Sáb. Set 25th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

No centro da história da mulher

Javier Sancho*

Muito poucos livros que tratam da mulher, excepto alguns que se confessam abertamente católicos, põem Maria no centro da história da mulher. Em muitos desses estudos explica-se, uma vez que não partem do pressuposto da fé. Mais difícil seria justificar a posição daqueles que se circunscrevem num âmbito cristão. Mas sem entrar em polémicas, inclinamo-nos pela posição inteligente, teológica e bíblica de Edith Stein:

«No centro da história da humanidade e mais especialmente no centro da história da mulher, está a mulher na qual a maternidade encontrou a sua transfiguração e, ao mesmo tempo, como maternidade física, a sua superação. Se para nós em Cristo está diante dos nossos olhos o fim de toda a educação humana de uma forma pessoal-concreta-viva, em Maria está o fim de toda a formação feminina»1.

Sublinhávamos como – desde a perspectiva steiniana –, só se pode formar um autêntico feminismo cristão desde uma recta compreensão do ser humano na sua dupla aparição: como homem e como mulher. E esta compreensão só é possível – num sentido absoluto – desde a compreensão da sua origem, da sua vocação originária. Tudo isto presente – embora sempre velado pelo mistério –, no relato da criação do homem.  Mas o homem perde essa condição por causa do sue pecado e é incapaz de a recuperar com as suas próprias forças. Eis que na história aparece outro par humano que, não só reproduz em perfeição a plenitude do homem, mas leva-a até ao seu fim. Neste par contemplamos o modelo da perfeição humana no seu duplo rosto: homem e mulher.

A História da Salvação é o quadro onde Cristo se nos revela e leva a cabo a sua missão. O papel de Maria, junto ao de Jesus, tem sentido desde esta perspectiva. E desde aqui pode-se compreender a sua missão e o seu lugar na economia da salvação. Por isso, temos que contemplar em Maria, como primeiro qualificativo da sua missão junto de Cristo (o Novo Adão), a da nova Eva. Não se trata de uma simples comparação ou paralelismo, mas da realização da salvação. No início da humanidade encontrava-se um par, Adão e Eva, por meio do qual entrou o pecado. Um novo início, o autêntico, temo-lo no mistério da Encarnação: Jesus e Maria, o novo par, livres de pecado, foram capazes de cumprir perfeitamente o plano de Deus. Por isso, Jesus e Maria são, na ordem sobrenatural, os nossos autênticos pais:

«… um segundo par que não foi tocado pela condenação: o novo Adão e a nova Eva, Cristo e Maria… Cristo e Maria são os verdadeiros primeiros pais, os verdadeiros arquétipos da humanidade unida a Deus»2.

Esta unidade Cristo-Maria, assim como a relação Maria-Eva, terá no pensamento de Edith Stein um amplo desenvolvimento: “Se no limite do Antigo e do Novo Testamento junto ao novo Adão está a nova Eva, é sinal muito claro da importância e do valor eterno da diferença de sexos”3. O seu lugar junto a Cristo, como íntima colaboradora na sua missão, concede-lhe o lugar de Mãe da humanidade redimida. Ela é co-redentora com Cristo por ter acolhido até às últimas consequências a vontade do Pai:

«Na obra da Redenção vemos novamente junto do novo Adão a nova Eva, colaboradora na redenção; a imagem da humanidade perfeita apresenta-se diante dos homens numa dupla forma, em Cristo e em Maria»4.

