiros durante nove anos, “mas com o seu juizinho todo”.

“Dizia isto completamente conformada e nunca lhe conhecemos qualquer revolta perante esta cruz que Deus lhe deu no final de vida”. E a referida circular termina a notícia do seu falecimento, ocorrido a 1 de Dezembro de 2017, nestes termos: “Agora mais perto do Pai, rezemos-lhe para que seja nossa intercessora. Paz à sua alma!”

A misericórdia brilha no rosto da Mariazinha Capela: na vida e acção, disponibilidade e serviço, saúde e doença. Sob o olhar de Deus Pai, doava-se por amor. Detestava a acomodação. Sentia a felicidade do estilo de vida evangélico, o das bem-aventuranças.

 

Santos ao pé da porta

O legado espiritual da Mariazinha integra-se, sem dúvida, na feliz designação “santos ao pé da porta” do Papa Francisco ao lançar-nos o apelo à santidade: “Alegrai-vos e exultai”. Diz ele: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade».