Pessoa Notável*
RAUL DUARTE MIRA
O Padre Raul Duarte Mira nasce no Luso, paróquia da diocese de Coimbra a 3 de Maio de 1908. Após a escola primária, faz os estudos eclesiásticos no seminário de Coimbra, vindo a ser ordenado sacerdote em 4 de Abril de 1931 na Sé Nova por D. Manuel Luís Coelho da Silva. Exerce o ministério presbiteral em diversas áreas pastorais e em contextos algo complexos. Vem a falecer a 4 de Novembro na sua erra natal. Contava 80 anos, que lhe permitiram viver acontecimentos notáveis, em que foi protagonista ou testemunha.
Igreja Aveirense e a Comissão Diocesana da Cultura evocam a sua memória agradecida em que se cruzam alguns desses acontecimentos que configuram uma vida marcada pela bondade inteiramente dedicada ao serviço da Igreja situada no tempo. Recorre a testemunhos significativos embora breves.
Ser padre: ambição da minha juventude
“A minha consciência conta-me da minha ambição da juventude: ser padre!” – confessa Mons Duarte Mira à vasta assembleia que no Liceu de Aveiro lhe dedica expressiva homenagem antes de ir para África. “Deus sabe o belo ideal que abraçou a minha vida de rapaz. Ele me atirou para um futuro cor do oiro: nessa altura desconhecia as encruzilhadas da vida”.
(O Papa Pio XII, como reconhecimento do trabalho realizado, agraciou-o com a dignidade de Prelado de Honra, podendo usar o título de Monsenhor em 27 de Fevereiro de 1947).
Recordo muito bem, orgulhosamente quase, um episódio da minha vida de garoto atrevido. Teria dezassete anos? Mas era já filósofo no Seminário de Coimbra. Numas férias do Natal, … casualmente me encontrei, certa data, em casa de pessoa amiga, com pessoa cotada na região: médico por sinal. Propôs-me ele, em consideração da compassiva educação, que abandonasse o Seminário. A torre da Universidade significaria mais amplo triunfo na vida. E prodigamente, (meus Pais haviam falecido já), se ofereceu a custear as despesas da formatura. E eu, então, empertigado, cheio de mim, com a pausa e a imponência, respondi: «Não senhor! Eu quero ser padre, em plena autonomia do meu espírito! E esta frase, acentuadamente petulante, desmanchou a discussão e desorientou o adversário.
…E depois fui sacerdote, pela graça de Deus! Tinha aproximadamente vinte e dois anos e meio. O meu Bispo mandou-me para uma Vila de que devia ser Pastor. Ficava distante, nas margens do belo Zêzere. E por lá queimei (oxalá que para louvor de Deus!) o mais belo tempo da minha mocidade: cinco anos completos. Nova ordem me atirou para Aveiro.(Correio do Vouga 26.01. 1957).
Pároco da Sé e Vigário Geral
A diocese de Aveiro é restaurada a 24.08.1938, por Pio XI que nomeia D. João Evangelista da Lima Vidal administrador apostólico e, a 16.01.1940, bispo residencial. O Padre Raul Mira era o pároco da freguesia de Nossa Senhora da Glória que é escolhida para Sé episcopal. Ao mesmo tempo, D. João Evangelista nomeia-o Vigário Geral, ficando a ser como que o seu braço direito para tudo o que a nova diocese exigia. Missão que desempenha com notável esmero, competência e dedicação.
Membro da Cáritas Diocesana
Em 1956, D. João Evangelista constitui a Diocesana da Cáritas e nomeia a sua direcção, de que faz parte Mons. Raul Mira. É uma delegação da Cáritas Nacional e, desde Maio de 1948, vinha a exercer uma acção benfazeja que vai ampliando progressivamente: acolher crianças refugiadas vindas dos países do centro da Europa – a segunda guerra mundial havia sido um horror e os seus efeitos prolongavam-se por muitos anos – e para a distribuição de géneros alimentícios e peças de roupa a família carenciadas oferecidas por católicos dos Estados Unidos da América do Norte; mais tarde, a partir de 1961, também prestaria apoio às famílias dos militares e emigrantes, sobretudo clandestinos. (João Gonçalves Gaspar, Diocese de Aveiro, subsídios para a sua história, 2* edição revista e actualizada, Aveiro 2014, pág. 479).
