PESSOA NOTÁVEL
IRMÃ LÚCIA DE NOSSA SENHORA RODRIGUES
Pe. Georgino Rocha
Maria Júlia Soares Rodrigues – a Irmã Lúcia na memória agradecida que lhe dedicamos – é filha de Abel Soares Rodrigues e de Maria Duarte Rodrigues, nasce em Portela, Vila Verde, Braga, a 13 de Outubro de 1916 e nesta cidade vem a falecer, a 16 de Julho de 2000. É a penúltima de uma família numerosa, quatro meninas e outros tantos rapazes, que muito a acarinham e ajudam a crescer. Família, modesta de recursos, mas rica de virtudes. O Pai, médico de profissão, era um homem bom. Vivia a profissão como uma vocação, dedicando uma especial atenção aos pobres. A Mãe, como boa minhota, detinha o controlo da casa a que dispensava grande cuidado.
Neste ambiente caloroso crescia Lúcia, até que aos seis anos, o Pai tem um acidente mortal. A caminho do serviço, vai montado num cavalo e morre de ataque cardíaco. É domingo, dia especial para os cristãos. A menina-filha tem um grande choque emocional. Era de facto muito amiga de seu Pai. A Mãe vem a falecer poucos anos mais tarde com uma doença “que não perdoa”.
Tem um tio, irmão do Pai, licenciado em direito, com quem vai viver e muito a marca. “Era um santo”, diziam todos os vizinhos e amigos.
Jovem na Acção Católica
De feitio alegre e bem-humorado, vivaça e franca, conhece jovens que a cortejam em amores de adolescência e juventude. Descobre em grupo e cria raízes profundas o valor do apostolado pessoal. A Acção Católica, então em franca expansão, cativa-lhe o coração e abre novos horizontes. Valoriza-a humana e espiritualmente. Proporciona-lhe o ambiente favorável para “desenhar” o ideal que tomava forma nos seus sonhos. “O apelo a uma vida dedicada aos outros chegou e, segundo dizia, a decisão foi tomada junto ao sacrário da Igreja Paroquial de Duas Igrejas, onde vivia a sua irmã Beatriz, que ela considerava a sua segunda mãe”, adianta a Irmã Salete, no seu testemunho.
Em Braga, encontra nas Irmãs de São José de Cluny a congregação activa que pretende. E nela entra, com 25 anos, como postulante em 1941; vem a fazer a solene profissão religiosa a 13 Março de 1944. Recebe o nome de Irmã Lúcia de Nossa Senhora.
De comunidade em comunidade até à Gafanha da Boa Hora
Em Braga, tira o curso de enfermagem e trabalha no hospital de S. Marcos durante 11 anos. Dedica-se totalmente à sua profissão, onde alcança reconhecimento geral. “Muito dedicada aos doentes, era estimada pelos médicos e por todos, pois tratava ricos e pobres da mesma maneira. As prostitutas tinham grande predilecção pela Irmã Lúcia; dava-lhes carinho, o que levava algumas a mudar de vida. Não se importava de andar com elas na rua, fazendo tudo o que pudesse para terem melhor vida, o que ocasionou várias incompreensões que a fizeram sofrer muito”, como refere o testemunho citado.
Em serviço de apoio às Irmãs e de enfermagem em instituições públicas passa por Anadia e pelo Funchal e pela comunidade da Nazaré onde fica 12 anos. Em 1973 vai para a Comunidade da Sagrada Família, em Nogueiró, como doente. Faz tratamentos e reparte o seu tempo entre a comunidade e a família. E em 1976, a convite do Bispo de Aveiro, feito à congregação, vem, cheia de esperança, para a Gafanha da Boa Hora, Vagos, e com outras Irmãs realiza trabalho pastoral notável. D. Manuel de Almeida Trindade confia-lhes a missão dos serviços da paróquia, apoiando o P. José Soares Lourenço, pároco também da Gafanha do Carmo.
O ano de 1976
Este ano tem registos históricos memoráveis. A onda revolucionária que perpassa ainda em Portugal e se faz sentir com ocorrências lamentáveis em algumas zonas do sul da diocese de Aveiro, tende a entrar na normalidade com a aprovação pela Assembleia da República da nova Constituição. E com ela, com as eleições para os órgãos do poder. Também local. O cansaço parece em decréscimo. O apelo à participação soa por toda a parte. “Que todos, pedem os bispos portugueses, vencendo o natural cansaço de uma iniciação laboriosa no exercício da vida democrática, cumpram o dever cívico de tomar parte nas eleições que se avizinham…”.
D. Manuel de Almeida Trindade manifesta uma grande sensibilidade a esta causa e abertura à participação orgânica na Igreja diocesana. Em actos simples ou solenes. Em 1976, é necessário prover a Vigararia Geral e os secretariados da Cúria de novos responsáveis. Por isso, pede ao presbitério a indicação de nomes que ele aceitará para aqueles “cargos” desde que as pessoas mais “votadas” também o aceitem. “Concordando com a votação feita e congratulando-me com a confiança que, pelo seu voto, o clero da Diocese manifestou em relação aos sacerdotes cujos nomes acima se referem, havemos por bem ratificar os resultados da eleição feita”. E surge o P. António dos Santos para Vigário Geral, que pouco depois será nomeado bispo Auxiliar, e o P. José Sardo Fidalgo para director do Secretariado dos Jovens.
As Irmãs da Boa Hora chegam à paróquia neste clima familiar de diálogo e participação, apesar de conturbado. E, pela sua vida e acção, dão um belo testemunho pessoal e comunitário. De que se destaca a Irmã Lúcia Rodrigues, por razões de opção do autor desta memória em virtude de estar a chegar a realização da etapa final do Sínodo dos Bispos da Igreja Católica dedicado aos Jovens.
Jovens: A opção primeira
Logo de início manifestou desejo de trabalhar com os Jovens. Começou a contactar os que encontrava e passado pouco tempo já ia rezar o terço com alguns em casa de um ou de outro. Daí surgiram as reuniões na velha sacristia. O grupo aumentou e passou a vir um sacerdote de Aveiro, de vez em quando, para ajudar nas reuniões. Foi o início da fundação do Secretariado da Educação Cristã da Juventude (mais tarde, da Pastoral Juvenil) de Aveiro. Começaram por ajudar no grupo dos cantores na celebração da Eucaristia dominical, onde não faltava a guitarra! Isto foi novidade: Até então pouca gente ia à missa mas, devido à mudança, a igreja começou a encher-se e a Ir. Lúcia a ser conhecida e procurada, mesmo para serviço de enfermagem, relata o testemunho referido.
Na Gafanha da Boa Hora, onde viveu vinte e dois anos, encontrou a realização total pelo contacto com gente nova, que ela adorava. Só se sentia bem a lidar com os jovens e os problemas e alegrias de cada um eram vividos como se de um familiar se tratasse. Com um espírito jovem e uma vida interior muito rica, ia escrevendo o que o coração lhe ditava. Adorava a natureza selvagem e agreste que lhe falava de Deus e com a qual parecia identificar-se profundamente.
O Jovem barbeiro pobre
Quem ama inventa maneiras. Fiel a si mesma, a Ir. Lúcia faz todos os sacrifícios pelos jovens. E mostra saber escolher. Como Jesus, o nosso Mestre. Pensou em levá-los a um curso a Fátima, mas nenhum se disponibilizava, por motivos diversos. Trabalhava próximo da residência um rapaz muito pobre que exercia o ofício de barbeiro. A Irmã convidou-o para ir a Fátima, recebendo uma nega imediata por o jovem ter de ganhar o pão para a família. Ela porém não desiste e ajudou-o a reflectir. Um dia entrou em sua casa a cantar: “a decisão é tua…” ao que ele respondeu: Pronto, Irmã, vou! E o entusiasmo contagiante irradia. Porém, não havia os recursos indispensáveis. A confiança diligente não desarma. E um dia aproxima-se da Irmã Lúcia uma senhora que lhe mete 1.000 escudos na mão. Que alegria e gratidão! A quem fez a oferta e a Nossa Senhora que em tão boa hora a protegeu.
Fala um Jovem: Flashes da vida apostólica da Irmã Lúcia
Conheci a Irmã Lúcia no Colégio. Sempre acolhedora e com capacidade de juntar à sua volta um grupo enorme de jovens. A sua boa disposição e alegria eram contagiantes. Nos encontros promovidos pelo SDPJ, quando chegava, o seu bom dia era entrar de braços abertos (como se abraçasse o grupo) enquanto cantava “Amar como Jesus amou” e/ou “O S. Bento da Porta aberta” e logo um grupo de gente a abraçava.
Na Vagueira dos anos 70 e 80, sociedade machista em que os homens se juntavam no final da tarde e noite dentro na “tasca” e onde o álcool abundava e muitas vezes a pancadaria acontecia, a irmã Lúcia acorria e separava os lutadores que, envergonhados, abandonavam o local. O respeito pela Irmã Lúcia era geral e esses homens rudes e sem medo de nada, do mar, das lutas da violência, apanhados em flagrante, transformavam-se, com os olhos baixos como meninos que foram apanhados a ir ao açucareiro. Na Vagueira, o seu trabalho de mãe daquela terra transformou a juventude, aproximando-a da cultura, da religião, da boa vizinhança e da convivência social.
Visitei-a algumas vezes, anos mais tarde, e a sua delícia era falar dos primeiros grupos que constituiu, bem como mostrar as fotos antigas… Quase todos tinham emigrado e constituído família, mas iam escrevendo e mandando fotografias. (Eduardo Conde)
Irmã Lúcia era assim
Era capaz de, se alguém precisasse de uma injecção ou serviço de enfermagem, pedir a um jovem ou outra pessoa com moto para a levar ao sítio; e sentava-se na moto, atrás do condutor, para acorrer a quem precisava; era de personalidade muito alegre, muito bem disposta, sempre com uma perspectiva optimista da vida e uma visão de Deus como amor e sempre pronto para nos acolher e não como alguém que só nos fala do pecado; Jesus, para ela, era alguém vivo e bem presente – e falava do “meu Deus” e do “meu Jesus” com veemência; era muito próxima dos mais novos; utilizava com frequência a expressão “meu(s) querido(s)” para falar com algum jovem ou com um grupo, num tempo em que essa expressão não tinha sido abastardada…
Sempre de hábito religioso, acompanhou um pequeno grupo da equipa do Secretariado da Pastoral Juvenil numa viagem a Taizé, de carrinha, em regime de acampamento e a dormir no carro quando necessário. Cultivava a boa disposição e tentava, quase sempre com sucesso, criar bom ambiente.
O envolvimento da Irmã Lúcia muito contribuiu para que, na Gafanha da Boa Hora, se realizasse um Dia diocesano da Juventude. Era a garante da boa organização. O SDPJ confiava na sua capacidade de mobilizar vontades jovens e de provocar a adesão. Apesar de ser num extremo da diocese, “juntaram-se lá mais de mil jovens”, num tempo em que os transportes não eram fáceis. “Creio que foi mesmo uma das jornadas diocesanas mais concorridas, porque ela atraía muita gente” atesta António Marujo em testemunho conjunto com São Andril e João Paulo Sarabando.
