Sex. Dez 3rd, 2021

Pe. Georgino Rocha 

Não estranhes, homem com lepra, receber por correio eletrónico a mensagem de um padre católico. Vivo junto ao mar Atlântico, numa região a que deram o nome de Lusitânia. Leio com frequência as Escrituras e vou-me informando do estatuto social e religioso das pessoas que sofrem de lepra. Sei também que os rabinos multiplicam as regras protectoras de quem tem saúde, agravando a situação de quem sofre de doença. Estás escorraçado da sinagoga e da sociedade. Em “nome de Deus”! Vives a “monte” ou em esconderijos, à distância, para nem sequer seres visto. Tal o medo de contágio!

Olha, meu Irmão, ao ver a tua situação, nós os que vivemos em 2020-2021, podemos compreender melhor o que significa a pandemia e o possível contágio: doença grave, isolamento, rigor nos cuidados de higiene, sofrimento atroz e outros males que nos ameaçam de morte. E isto sofre-se, hoje, em quase todo o mundo, provocando uma distância aflitiva entre as pessoas. A distância não é apenas geográfica, mas afectiva, familiar, social e religiosa. Como bem sabes, todos somos humanos, temos coração, precisamos de laços de união e de pertença, sentimos necessidade de ser apreciados e reconhecidos.

Por isso, quero dizer-te, meu irmão, o que me vai na alma, o que faz nascer em mim o teu encontro com Jesus de Nazaré, na sua itinerância pelas tuas terras da Galileia. Mc 1, 40-45.

Admiro a tua coragem, fruto certamente da tua fé confiante. Que ousadia provocante! Tomas a iniciativa e aproximas-te de Jesus. Ignoras intencionalmente que estavas proibido de andar na rua, quando alguém fosse a passar, e tinhas de gritar “impuro”, “maldito”, para o avisar da tua proximidade ou, então, de fugir para evitar qualquer contágio. Transgrediste conscientemente uma lei “sagrada”. Arriscaste a vida que te restava, pois podias incorrer na pena de morte.

Por sua vez, Jesus faz o mesmo: estende a mão e toca-te, realizando um gesto de grande proximidade, mostrando uma liberdade superior, abrindo os horizontes novos da saúde integral para todos. E tu ficas curado no corpo, perante a sociedade, e abençoado por Deus, sinais públicos de integração na comunidade. Vês assim recuperada a tua dignidade de pessoa humana.

A atitude de Jesus nestes tempos de pandemia brilha na doação de pessoas com familiares contagiados e têm de permanecer em casa, de médicos e enfermeiros, de funcionários e agentes de limpeza. E de muitos outros dispostos ao risco do contágio por amor à vida dos infetados, por compaixão e solidariedade incondicional. É muito humano e quase heroica esta doação arriscada.

Com o teu proceder, meu bom irmão, ensinas-nos que os “milagres” de Jesus passam pelos nossos gestos. Tu fizeste ouvir a tua voz, ajoelhaste, colocaste a solução do teu “problema” nas suas mãos e aguardaste. Não temeste ser afastado como um maldito, nem tratado como um blasfemo. Apenas mostraste a disponibilidade radical para receberes o que ele entendesse por bem.

Deixa-me dizer-te outra maravilha: mostras uma disposição radical sublime. E ocorre-me uma pergunta: como chegaste a essa disposição do coração? Tu sabias que desse encontro dependia a tua vida. Arriscavas tudo. Estou em crer que a tua fantasia trabalhou bem os comentários que ias ouvindo, talvez às escapadelas. A intensidade do teu sofrimento reclamava libertação e pressionava as tuas capacidades activas. Impunha-se uma decisão ousada. Felizmente, soubeste tomá-la oportunamente. A tua sabedoria intuitiva leva-te a acertar, em cheio, na corda mais sensível do coração de Jesus Nazareno, o mestre itinerante. E a sua reacção, com todas as consequências, não se fez esperar: Toca-te com a mão e exclama: “Quero, fica limpo”! E, no mesmo instante, a lepra deixou-te. Que eficácia maravilhosa.

E, com a liberdade adquirida, podes seguir nos caminhos da vida: anunciando o que te aconteceu, espalhando a notícia, criando curiosidade em muitas outras pessoas que acorrem a ver e ouvir Jesus. Podes sentir-te um homem normal, deixando crescer a barba, sinal de honradez e de responsabilidade; vestindo a roupa comum, símbolo da plena integração e pertença à comunidade; mantendo o cabelo alinhado e o rosto descoberto, traços distintivos de quem sabe conviver em sociedade.

Obrigado, meu irmão, porque a tua lepra fica como referência dos males que ameaçam a vida humana ao longo dos tempos; a tua atitude como pauta a ter em conta na luta pela saúde integral; o teu encontro com Jesus Cristo como exemplo para todos os que alimentam o desejo de verem sanadas as feridas da vida e satisfeita a aspiração mais profunda do coração: a alegria de viver em família, em comunidade.

Olha, irmão liberto e sanado, vou terminar lembrando o que dizia um amigo meu, cardeal Pirónio, que não devemos ter medo de viver a alternativa da civilização do amor, que é “uma civilização da esperança: contra a angústia e o medo, a tristeza e o desânimo, a passividade e o cansaço. A civilização do amor constrói-se diariamente, sem interrupções. Pressupõe um esforço concertado de todos. Para isto, requer uma comunidade de irmãos comprometidos.” Como sobressai no teu encontro com Jesus de Nazaré.


Imagem de Christine Engelhardt por Pixabay