Qui. Out 28th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O ESPÍRITO SANTO

Javier Sancho*

A pessoa do Espírito Santo é objecto de profundas reflexões por parte de Edite, e outorga-lhe um protagonismo central, tanto na sua vida, como na vida da Igreja: A missão do Espírito de Jesus consiste em manter e levar avante a sua obra. Só o Espírito assegura o êxito da redenção na humanidade. Sem o Espírito não há comunicação possível entre Deus e o homem.

Edite Stein está em dia com a reflexão dogmática sobre o Espírito Santo, e inclusive fala e reflecte sobre ele no seu escrito filosófico Ser finito e ser eterno: «O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, é o amor que vai do Pai ao Filho, é a fonte da vida e a causa primeira dela, é dom, é a potência de Deus: «Para compreender agora como o Espírito Santo é o dispensador da vida criada…, convém considerar imediatamente, sumariamente, a posição da terceira pessoa na divindade…, não existe entre as pessoas outra diferença mais do que a das suas relações recíprocas, que se pode explicar pela maneira como elas aparecem… A terceira pessoa chama-se Espírito Santo “porque procede do Pai e do Filho por meio de um sopro único segundo o modo do amor; é o primeiro e supremo amor, que move os corações e os conduz à santidade que consiste em último termo no amor a Deus» (SF 432-433). O Espírito é também a Graça de Deus no coração do homem (cf. ESW VI, 158).

Mas este pensar de Edite transforma-se ainda mais cálido e vivo quando fala nos seus escritos espirituais sobre a acção do Espírito. O Espírito apresenta-se ao homem como amor, como aquele que guia para a união com Deus. Desde aqui contempla a presença essencial do Espírito na vida do homem e no destino da humanidade.

a) A sua presença contínua na História da Salvação

O Espírito Santo é a presença de Deus na História do homem. A sua acção no escondido e caracterizada pelo silêncio, nunca esteve ausente da vida do homem: «a luz divina, o Espírito Santo, nunca deixou de iluminar nas trevas do mundo caído. Ele permanece fiel à sua criação sem ter em conta as infidelidades das criaturas. E mesmo quando as trevas não se queriam deixar penetrar pela luz celeste, houve sempre alguns lugares onde pôde iluminar» (OC V, 636).

Essa presença manteve o fio da História da salvação, uma história na qual Deus nunca se afastou do seu povo, nem deixou de agir no meio deles. Encontramos provas disto no Antigo Testamento. Edite Stein sublinha especialmente a acção do Espírito no interior do homem desde Adão, e está convencida de que «os corações dos homens foram tocados na sucessão do tempo. Esta luz, escondida aos olhos do mundo, iluminava e purificava esses corações enquistados e deformados, abrandava a sua dureza e dava-lhes nova forma com mão delicada de artista, segundo a imagem de Deus» (OC V, 636).

Mas a acção do Espírito Santo alcançou o seu ponto álgido na obra da Encarnação do Filho de Deus. Ele é o artífice da união da natureza humana e divina, a qual pretenderá realizar depois em todos os homens (Cf. OC V, 115). Acompanhou também a Jesus durante toda a sua vida, especialmente nos momentos chave da sua vida, no baptismo (onde se torna visível em forma de pomba) e na sua morte e ressurreição. Por isso, o melhor dom que Jesus podia conceder à sua Igreja, como sinal da sua presença salvadora, não podia ser outro que o Espírito Santo. A partir deste momento, a missão do Espírito Santo adquire um novo protagonismo. Sem a sua presença não existe nem Igreja nem Salvação (cf. OC IV, 241).

b) Vida da Igreja

A Igreja é o sacramento da presença salvadora de Cristo no mundo, a continuação da sua obra de redenção. Mas é no Espírito, pelo Espírito e desde o Espírito que esta realidade é possível. A Igreja nasce com o dom do Espírito Santo aos discípulos. Uma Igreja que vive e cresce graças ao impulso vital do Espírito Santo: «Ocultas aos olhos dos homens, foram e são formadas as pedras vivas que constituem a Igreja visível. Mas desta Igreja invisível cresce a Igreja visível, que se manifesta sempre de novo e por todas as partes com luminosas obras e revelações divinas, com novas epifanias» (OC V, 636).

Além de ser a vida da Igreja, o Espírito Santo é o único que pode guiá-la na realização da missão encomendada por Cristo. Mais ainda, a vida litúrgica e a oração do crente perdem a sua validez se não são acompanhadas pela acção do Espírito: «Quando rompe com as formas tradicionais, fá-lo porque vive nela o Espírito que sopra onde quer: o Espírito que criou as formas tradicionais e que tem que criar continuamente formas novas. Sem Ele não haveria nem liturgia nem Igreja» (OC V, 118).

Um elemento que se torna original em Edite Stein é que contempla em Maria o rosto mesmo do Espírito Santo. Na sua poesia titulada Esposa do Espírito Santo (OC V, 826), transmite-nos este belo pensamento: «Mas tu criastes uma fiel imagem, / puríssima flor da criação, divina mansa. / Num rosto humano, celeste, claro, / revela-se a plenitude da tua luz. (…) Como esposa está unida indissoluvelmente a ti. / Oh, doce Espírito, eu encontrei-te. / Revelas-me a luz da tua divindade, / clara resplandecente, no rosto de Maria».

c) O Espírito na vida do crente

A presença activa do Espírito Santo torna-se especialmente relevante na vida do crente. Por meio d’Ele o homem é capaz de acolher a divindade dentro de si e transformar-se no seu Templo. O Espírito Santo garante ao homem a sua salvação. Mas a primeira experiência que o homem faz do Espírito de Deus é a do guia, que no mais escondido do seu interior o vai levando para a plenitude do seu ser («para que nos ensine a verdade»), e para a união com Deus: «o Espírito Santo penetra o ser da alma, ilumina-a e diviniza-a» (CC 241).

O Espírito Santo é dom e amor, por isso actua na alma do crente transformando-o com os seus dons, que são a equipagem necessária no caminho para a união. Edite Stein, no seu escrito Sancta Discretio, reflecte sobre isto (cf. OC V, 628 s).

Os dons do Espírito Santo têm como objectivo final, preparar e conduzir o homem para a união de amor com Deus. Por isso produz os seus frutos na vida quotidiana do indivíduo, como a capacidade do discernimento, de docilidade, de obediência, de liberdade (cf. OC V, 652); a sua acção liberta do erro e conduz à conversão como dinâmica de vida. Ele é, em definitivo, a fonte da paz e da alegria. Edite oferece-nos um amplo  leque da acção do Espírito no crente,  numa das suas mais belas poesias: Novena de Pentecostes (cf. OC V, 770 s.).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 181-183.


Imagem: Representação do Espírito Santo na Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano.