Ter. Dez 7th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O SEU CRESCIMENTO ESPIRITUAL

Javier Sancho*

 

1. Viver o essencial

Vamos procurar agora aproximar-nos dos elementos essenciais da vida quotidiana do Carmelo que Edite faz seus. Fazem parte da sua vida diária. E embora não possamos penetrar na sua historicidade, podemos fazê-lo no significado que adquirem para ela. Ao fim e ao cabo, nisto se fundamenta a sua vida e vocação no Carmelo.

A oração é o elemento essencial do Carmelo, e é-o também na vida de Edite. É a razão da sua existência e a sua maneira de servir a Deus: “O nosso horário garante-nos horas de diálogo a sós com o Senhor, e nelas se fundamenta a nossa vida” (OC V, 564). Já numa carta escrita nos primeiros meses da sua estada no Carmelo (11 de Janeiro de 1934), escrevia: “A maioria das irmãs, quando são chamadas ao locutório, consideram-no como uma penitência. É sempre como um passo para um mundo estranho, e ficamos contentes quando nos podemos retirar novamente para a paz do coro, e assimilar diante do sacrário o que a cada uma lhe foi encomendado. Mas cada dia sinto esta paz como um magnífico dom da graça, que não pode ser dado só para nós; e se alguém se aproximar de nós  abatido e cansado, e pode tirar daqui alguma paz e consolação, então sinto-me muito feliz” (Ct 1069).

Embora a oração mental e contemplativa seja o elemento carismático central, não exime da participação na liturgia oficial da igreja, que forma parte integrante da vida da carmelita: “Tudo o resto gira à volta desta realidade (o diálogo solitário com Deus): Rezamos o Breviário com os sacerdotes e as outras ordens antigas da Igreja; e este “Ofício Divino” é para nós, como para eles, a nossa primeira e mais sagrada obrigação. Mas esta não é para nós a base fundamental. O que Deus opera nas nossas almas durante as horas de oração interior está escondido ao olhar dos homens” (OC V, 564).

A Eucaristia, o ano litúrgico, recebem no ambiente contemplativo e comunitário do Carmelo um sabor especial, que Edite sabe captar e transmitir: “Assim o ano litúrgico é no Carmelo um rosário de lindas festas, celebradas não só no sentido litúrgico, mas também como festas familiares que se vivem numa alegria cordial e estreitam o laço do amor fraterno” (OC V, 71). As grandes celebrações dos mistérios de Cristo, como o Natal e a Páscoa, adquirem um sentido especial. Mas a liturgia não se reduz aos momentos celebrativos, mas empapa toda a jornada (cf. Modelo 189 ss).

As festas marianas e josefinas são celebradas também com grande solenidade no Carmelo. A elas acrescentam-se outras muito típicas da Ordem que são vividas com um ar ainda mais familiar: São Elias, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha, Teresa Margarida Redi…

Outras duas festas têm um valor particular: a Exaltação da Cruz, no dia 14 de Setembro, dia em que começa o tempo de jejum, e a Epifania, no dia 6 de Janeiro. Em ambas as datas fazia-se a renovação comunitária dos votos. Com o passar dos anos, esta festa vai adquiri cada vez maior sentido na vida de Edite pois, em definitivo, tem relação directa com a sua vocação pessoal.

Em suma, todos estes aspectos são como que o caminho e os meios que a vão ajudar a viver em plenitude essa entrega diária que implica a sua vocação.

 

2. Configuração com o Crucificado

Foi na cruz onde Edite descobriu o destino do seu povo e o conteúdo da sua vocação no Carmelo. Isto é possível, porque na união com o Crucificado, a oração e os sacrifícios diários adquirem um valor apostólico: “O mundo está em chamas! Sentes o impulso para extingui-las? Contempla a Cruz. Desde o coração aberto brota o sangue do Redentor. Ele apaga as chamas do inferno. Liberta o teu coração pelo cumprimento fiel dos teus votos e então derramar-se-á nele o caudal do Amor divino até inundar todos os confins da terra… Tu não és médico, nem mesmo enfermeira, nem podes vendar as feridas. Estás recolhida na tua cela e não lhes podes acudir. Ouves o grito agónico dos moribundos e quererias ser sacerdote e estar ao seu lado… Olha para o Crucificado. Se estás unida a Ele, como uma noiva no cumprimento fiel dos teus santos votos, és tu o seu sangue precioso que se derrama. Unida a Ele, és como o omnipresente… Com o poder da Cruz podes estar em todas as frentes, em todos os lugares de aflição…” (OC V, 634).

Assim vive ela a sua vocação contemplativa-apostólica. É através da cruz como ela continua a crescer e a alcançar as veias da união com Deus. As suas palavras e os seus gestos delatam uma vida mística escondida e profunda. Ela não teoriza, fala desde a experiência e desde a profunda convicção de que está a cumprir a sua missão em função da sua união com Cristo. A partir deste “união mística” continua a avançar à sombra da cruz. Uma cruz que não tardará a fazer sentir novamente o peso nas suas costas.

Os sucessivos acontecimentos históricos aumentam em Edite a sua vocação de entrega. O encerramento físico, que a vida da carmelita supunha, não foi suficiente para a isolar da realidade crua que sofria particularmente o povo judaico. Esteve sempre aberta aos acontecimentos do seu tempo. A partir do ano da sua profissão simples a situação torna-se cada vez mais dramática. A 15 de Setembro de 1935 ditam-se as leis racistas de Nüremberg, segundo as quais os judeus perdem a  sua condição e direitos de cidadãos alemães. A 14 de Novembro os judeus são excluídos do direito ao voto.

As suas cartas, a sua oração, a sua vida, tudo está invadido por esse louco projecto de Hitler de eliminar os judeus. A sua família vai sofrer directamente as consequências. No seu epistolário reflecte-se a sua preocupação: “Peça, por favor, pelos meus queridos familiares. As coisas tornam-se cada vez piores para eles. Três sobrinhos já estão na América, outro prepara a sua viagem para a Palestina” (Ct 1156).

Não obstante, a irmã Benedita sabe viver tudo isto numa dimensão teologal de profunda confiança em Deus que a enche de paz. Esta será a dinâmica do seu espírito: preocupação, mas não angústia, profundamente ferido, mas cheio da paz. Sabe que a cruz se vai fazer sentir ainda mais profundamente. É o seu caminho. A ele foi chamada e como tal o acolheu. “Naturalmente, entre nós há irmãs às quais diariamente se exige um grande sacrifício. E certamente espero experimentar também novamente algo mais do que até agora a minha vocação para a cruz, onde sou tratada pelo Senhor como uma criancinha” (Ct 1120).

Todavia, neste processo, terá que continuar a experimentar mais de perto o sentimento da cruz. Em 1938 intui já qual vai ser o seu destino: “Confio em que… o Senhor aceitou a minha vida por todos. Uma e outra vez hei-de pensar na rainha Ester, que precisamente para isto foi tirada do seu povo, para interceder por ele diante do rei. Eu sou uma pobre, impotente e pequena Ester, mas o rei que me elegeu é imensamente grande e misericordioso. Isto é uma grande consolação” (Ct 1286).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 68-69.

Imagem de My pictures are CC0. When doing composings: por Pixabay