Pedro Ferreira*
Salvo erro (admito que as emoções da JMJ talvez me tenham atrofiado um pouco o raciocínio e a capacidade de observação), desde a visita ao Bairro da Serafina, o Santo Padre não mais cumpriu até ao fim a leitura dos discursos ou homilias pré-preparados.
Na primeira vez que colocou os papéis de lado, culpou a vista pelo abandono do texto escrito. Mas eu atrevo-me a dizer que a JMJ foi, também para o Papa Francisco, uma experiência tão forte que os textos preparados previamente foram ultrapassados por aquilo que o Espírito lhe inspirou através dos gritos, dos olhares, dos sorrisos e dos toques que foram acontecendo. Saber ouvir, ver, tocar, saborear é um conjunto de virtudes que faz deste um Papa muito especial.
Até quis saborear o malte de um jovem anónimo por quem passou. Num só gesto, fez-me recordar o “dá-me de beber” de Jo 4, 7 e o “desce dessa árvore” de Lc 19, 5 (mas pode ter sido o tal efeito JMJ de que já me queixei acima).
E nós que vimos, ouvimos, tocámos o Papa dos afetos seremos capazes de saboreá-lo? O toque, o olhar, o ouvir são fundamentais mas um tanto externos, superficiais. O saborear é das entranhas. Saborear é mais do que provar. O provar avalia o todo. O saborear vai do todo ao pormenor. Não ficam de fora quaisquer subtilezas. E saborear leva a comer, e o comer a assimilar…
Especialista no “saborear”, Francisco percebeu que precisava de se soltar daquelas palavras preparadas para olhar nos olhos dos que o ouviam, na esperança que as suas palavras fossem saboreadas e assimiladas nos corações. Terão sido? Terei eu ficado ciente de que quando disse que a Igreja tem as portas abertas (ou que não tem portas) me implicou, a mim que (pelo menos aparentemente) já estou dentro ? Estarão os de fora cientes de que, quando aplaudiram estas palavras, se comprometeram a entrar?
Saberei eu que, para estar dentro, tenho que manter as vestes brancas, lavadas dos meus preconceitos, arrogâncias, faltas de caridade, preguiças, medos… Saberão os de fora que, ao entrarem, terão que vestir as vestes brancas da caridade, da humildade, da coragem, da pobreza, da paciência…
Um amigo fez-me reparar que, ao ouvir os comentadores televisivos, parecia que o Papa falava sempre para aqui e para acolá: uma vez era para o clero português, outra para a Europa, outra vez era para a Rússia, outra para os políticos, outra para os descriminados desta cor, a seguir para os descriminados da outra, agora para os ricos, depois para os pobres…
Estes comentadores não sabem saborear. Se soubessem, perceberiam que o aquilo que o Papa diz é para TODOS. E eu estou incluído nesse conjunto, na mesma barca que TODOS os demais.
Foi a mim, foi a TODOS que convidou à conversão. Que convidou a entrar, se estamos fora, e a sair para ir ao encontro dos de fora, se sentimos que estamos dentro.
Foi a mim, foi a TODOS que incentivou à coragem de quem vive na Fé. Foi a mim, foi a TODOS, que convidou à missão que se concretiza no ajudar a levantar os que estão caídos, olhando de cima para baixo penas nesta circunstância. Foi a mim, foi a TODOS que convidou, se estamos caídos, a olhar com esperança de baixo para cima à procura do braço estendido de Cristo que olha através do olhar do irmão que passa e se abeira para ajudar.
E foi para mim, foi para TODOS a alegria daqueles jovens, a mensagem daquelas coreografias, a beleza daqueles palcos, toda a harmonia daquela música, todo o simbolismo daquela cidade de sonhos marcada por pontes, estradas e rios que abrem a paisagem até ao mar como que desafiando à missão.
Foi para mim o testemunho dos milhares de jovens que encontrei partilhando alegria, civismo e fé.
Foi para mim, para mim que, há uma semana, até achava que JMJ era só para os mais novos!
Isto foi o que saboreei apressadamente. Espero vir a encontrar no testemunho dos outros os sabores que ainda não experimentei.

*Professor e secretário da Comissão Diocesana da Cultura | Aveiro


Imagem: Logo do JMJ, recolhido de https://www.lisboa2023.org/pt