Sáb. Out 23rd, 2021

Pe. Georgino Rocha 

Jesus anda em missão. Encontra-se com pessoas de diferentes níveis de compreensão. A todas respeita e procura ajudar. Recorre, por isso, a diversos modos de comunicar. Escolhe cada modalidade de acordo com a capacidade dos ouvintes. Para apresentar o reino de Deus a marítimos, serve-se das lições de quem trabalha com redes, anda na pesca, conhece os segredos do mar. De igual modo, faz com comerciantes, camponeses, escribas letrados, políticos de carreira, homens do culto oficial. Mc 4, 26-34.

É belo este modo de proceder! É exemplar esta pedagogia! É apelativa esta proximidade para todos os que são chamados a lançar a semente da Palavra no coração humano, tendo em conta o pulsar do seu ritmo, das suas alegrias e dores.

O Santo Padre, em variadíssimas ocasiões, fala-nos do matrimónio a ser considerado como um desafio, uma vocação a nascer, crescer e ser cuidada dentro da comunidade cristã. E lança o alerta para a falta de maior consciência que o matrimónio é uma vocação, um chamamento, um apelo de Deus a uma vida plena e feliz. Desafio que é processo em realização como o crescimento do reino de Deus anunciado em parábolas por Jesus.

O reino de Deus é a expressão bíblica que melhor designa a realidade nova anunciada por Jesus: Deus é Pai, os humanos são filhos deste Pai comum e, por isso, irmãos por natureza e por graça. Os bens pertencem a todos por mandato divino, a biodiversidade faz parte da harmonia e do equilíbrio dos seres criados e dos sistemas em que se desenvolvem, a vida é “sagrada” e, enquanto peregrina na terra, a caminho da situação definitiva, está marcada pelas regras do tempo e da cultura. A convivência social, alicerçada no amor e na justiça, constitui uma das manifestações humanas mais qualificadas do “rosto” público deste reino, em germinação na história.

Todos os que tinham o coração disponível exultam de alegria, ao ouvirem, em linguagem acessível, o anúncio entusiasta desta realidade envolvente e familiar, e dão largas à esperança renascida e ao alento recebido. A mudança de disposição interior representa o início de uma caminhada que, por vezes, vai prosseguir em novos passos de adesão à mensagem e de seguimento da pessoa de Jesus. E surgem as multidões que se organizam em comunidades e grupos de discípulos, em Igreja, que testemunham ser humanamente viável a mensagem proclamada por Jesus. Assim, ao longo da história. Assim, hoje.

F. Palazón afirma que“nos sentimos «semente» plantada pela mão de Cristo Semeador no meio do nosso mundo para frutificar. Nossa tarefa de lavradores: preparar o terreno, semear, regar, cuidar que a semente se crie sem dificuldades, que não lhe falte o clima que a enroupe e a faça crescer. Deus se compraz no débil e no pequeno. O Reino de Deus arranca do pequeno: o grão de mostarda, Jesus começa a sua missão com doze pobres e débeis apóstolos; o banquete da Eucaristia arranca de duas pobres ofertas: pão e vinho. A semente é a Palavra de Deus, o semeador é Cristo. A pequena semente possui em si uma grande força. Deus lhe dará o crescimento”., Homilética 2021/4, 369.

Um homem lança a semente à terra, um grão de mostarda é colocado na horta. Neste cenário tão simples, Jesus dá a conhecer o “mistério” do reino: a sua presença discreta, a energia fecunda da sua seiva, a tendência universal do seu crescimento, a certeza inabalável da sua realização em benefício do ser humano chamado a adoptar, livremente, a atitude responsável mais congruente. Que contraste com a forma tradicional de apresentar o reino de Deus! Que impacto não começa a provocar na gente ilustrada e curiosa que acorria a ouvir Jesus para examinar a sua ortodoxia! Que interpelação é feita a quem tem de ensinar em nome de Jesus e da sua Igreja, sobretudo em homilias e catequeses!

As árvores frondosas e robustas cedem lugar a simples grãos de semente. O messias “arrasador” surge como um humilde semeador de hortas e campos, amigo de excluídos sociais pelos líderes políticos e religiosos. As técnicas vitoriosas não têm a ver com a manipulação indiscriminada das sementes nem com o controle hegemónico do sistema alimentar ou a quantidade numérica da produção; tem a ver sobretudo com a proximidade, o cuidado, o serviço e a confiança. Os frutos apetecidos manifestam-se no acolhimento aberto a todos/as, na fecundidade generosa, na aceitação humilde das leis do crescimento, na qualidade do relacionamento. Assim na acção pastoral das comunidades e movimentos.

O Papa Francisco lembra o papel do “Espírito Santo (que) trabalha como quer, quando quer e onde quer; e nós gastamo-nos com grande dedicação, mas sem pretender ver resultados espectaculares. Sabemos apenas que o dom de nós mesmos é necessário. No meio da nossa entrega criativa e generosa, aprendamos a descansar na ternura dos braços do Pai. Continuemos para diante, empenhemo-nos totalmente, mas deixemos que seja Ele a tornar fecundos, como melhor Lhe parecer, os nossos esforços”.


Imagem de Shadi Mohammad Chowdhury por Pixabay