Qui. Out 28th, 2021
Artigo e foto recolhidos do SNPC

«Profeta de esperança e testemunha da sede de infinito presente no coração» do ser humano, denunciador dos cristãos que traíram o Evangelho, inventor genial de imagens: é nestes termos que o papa evoca o autor de “A divina comédia”, Dante, por ocasião do sétimo centenário da sua morte, no texto “Esplendor da luz eterna”, publicado hoje.

«Desejo, com esta Carta Apostólica, unir a minha voz à dos meus antecessores que honraram e celebraram o poeta», para o «propor de novo à atenção da Igreja, à universalidade dos fiéis, aos estudiosos de literatura, aos teólogos, aos artistas», manifestando «tanto a atualidade como a sua perenidade, e recolher aquelas advertências e reflexões que ainda hoje são essenciais não apenas para os crentes mas para toda a humanidade», assinala Francisco.

Nascido em 1265, Dante Alighieri, «melhor do que muitos outros, soube exprimir, com a beleza da poesia, a profundidade do mistério de Deus e do amor», e, a par desta dimensão divina, soube, com a “Divina Comédia”, revelar «uma mina quase infinita de conhecimentos, experiências, considerações em todos os campos da pesquisa humana», em particular ao ser «capaz de ler o coração humano em profundidade».

Dante vislumbra, «mesmo nas figuras mais abjetas», «uma centelha de desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida», e essa meta, como mostram alguns episódios e personagens de “A divina comédia”, não está «vedada a ninguém na terra», característica que se cruza com a acentuação da misericórdia divina na qual o papa insiste.

«A obra de Dante é parte integrante da nossa cultura, remete-nos para as raízes cristãs da Europa e do Ocidente, representa o património de ideais e valores que também hoje a Igreja e a sociedade civil propõem como base da convivência humana, na qual podemos e devemos reconhecer-nos todos irmãos», aponta Francisco, numa referência à sua mais recente encíclica, ”Fratelli tutti”.

O papa acentua que «na missão profética de Dante inserem-se também a denúncia e a crítica contra os crentes, tanto pontífices como simples fiéis, que atraiçoam a adesão a Cristo e transformam a Igreja num instrumento em prol dos próprios interesses, esquecendo o espírito das Bem-aventuranças e a caridade para com os pequenos e os pobres e idolatrando o poder e a riqueza:

«Ao mesmo tempo que denuncia a corrupção de alguns setores da Igreja, faz-se porta-voz de uma renovação profunda», recusando ceder «à injustiça, à hipocrisia, à arrogância do poder, ao egoísmo», refere o documento, que, na versão para Portugal, recorre à tradução da obra bilingue de Vasco Graça Moura “A divina comédia de Dante Alighieri” (ed. Bertrand).

Na obra de Dante, sublinha Francisco, é possível «quase entrever um precursor» da atual «cultura multimediática, na qual palavras e imagens, símbolos e sons, poesia e dança se fundem numa única mensagem».

«Que poderá ela [“A divina comédia”] comunicar-nos, no nosso tempo? Terá ainda algo a dizer-nos, a oferecer-nos? Terá a sua mensagem alguma função a desempenhar também para nós na atualidade? Poderá ainda interpelar-nos?», questiona.

Francisco «exorta as comunidades cristãs as instituições académicas, as associações e os movimentos culturais a promoverem iniciativas visando o conhecimento e a difusão da mensagem de Dante na sua plenitude», e encoraja «os artistas a dar voz, rosto e coração, a dar forma, cor e som à poesia de Dante, ao longo da via da beleza que ele percorreu magistralmente; e assim comunicar as verdades mais profundas e, com as linguagens próprias da arte, difundir mensagens de paz, liberdade, fraternidade».