A beleza do indizível
A beleza do indizível é a expressão escolhida por Teresa Grancho para dizer o muito que recebeu da Irmã Lúcia e que ainda hoje lhe dá conforto espiritual:“Dela trago a alegria permanente e jovem no louvor a Deus: as mãos erguidas e em movimento ao som e ritmo do cântico que ela tanto dizia com todo o corpo e alma: ‘Eu louvarei o meu Senhor’. E a sua face, já com o tempo a desenhar os traços da sua passagem nela, sorria, sorria, sorria muito como se nos dissesse que é delicioso ser tão próxima de um ‘Deus que dança’ e que nos faz olhar a realidade com uma inteligência única e terna, qualidades de quem tem o privilégio de estar com Ele… Sabia-me tão bem sentir o colo de Deus quando estava com a Ir. Lúcia, simplesmente estar!…”
A Irmã Lúcia vista por uma jovem da Gafanha da Boa Hora
A tia Lúcia, como carinhosamente era tratada por toda a gente, esteve connosco vinte e dois anos da sua vida consagrada e dedicou-nos todo o seu amor, carinho, trabalho e vocação religiosa. Acompanhou-nos, desde a sua chegada à paróquia e fundação da comunidade, nos bons e maus momentos: viu-nos crescer, fazer uma caminhada cristã, casar, constituir família: incentivou à oração através da fundação do grupo de oração do Renovamento Carismático; acompanhou durante muitos anos os jovens (para quem foi uma segunda mãe); deu-nos alento e coragem para seguir em frente. Vinte e dois anos não se esquecem facilmente e o seu sorriso meigo, paciente e acolhedor jamais nos sairá da memória e do coração. A melhor homenagem que lhe podemos prestar é, sem dúvida, pormos em prática tudo aquilo que dela recebemos e aprendemos, perpetuando desta maneira o seu espírito sempre jovem, já que o corpo foi devolvido ao pó da terra. A tia Lúcia está com certeza junto do Pai, intercedendo por nós.
Pe. José Fidalgo: Um olhar abrangente da Irmã Lúcia
A irmã Lúcia Rodrigues foi uma Cristã consciente da sua dignidade de baptizada. As suas intervenções na pastoral juvenil, durante o tempo em que fui director do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, da diocese de Aveiro, foram marcantes em todas as áreas que realizaram a formação global dos jovens não só da diocese como do país nas acções efectuadas nas várias localidades, nas décadas de 70 e 80 do século XX.
Nas dezenas de encontros realizados para a formação de jovens, “Despertar da Fé”, “Esperança Oração, Compromisso” ou cursos de formação de animadores e de cursos “Despertar da Vida” nas décadas de 70 e 80 do século XX, a presença da irmã Lúcia Rodrigues foi fundamental para a transmissão da mensagem evangélica.
E o P. Fidalgo lembra um caso singular: tinham projectado ir a Barcelona participar num curso de pastoral juvenil, havia a quantia necessária (10.000$00). A Irmã Lúcia conta o ocorrido a uma família da paróquia, cuja casa tinha ardido. Os jovens não hesitam e o grupo, por unanimidade: “Damos o dinheiro para esta família.” “Uma atitude verdadeiramente Cristã. Era bom que nos tempos de hoje as atitudes das Dioceses e das paróquias tivessem esta marca Evangélica. Demos o dinheiro, e não fomos ao curso, mas a nossa atitude foi Cristã. Era bom que a comunidade eclesial aprendesse com esta atitude dos jovens do século XX. Ainda hoje encontro alguns desses jovens já com 40 e 50 anos, mas permanecem verdadeiros cristãos”. A irmã Lúcia Rodrigues foi simples mas culta, humilde mas verdadeira, dinâmica mas caritativa, humana mas profundamente Evangélica, conclui o P. Fidalgo, vinte anos director do Secretariado e que recorda outras iniciativas de grande alcance na Pastoral Juvenil.
A abrir horizontes
A vida da Irmã Lúcia relatada pelas Irmãs da sua comunidade e colhida em preciosos reflexos de testemunhos amigos abre horizontes de clareza de opções, de firmeza de atitudes, de simplicidade de modos, de inserção no meio ambiente, de espírito familiar, de alegria de viver e irradiar o valor do dom que se partilha, de paixão missionária. Faz ver, sem grande esforço, a mensagem do Papa Francisco na exortação apostólica “Alegrai-vos e Exultai” publicada em Abril de 2018. Aponta claramente para a preocupação do Sínodo da Igreja sobre os Jovens a realizar em Outubro próximo para continuar a reflectir e a aprofundar o tema: «Jovens, a fé e o discernimento vocacional». “Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração”, afirma o Papa na carta que lhes escreve ao fazer este anúncio jubiloso.
E o sorriso contagiante da Irmã Lúcia brilhará por muito tempo em muitos rostos a caminho de novos horizontes.