Sex. Out 22nd, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A LIBERDADE

Javier Sancho*

 

O tema da liberdade, dentro da antropologia steiniana, joga um papel de capital importância. A pessoa define-se como um ser livre, e sem liberdade não é possível a pessoa subsistir. Não é só qualidade, mas elemento constitutivo. Procuramos evidenciar os aspectos mais importantes, vistos principalmente a partir do âmbito antropológico.

a) Liberdade e pessoa humana

Para Edite Stein a liberdade não se reduz simplesmente a uma capacidade de optar. A liberdade não é algo que se dá na pessoa humana só pelo facto de ser pessoa, mas é  algo também que se alcança e realiza. É uma tarefa, tal como o desenvolvimento em plenitude do seu ser. Eu não sou livre simplesmente porque posso eleger aquilo de que gosto. Eu sou livre na medida em que alcanço e conquisto o meu ser. Aqui se sublinha a essência da liberdade, que não depende somente das condições externas, mas antes de tudo da busca da pessoa.

Só se entendermos a liberdade como a capacidade de optar por aquilo que é o melhor para mim, aquilo que me aperfeiçoa, então podemos entender toda a eleição como acção libertadora: torna-me mais homem, aperfeiçoa-me. Pensemos que numa liberdade mal entendida, não é em realidade o sujeito maduro que elege, mas os condicionalismos, os gostos, os prazeres… A falta de liberdade existe na medida em que há barreiras que impedem o desenvolvimento pleno do homem como homem.

A liberdade para Edite Stein não é uma qualidade estática da pessoa humana. É algo que a define, que a torna pessoa, e que esta conquista progressivamente. Ela postula um desenvolvimento gradual da mesma: o homem é livre na medida em que vai conquistando a sua liberdade. Por isso mesmo, distingue três graus de liberdade humana: pré-liberdade, consciência da sua racionalidade, ser si mesmo.

 

b) A pré-liberdade

O primeiro grau ou tipo de liberdade Edite identifica-o como pré-liberdade, é o que corresponde com a própria natureza do ser humano. No seu estado natural o homem descobre, mais que a liberdade, uma limitação existencial e natural. Quer dizer, a sua vida está inserida num processo natural diante do qual ele não pode optar pessoalmente: nasce, cresce e morre como qualquer outro ser vivo, sem poder fazer nada em contra.

Constata ao mesmo tempo a sua limitação individual: o homem  é filho de um ambiente, duma cultura, de umas condições de educação que o orientam num sentido ou noutro. Limitação que ele, em princípio, não pode controlar nem chegar a mudar,  e que durante a sua vida exercem nele uma influência difícil de superar. Esta realidade natural do homem limita a sua liberdade.

Contudo, será capaz de ser «livre» diante do seu mundo natural – no espaço que resta de liberdade –, na medida em que se torne consciente da sua própria limitação. Só reconhecendo a própria realidade é possível a liberdade, enquanto tomada de posição diante uma «natureza» que arrasta para onde ela quer. É o ponto de partida no caminho da liberdade.

 

c) Liberdade e razão humana

Quando a pessoa toma consciência da sua racionalidade, da sua espiritualidade, descobre que, apesar da limitação, pode ser em certo sentido livre. Realiza o exercício desta liberdade na medida em que chega a conhecer-se, a descobrir-se a si mesma e toma consciência de que «se possui». Sente que é responsável da sua vida, que «pode e deve formar-se a si mesmo» (OC IV, 648). O homem consciente da sua liberdade dá-se conta de que «o que oferece pela sua liberdade e para quê entrega o oferecido, é isto o que decide o destino da pessoa» (ESW, 140).

A liberdade é «um elemento constituinte da pessoa» (ESW XIII, 161). Ao contrário dos seres que não possuem liberdade, o homem é «Senhor da sua alma e pode abrir ou fechar as portas». É a própria pessoa que decide fazer uso ou não da sua liberdade, por mui limitada que esta seja. «Ser pessoa significa ser uma essência livre e espiritual» (OC IV, 648), entendendo por espiritual a capacidade de saber que sou e que vivo, quer dizer, ter consciência clara da minha essência e existência vividas como próprias.

Nesta perspectiva a pessoa compreende a sua liberdade como «eu posso», como «o dom de informar por si mesmo o comportamento propriamente dito» (SF 378). Enquanto Eu «desperto e espiritual» o homem move-se num mundo no qual as coisas o incitam a mover-se numa determinada direcção. Com a sua razão pode deixar-se ou não levar, ou inclusive, renunciando à sua razão e liberdade de opção, pode deixar-se arrastar pelo que lhe solicitam os instintos, caindo na anulação da sua liberdade e, portanto, do seu ser pessoa. Não obstante, a liberdade de actuação do homem permanece sempre limitada às suas capacidades e a uma longa série de condicionalismos, tanto conscientes como inconscientes (cf. ib. 389).

A superação dessa barreiras só é possível no mais profundo da sua interioridade, onde o homem se sente em sua casa e é capaz de tomar distância diante dos condicionalismos. Mas este momento alcança-se só a partir de Deus, a partir da força da graça. O crente percebe que «é livre e responsável daquilo em que se converte» e que pode e deve identificar a sua vontade com a vontade divina (OC IV, 743). A liberdade limitada do homem, e a sua incapacidade de agir guiado por um autêntico sentido da liberdade, encontra a sua razão de ser na queda dos primeiros homens, no pecado original (cf. OC IV, 783 ss., 810 ss). Desde Cristo, desde a união com Deus, o homem alcança a plenitude da sua liberdade.

 

d) Liberdade e «si mesmo»

O mais alto grau de liberdade que o homem pode alcançar coincide com a conquista da sua interioridade, quando alcançou o centro do seu ser, que para Edite Stein coincide com o centro da liberdade. Isto explicará a razão pela qual só no centro da alma, isto é, quando sou eu mesmo, se dá a união com Deus. E se o avaliamos desde a perspectiva steiniana torna-se antropologicamente lógico. Só há união total, quer dizer, união de amores, quando há liberdade. O amor não é possível sem liberdade. E a liberdade e o amor não são possíveis sem o conhecimento. Do mesmo modo que não posso amar a quem não conheço, não posso amar-me, não me posso dispor para a união mística se antes não me conheço. Aqui estaria uma das chaves que nos levariam a compreender a razão pela qual o homem só é homem na medida em que se une com Deus.

No entanto, esta liberdade não é simples conquista do homem, que «ferido» pelo pecado, é incapaz de chegar com as suas próprias forças ao mais profundo do seu ser. Este momento só será possível no seu radicalismo como dom da graça.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 176-177.


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