«Hoje, Dante – tentemos fazer-nos intérpretes da sua voz – não nos pede para ser simplesmente lido, comentado, estudado, analisado. Pede-nos sobretudo para ser escutado, ser de certo modo imitado, fazer-nos seus companheiros de viagem, porque quer-nos mostrar, também hoje, qual é o itinerário para a felicidade, a direita via para viver plenamente a nossa humanidade, superando as selvas escuras onde perdemos a orientação e a dignidade», frisa.

Com efeito, o itinerário de “A divina comédia” é «o caminho do desejo, da necessidade profunda e interior de mudar a sua própria vida para poder alcançar a felicidade».

Para Francisco, o «humanismo de Dante» permanece «válido e atual e pode certamente constituir um ponto de referência» não só para quem o estuda, como também «para todos aqueles que, ansiosos por dar resposta às questões interiores, desejosos de realizar em plenitude a sua existência, querem viver o seu itinerário de vida e de fé de forma consciente, acolhendo e vivendo com gratidão o dom e o compromisso da liberdade».

O documento destaca que os dramas vividos por Dante são inseparáveis do seu escrito «mais célebre»: «A profunda desilusão pela queda dos seus ideais políticos e civis, juntamente com a penosa peregrinação de uma cidade para outra à procura de refúgio e apoio [obrigado a exilar-se de Florença, onde nasceu e foi batizado] não são alheias à sua obra literária e poética; pelo contrário, constituem a sua raiz essencial e a motivação de fundo».

«Dante, refletindo profundamente sobre a sua situação pessoal de exílio, incerteza radical, fragilidade, mobilidade contínua, transforma-a, sublimando-a, num paradigma da condição humana, que se apresenta como um caminho – mais interior que exterior – sem paragem alguma enquanto não atingir a meta. Deparamo-nos, assim, com dois temas fundamentais de toda a obra de Dante: o ponto de partida de todo o itinerário existencial, o desejo, presente no ânimo humano, e o ponto de chegada, a felicidade, dada pela visão do amor que é Deus».

As perseguições que o porte sofreu no plano humano podem ser lidas como imagens de toda a existência cristã: «Dante exilado, peregrino, frágil, mas agora forte pela profunda e íntima experiência que o transformou, renascido graças à visão que, das profundezas dos infernos, da mais degradada condição humana, o elevou à própria visão de Deus, ascende a mensageiro de uma nova existência, a profeta duma nova Humanidade que anseia pela paz e a felicidade».

No entender do papa, há «uma profunda sintonia entre S. Francisco e Dante: o primeiro, juntamente com os seus companheiros, saiu do convento e foi para o meio do povo, pelas estradas de aldeias e cidades, pregando ao povo, parando nas casas; o segundo fez a escolha, então incompreensível, de usar no grande poema do Além a linguagem de todos e povoando a sua narração com personagens conhecidos e menos conhecidos, mas completamente iguais em dignidade aos poderosos da terra».

O documento começa por referir «as palavras sobre Dante Alighieri dos Romanos Pontífices do último século», recordando que o próprio Francisco, na sua primeira encíclica, “Lumen fidei”, fez referência a Dante, e voltou a propô-lo noutras ocasiões do pontificado.

“A vida de Dante Alighieri, paradigma da condição humana”, “A missão do poeta, profeta de esperança”, “Dante, cantor do desejo humano”, “Poeta da misericórdia de Deus e da liberdade humana”, “A imagem do homem na visão de Deus”, “As três mulheres da Divina Comédia: Maria, Beatriz, Luzia”, “Francisco, esposo da senhora Pobreza” e “Acolher o testemunho de Dante Alighieri” completam os nove tópicos da carta apostólica.

A carta apostólica é publicada no dia 25 de março, quando a Igreja celebra liturgicamente a Anunciação, o momento em que Maria acolhe o anjo que lhe propõe ser mãe de Deus, nove meses antes do Natal: «O mistério da Encarnação, que hoje celebramos, é o verdadeiro centro inspirador e o núcleo essencial de todo o poema», e foi «significativo também na vida histórica e literária» de Dante.


Rui Jorge Martins
Imagem: Dante Alighieri