Reconhecimento do Arcebispo: Alma branca da diocese de Aveiro
D. João Evangelista de Lima Vidal dizia: “Ele tem sido a luz dos meus olhos cegos, ele tem sido a respiração do meu peito seco, ele tem sido os braços do meu esqueleto, ele tem sido a vida da minha morte; ele é a alma branca da Diocese de Aveiro”. Nada melhor que esta citação, com grande sabor poético, para ilustrar o reconhecimento do nosso Arcebispo relativamente a Mons Raul Mira pelo que é e realizou como Vigário Geral.
E noutra passagem que faz memória, confessa a sua surpresa pelo novo vôo que ele se sente chamado a fazer. Quando há três ou quatro anos, já me não lembra, Mons. Raul Duarte Mira me falou uma vez nos seus primordiais anseios de apostolado missionário, eu sorri-lhe paternalmente, como quem se compraz em ver nadar uma criança num sonho fantástico, e repeti a palavra que disseram a S. Paulo os Juízes do Areópago: Audiemos te de hoc iterum! Fica a conversa para outra vez!
E pus-me a pensar: o bom homem! É lá possível que Deus o chame agora para os matos da África, quando a Diocese de Aveiro, ainda a vagir no berço, tanto dele precisa para a embalar? …Vá pois com Deus, e cá fica, à nossa mesa, o seu lugar à espera. (CV 19. 01. 1957).
Gratidão incalculável ao primeiro Reitor do Seminário
“Começando por recordar a história da construção do Seminário, as aulas da cadeira de Psicologia, de que foi aluno de Mestre tão prestimoso, o trabalho fecundo e persistente de Mons Mira na formação dos seminaristas, em que, por semelhança de funções, tão perto o acompanhou nestes últimos anos, disse o P. Aníbal Ramos, vice-reitor desta instituição, quanto a Diocese fica a dever ao seu primeiro Vigário Geral, de benemerências de valor incalculável e na obra do enriquecimento moral e cultura do seu clero…
Que Deus o acompanhe nessas terras escaldantes da África portuguesa, já que nós só podemos guardar-lhe um lugar de honra nas nossas orações e no cofre precioso da nossa saudade”. (CV 26. 01. 1957).
Aveiro habituara-se a querer-lhe bem
Mons Raul Mira foi Assistente dedicado, amigo e compreensivo , sacerdote exemplar e homem digno, prestimoso e bom, afirma Pedro Grangeon, presidente da Junta da Acção Católica da diocese de Aveiro. E, mais adiante, confessa: “Aveiro habituara-se a querer-lhe bem. Terra de gente bondosa e simples, tomara-o como um dos seus e sente e chora o seu afastamento.
Nesta hora amarga mas bela da despedida, é bem significativo encontrarmo-nos aqui tantas pessoas das mais variadas condições sociais que à sua volta se juntaram para lhe manifestarem o seu apreço e lhe lembrarem quanto o consideram e estimam nesta terra”. (CV, 26.01, 1957).
Missionário diligente em Quelimane
Mons Mira parte para Moçambique a convite do bispo de Quelimane, D. Francisco Nunes Teixeira. E, durante cerca de oito anos, desempenha as funções que lhe são confiadas: Na cidade e nas aldeias, nas escolas e nos serviços diocesanos. Nesse período, realiza-se o Concílio Vaticano II e começa a implementar-se a reforma preconizada; vários missionários e suas congregações, sobretudo os Padres Brancos e os Combonianos erguem a sua voz em prol de uma missionação menos comprometida com a situação política portuguesa; surgem e crescem os sinais de revolta armada pela libertação de Moçambique do regime colonial. Estes factos provocam agitação contestatária, inicialmente nos missionários estrangeiros – que os vão difundindo por jornais e revistas – e depois nos próprios naturais e residentes.
De regresso à terra natal
Mons Raul Mira regressa ao Luso, terra natal, a 1964 e o bispo de Coimbra, D. João Alves, confia-lhe diversos serviços pastorais: pároco de Luso e pároco de Vacariça, professor no Colégio da Mealhada e outros. O seu zelo apostólico e a sua bondade irradiante, a par de uma competência comprovada, abrem caminho à realização do múnus recebido e granjeiam-lhe o carinho e admiração do povo e dos colegas.