Dom. Jun 13th, 2021

Casa comum | Por uma ecologia integral


Pe. João Santos*

Artigo originalmente publicado em https://paradareviver.blogspot.com/2020/10/um-olhar-global-para-enciclica-fratelli.html

O Papa Francisco lançou no passado dia 3 de Outubro a encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e amizade social. É um texto em que o Papa continua a reflexão social da Laudato Si, desta vez colocando o enfoque sobre a construção da paz entre a humanidade, cuidados e realidades a ter em conta neste processo. Considerando que a primeira Encíclica – Lumen Fidei – nasce do trabalho do seu antecessor Bento XVI, percebemos como Francisco insiste nos temas da doutrina social.

Não se trata de um texto dogmático, ou de desenvolvimento teológico, salientando-se a figura do Bom Samaritano como modelo para convidar e interpelar a humanidade a sair de si. É um texto que tem raízes no diálogo inter-religioso com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyebnomeadamente no documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum, assinado em Abu Dhabi a 4 de fevereiro de 2019.

Fazendo o diagnóstico da sociedade, Francisco identifica as exclusões sociais, a falta de consciência histórica, os perigos da globalização, a falta de sabedoria num mundo de informação como dramas do nosso tempo.

A maior parte do texto é sobretudo de carácter político e social, na medida em que reflecte sobre a forma de organização do poder e da sociedade para combater a exclusão lembrando a pertença à mesma humanidade, à mesma família humana. É neste horizonte que coloca a fraternidade universal, inspirando-se em S. Francisco de Assis. O Papa coloca a necessidade do acolhimento do estrangeiro, alerta ao ressurgimento de realidades que oprimem aquele que é diferente, denuncia a tendência actual para homogeneizar a cultura. Se é verdade que o conflito é realidade que acompanha a natureza humana (cf. nn. 237-240), a família humana é convidada a descobrir a unidade que o amor promove. Por isso o Papa apela a toda a humanidade ao acolhimento do outro por si, naquilo que cada um é, dando-lhe espaço para a sua liberdade e evitando que a humanidade caminhe para um uniformismo. A imagem que o Papa usa para sonhar a sociedade é a do poliedro, que já tinha surgido na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho (n. 215), colocada assim como paradigma para criar uma sociedade heterogénea mas sem excluídos.

O Papa sublinha que toda a transformação da sociedade é realidade que começa no coração de cada um, o qual é marcado pela fragilidade que leva ao egoísmo, e que com a ajuda de Deus é possível ser “dominada” (n. 166). Como já referi no início, o texto não trata em profundidade categorias teológicas, pelo que, por exemplo, não encontramos qualquer referência a termos como “salvação” ou “redenção” ou “Santíssima Trindade”.

Atravessado pela marca do diálogo inter-religioso, assinala-se que as religiões têm todas um contributo para dar à humanidade, pela sua abertura ao transcendente, e que «sem uma abertura ao Pai de todos, não podem haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade.» (n. 272).

É um texto marcado pelo estilo de Francisco, e por isso bastante distinto dos seus antecessores, cujas encíclicas sobre a doutrina social tinham uma maior pendor  teológico – João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis e Bento XVI, na Caritas in Veritate; nesta encíclica, a reflexão é feita predominantemente a partir da categroria humana, mesmo na leitura da figura do “bom samaritano” e como tal não se coloca tanto num texto de leitura para “inteligência da fé”, mas para um diálogo aberto com a sociedade. Creio que também terá sido por esta metodologia que o texto foi recebido com desagrado nalguns ambientes eclesiais como um texto próximo da maçonaria. Todavia, penso ser um texto que nos exorta a ter consciência do pluralidade do nosso mundo, e creio que nos chama a viver a fé no respeito pelos demais, sem que com isso nos dispense de testemunhar e anunciar o Evangelho. A tentação de neste texto ver apenas um humanismo seria redutor da Tradição da Igreja; bem sabemos que em nome de humanismo se cometeram e cometem algumas das maiores atrocidades da história da humanidade.


* João Santos nasceu em Canedo, Santa Maria da Feira, 1981. Padre da Diocese de Aveiro. Em 1999, ingressou em Engenharia do Ambiente na Universidade de Aveiro, tendo concluído os estudos de licenciatura em Engenharia do Ambiente em 2004. Após algumas experiências profissionais, foi Bolseiro de Iniciação à Investigação em Aveiro e em Viseu, desde 2006, na área da saúde e do ambiente, tendo terminado o Mestrado em Engenharia do Ambiente pela Universidade de Aveiro em 2007, ano em que entrou para o Seminário. Em 2014, concluiu o Mestrado em Teologia. Em Julho de 2015, foi ordenado padre, tendo estado, desde então, ao serviço no Seminário de Aveiro, onde atualmente é o Reitor.

Imagem de Free-Photos por Pixabay