Sáb. Out 16th, 2021

Pe. Georgino Rocha 

O domingo IV da Páscoa é também conhecido pelo domingo do Bom Pastor, domingo em que a Igreja celebra o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, domingo em que cada um/a de nós é convidado/a a rever a sua relação com Jesus, o Belo Pastor que nos encanta pela bondade e pelo exemplo, domingo que nos faz ver “em pano de fundo” a atitude de figuras que exercem a autoridade pública e religiosa.

João, o autor que faz a narrativa da parábola com grande mestria, lança mão de recursos vários para apresentar a identidade de Jesus. Após a cura do cego de nascença e do diálogo tenso que o envolve, pressente-se a necessidade de uma afirmação clara, de uma interpelação forte dos interlocutores, as autoridades dos judeus. E recorre à parábola do rebanho que tem pastores mercenários e um apenas que o não é. Jo 10, 11-18. 

“Os cristãos da Igreja primitiva popularizaram a figura de Jesus na imagem do Bom Pastor com uma ovelha aos ombros. Preferiam representar assim o seu Senhor, antes que crucificado. O Bom Pastor era para eles uma imagem amiga, símbolo da bondade, da solicitude amorosa do amor a toda a prova e assim chegou até nós. Que acertada imagem para um mundo que caminha sem rumo e sem guia!” Homilética.

Do contraste “mercenário-pastor” emerge, dando continuidade à tradição bíblica do pastoreio, a apresentação de Jesus como aquele que oferece a sua vida por toda a humanidade. O Bom Pastor dá a vida pelos seus que são todos os seres humanos, toda a humanidade, sem qualquer restrição. Assim o rememora o celebrante na consagração do vinho na eucaristia ao dizer: “Este é o cálice do meu sangue, sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos”.

O espanto dos ouvintes não podia ser maior. Habituados que estavam ao estatuto dos mercenários, que surpresa, que contraste, que provocação! A classificação que Jesus dá a este proceder parece cáustica: desertor, apenas interessado na paga que lhe é devida por contrato, fugitivo que busca a segurança e aguarda que a tormenta acalme e passe.

O Bom Pastor identifica-se com a sorte dos que lhe estão confiados. Reconhece-se dom de Deus Pai – o Pastor por excelência – que se faz doação em Jesus Cristo e nas suas atitudes benevolentes. Quebra a lógica do dar para receber, do entregar-se para ser retribuído. O único desejo de Jesus, belo e generoso Pastor, expressa-se na vida e sua qualidade, abundante para todos, digna para cada um.

“Que bom saber-se acompanhado por uma pessoa que nos ama e quer bem, este tão bom pastor guardando as suas ovelhas, estas ovelhas somos nós. Que consolador saber-se amado. Que felicidade simplesmente por saber que Cristo jamais nos abandona. É necessário reconhecê-lo, seguir e amar este tão bom Pastor”.

O Senhor nos chama a ser estas belas ovelhas para simplesmente nos deixar ama por ele e querer o nosso bem. Então, deixamos que se faça? Avançamos sem medo? Ponhamo-nos nos passos destas ovelhas chamadas a seguí-lo para caminharmos ao seu lado. Belo caminho em confiança!

Este desejo faz-se projecto de vida a crescer que se vai realizando de muitos modos, mas sobretudo por meio das comunidades cristãs, onde a voz é escutada na proclamação da Palavra e a vida é alimentada na celebração da eucaristia. Comunidades que irradiam o rosto do Bom Pastor, solidárias com os que assumem serviços e ministérios, com os que discreta, mas persistentemente, promovem o apostolado capilar, procurando ir aonde se encontra o necessitado.

Este domingo é uma ocasião única para orar pelas vocações. Orar pelas vocações descentra-nos, fazendo voltar o olhar para os outros. O meu marido, que ele avance sem medo na sua vocação de esposo. O meu vizinho ou colega, que ele descubra a que vocação o Senhor o chama. O amigo, que ele cresça no belo caminho da amizade. O jovem, que ouse sonhar, “em grande”, com Jesus. Vers dimanche.

“É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias. O Senhor deseja moldar corações de pais, corações de mães, corações abertos, corações capazes de grandes ímpetos, generosos na doação, compassivos para consolar as angústias e firmes para fortalecer as esperanças”. Papa Francisco.


Imagem: Representação do Bom Pastor com a figura tradicional de Jesus | Jean-Baptiste de Champaigne (1631-1681).