Missão que vinha prefigurada no Antigo Testamento: quando depois do pecado Eva recebe a missão de ser mãe de todos os viventes e de lutar contra o pecado5; quando algumas mulheres do Antigo testamento realizam uma missão especial em favor da salvação do seu povo6

Do seu lugar junto a Cristo na História da Salvação deduz-se também o seu lugar ao longo da história da Igreja: não só é a primeira redimida, mas é a sua imagem e símbolo. Maria representa a Igreja enquanto que reproduz na sua vida a missão que a Igreja tem que realizar por mandato do sue fundador. Maria é Mãe, por ser a primeira redimida, a nova Eva, e porque ela melhor do que ninguém soube estar ao lado de  Cristo na sua obra redentora. A Igreja foi destinada por Cristo a exercer essa missão maternal universal, a caminhar para a redenção seguindo os seus passos. Por isso, ninguém como Maria reflecte e personifica a natureza da missão eclesial:

«Eva, que nasce do lado de Adão, é um símbolo da nova Eva – por tal entendemos a Maria, mas também a Igreja inteira – que nasce do lado aberto do novo Adão… la está a seu lado como a Igreja, como a Mãe de Deus, que é o protótipo e a célula germinal da Igreja qual colaboradora na obra da redenção… Maria é o símbolo mais perfeito da Igreja porque ela é protótipo e origem. Ela é um órgão particularíssimo: o órgão do qual foi formado todo o Corpo místico, inclusive a própria Cabeça. Pela sua posição orgânica central e essencial é chamada gostosamente o coração da Igreja… Chamar a Maria como Mãe  não é uma simples imagem. Ela é nossa Mãe em sentido real e eminente, num sentido que transcende a maternidade terrena. Ela gerou-nos à vida da graça quando se entregou a si própria, todo o seu ser, o seu corpo e alma à maternidade divina»7.

 

O «Sim» de Maria

Mas Maria não se converte na Nova Eva por um simples privilégio. Isto torna-se realidade no momento em que pronuncia o seu Sim a Deus, no momento em que livremente aceita colaborar com deus no sue plano de salvação: “Disse Maria: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a  tua palavra” (Lc 1, 38).

Para Edith este «Sim» de Maria, o fiat, tem uma enorme importância, do qual deduz diversos significados que dão luz sobre o papel da Virgem em toda a História da Salvação, e sobre as atitudes que configuram a sua vida como a escrava do Senhor.

  • É o «sim» à redenção do género humano. Ela é a «porta» através da qual se torna efectiva a salvação8.
  • O seu «faça-se» realiza a volta da humanidade perdida a Deus. É o sinal de uma redenção que se realiza na obediência dos filhos de Deus, no regresso à comunhão originária dos homens com Deus9.
  • O seu «sim» é o começo do Reino de Deus: “Quando a Bem-aventurada Virgem Maria pronunciou o seu Fiat começou o reino dos céus na terra e ela foi a sua primeira cidadã”10.
  • A resposta de Maria ao Anjo é, além disso, a expressão mais perfeita da aceitação do Reino, que exige uma resposta livre de cooperação do homem diante da graça de deus: “Mas porque Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós,… tudo isto encontra a sua coroação e a sua expressão mais perfeita no fiat da Virgem, e a sua continuação em toda a acção destinada a estender o reino de Deus trabalhando pela sua própria salvação assim como pela salvação de outras pessoas”11.
  • Em definitivo, a opção de Maria supõe uma disposição total ao serviço de Deus12. E esse vai ser o elemento que vai guiar e qualificar toda a sua vida.

1 Os problemas da educação da mulher, em A mulher 224.

2 SFSE 5 33.

3 Os problemas da educação da mulher, em A mulher 224.

4 Jugendbildung im Lichte des katholischen Glaubens, em ESW XII, 220.

5 A vocação do homem e da mulher, em Obras 126-127.

6 Os problemas da educação da mulher, em A mulher 228.

7 A mulher como membro do Corpo Místico de Cristo, em Obras 158-159.

8 A vocação do homem e da mulher, em Obras 134.

9 Cf. Die theorethischen Grundlagen der sozialen Bildungsarbeit, em ESW XII 62-63.

10 Cf. O mistério do Natal, em Obras 381.

11 SFSE 541.

12 Os problemas da educação da mulher, em A mulher 226.


*Javier Sancho. La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 100-104.

 

Imagem de JacLou DL por Pixabay