Sex. Out 22nd, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A ESPIRITUALIDADE EUCARÍSTICA

Javier Sancho*

A concepção da vida cristã como uma «espiritualidade eucarística» repete-se em muitos dos seus escritos, tanto no âmbito da mulher, como nos mais estritamente pedagógicos e antropológicos. Para Edite, a vida do cristão deve gravitar à volta da Eucaristia, como mistério da presença, e como actualização da nossa redenção e vocação. Nesta ficha sintetizamos em grandes traços o seu pensamento eucarístico.

a) Deixar-se modelar por Cristo

A celebração da Eucaristia é o centro da vida da Igreja. Nela contempla a sua origem e nascimento na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Uma obra realizada para sempre, e que se renova continuamente através do memorial eucarístico, que é sacramento da presença real de Cristo.

Quem compreende esta verdade não deixará passar a oportunidade de abeirar-se o mais possível a quem é o centro da sua vida. Edite Stein não pode compreender que um cristão convencido passe diante da Eucaristia com indiferença, e que prescinda dela no programa da sua vida. Não é liturgismo, nem assistência obrigatória o que Edite defende, mas vivência conforme ao que se crê.

Jesus Cristo deixou-nos os sacramentos como fonte ordinária da sua graça, como meios que nos ajudam no caminho da santificação. Mas se nalgum deles se manifesta a sua presença de um modo mais admirável é, precisamente, no sacramento da Eucaristia. É o memorial da sua obra de redenção. É o sacramento da união-comunhão. É presença real de Cristo e acção de graças ao Pai. É o acto supremo do culto dirigido a Deus. Por tudo isto, torna-se a alma e o princípio da vida da Igreja.

A celebração eucarística cria continuamente a comunidade de Cristo e une os homens entre si e com Deus. O viver cristão, para alcançar a sua plenitude, há-de acomodar-se ao mistério eucarístico, uma vez que este significa e realiza o fim ao qual o cristão é chamado: «a união mais íntima com» Cristo.

Cristo torna-se presente na Eucaristia como Verbo encarnado e como vencedor sobre o pecado e a morte; como aquele que quer abrir um caminho na alma que o acolhe. Todo o homem é convidado, se quiser configurar-se com Cristo, a «dar lugar para que o Salvador eucarístico… possa transformar a nossa vida na sua» (OC IV, 241).

b) Viver eucaristicamente

Viver eucaristicamente consiste em viver a união com Cristo. União que implica integração na vida da Igreja, Corpo de Cristo, pois «quando participamos no Santo Sacrifício e na comunhão, alimentados com a carne e o sangue de Cristo, convertemo-nos na sua carne e sangue» (OC V, 121). A importância que tem o fazer da própria vida uma vida eucarística consiste em deixar que as verdades eucarísticas actuem eficazmente. Trata-se essencialmente de três simples verdades de fé: 1. O Salvador está presente no Santíssimo Sacramento. 2. Ele renova diariamente o seu sacrifício de cruz sobre o altar. 3. Ele quer unir intimamente consigo cada alma particular na Sagrada Comunhão» (OC IV, 150-151).

A vida eucarística afecta a toda a pessoa, que se sente invadida pelos seus frutos: do Salvador eucarístico recebemos força, paz e alegria, amor e disponibilidade. Ele espera-nos para «acolher todas as nossas cargas, para nos consolar, aconselhar, para nos ajudar como o mais fiel sempre amigo» (ib. 151). Produz-se uma transformação do ser que se vai modelando segundo Cristo: «significa sair das angústias da própria vida e penetrar no horizonte infinito da vida da Cristo» (OC IV, 241).

c) Penetrar na vida de Deus

O homem que se decide a configurar-se com o Cristo eucarístico vai penetrando confiadamente na vida de Deus, deixando-se guiar e formar pelo amor divino, ó único capaz de transformar a sua vida: «Esquecer-se de si mesmo, libertar-se de todos os desejos e aspirações próprios, obter um coração para todas as penúrias e necessidades alheias, isso só pode dar-se na relação diária, confiada no Salvador no tabernáculo. Quem visita o Deus eucarístico e com Ele se aconselha em todas as ocasiões, quem se deixa purificar pela força divina que surge do sacrifício do altar e se oferece ao Senhor nesse mesmo sacrifício, quem na comunhão recebe o Salvador no mais íntimo da sua alma, esse ver-se-á sem excepção cada vez mais profunda e fortemente atraído na corrente da vida divina, crescerá no corpo místico de Cristo e o seu coração será configurado segundo o modelo do coração divino» (OC IV, 174).

d) Transformação da própria vida

O cristão que penetra no sentido da Eucaristia, descobre nela o caminho eficaz para a sua transformação e para a recuperação da sua filiação divina. É o caminho da espiritualidade do cristão, através do qual começa a ver a vida a partir do próprio Deus e a discernir os acontecimentos a partir da fé.

A vida em comunhão com o Cristo eucarístico eleva a alma por cima das suas possibilidades individuais, ancorando-a no amplo espaço da comunidade divina e eclesial. A partir da entrega eucarística o homem cresce no amor e compromete-se no seguimento de Jesus Cristo: «Se é verdade que a vida eucarística leva à união com Cristo, à igualdade de forma com Ele e portanto à redenção, tudo isto há-de tornar-se visível no homem. Constituirá um forte motivo para crer nas verdades eucarísticas mostrar com as vidas e com os testemunhos de cristãos exemplares, como era grande o seu desejo de participar no santo sacrifício e de receber a sagrada comunhão, como crescia o seu amor a Cristo, e o zelo por servi-Lo e por Lhe agradar; como saiam fortalecidos para tomar sobre si pesadas cargas e superar os seus defeitos, e como todo o seu ser e a sua vida se convertia progressivamente na imagem e no seguimento de Cristo» (OC IV, 747).

Segundo Edite Stein a vida eucarística é o caminho da espiritualidade de todo o cristão. Não é só a celebração cimeira da liturgia da Igreja, mas é o caminho que cria a Igreja, porque é o caminho por meio do qual o homem entra em comunhão com Deus e se transforma em Corpo de Cristo, num sentido real.

* Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 205-206.


Imagem de useristrator3 por Pixabay