Qua. Jun 16th, 2021

 

Casa comum | Por uma ecologia integral

 


Pe. João Santos*

Estamos em pandemia, o que alterou profundamente toda a nossa forma de vida. Creio que um dos aspectos que marca a nossa consciência, neste tempo, é a nossa dependência do meio ambiente, ou no dizer do recente magistério, do aprofundar do nosso entendimento de “casa comum”.

Quase de repente, vemos uma grande parte da população mundial – cuja maioria desde 2007 vive em cidades e por isso em zonas de elevada densidade populacional – a ter de se recolher e resguardar, não por motivos da poluição atmosférica, mas por ameaça biológica. Sem dúvida que é necessário cuidar das cadeias de fornecimentos de bens essenciais e do cuidado às populações, e não raras vezes com o sacrifício pessoal, familiar e até da própria vida. Todavia, existe outro aspecto que vai marcando o nosso pensamento. Este é precisamente a alteração dos nossos modelos económicos globais, em que se acautele a protecção do meio ambiente nas economias emergentes, concretamente na China, e onde, por falta de condições sanitárias, se gerou esta epidemia.

Parece-me, neste contexto, que o sublinhado, que o Papa Francisco faz na Encíclica Laudato Si ou mais recentemente na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazónia, em que se aponta que o cuidado da ecologia – etimologicamente, a ciência da casa – só é real se incluir e olhar para o cuidado dos mais pobres, precisamente porque também fazem parte da nossa casa. Sem este cuidado, não são só os pobres que mais sofrem, mas todos, na casa comum, que somos afectados.

Neste tempo de Quaresma, quase a chegar à Páscoa, creio que somos chamados a uma passagem de ritmo de coração – onde se decide o sentido de dom e de carência de cada um –, que nos abra um horizonte maior, que transcenda a dialéctica dos nossos problemas e dos nossos lucros, capaz de reconhecer a vida como dom maior a ser cuidado (cf. Papa Francisco, Querida Amazónia, 105).

* João Santos nasceu em Canedo, Santa Maria da Feira, 1981. Padre da Diocese de Aveiro. Em 1999, ingressou em Engenharia do Ambiente na Universidade de Aveiro, tendo concluído os estudos de licenciatura em Engenharia do Ambiente em 2004. Após algumas experiências profissionais, foi Bolseiro de Iniciação à Investigação em Aveiro e em Viseu, desde 2006, na área da saúde e do ambiente, tendo terminado o Mestrado em Engenharia do Ambiente pela Universidade de Aveiro em 2007, ano em que entrou para o Seminário. Em 2014, concluiu o Mestrado em Teologia. Em Julho de 2015, foi ordenado padre, tendo estado, desde então, ao serviço no Seminário de Aveiro, onde atualmente é o Reitor.
Imagem de Alexandra_Koch por Pixabay