Sex. Dez 3rd, 2021

No 20.º aniversário da Morte do Pe. Arménio

Padre Arménio – Músico. A sua relação com os órgãos de Aveiro [5]

Domingos Peixoto
  1. O Pe. Arménio organista/organeiro

          Refira-se, antes de mais, que os critérios de intervenção nos órgãos históricos não foram sempre os mesmos. Durante séculos, em toda a Europa foi prática corrente arranjar os órgãos de tubos, actualizá-los e modernizá-los, adaptando-os aos gostos da época e às necessidades da liturgia. Durante a primeira metade do séc. XX foi despertando, pouco a pouco, uma outra atitude perante os órgãos históricos: encará-los como obra de arte no seu conjunto, preservando a sua identidade histórica, tanto relativamente à caixa, como à sonoridade. No final da década de 50, partiu para a Holanda – um dos países pioneiros nesta corrente – o organeiro João Ramos Sampaio, membro da empresa portuguesa João Sampaio & filhos, a mais credenciada na reparação de órgãos. O estágio foi na Casa holandesa Flentrop, que iria construir, alguns anos mais tarde, os órgãos da Sé de Lisboa (o grande e o do coro alto) e do grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. A mesma Casa Flentrop iria proceder, pouco depois, ao restauro dos primeiros órgãos históricos portugueses, segundo os novos parâmetros: Sés de Évora, Faro e Porto e Capela da Universidade de Coimbra. Tanto a construção como os restauros contaram com o suporte financeiro da Fundação Gulbenkian.

          Porém, a nova atitude de preservação dos instrumentos históricos demorou tempo a propagar-se e, em Portugal como noutros países, continuaram a fazer-se intervenções noutro sentido. Entre nós, bastará citar o caso do órgão da Igreja de São Roque (Lisboa) que, embora sendo da autoria do nosso emblemático organeiro António Xavier Machado e Cerveira, foi remodelado em 1962, colocando-lhe mais um teclado e uma pedaleira.

           Esta nota pretende apenas dizer que as intervenções feitas nos órgãos de Aveiro, a que nos vamos referir, têm que ser enquadradas no contexto de uma época, da qual já cerca de 50 anos nos separam.

          Embora utilizando habitualmente o harmónio, o Pe. Arménio teve contacto com diversos órgãos de tubos durante a sua formação. Desde logo, na sua igreja paroquial (São Jerónimo de Real – Braga) existia um instrumento construído por José António de Sousa, em 1882. Também no coro da capela do Seminário Conciliar se encontrava um pequeno órgão pertencente à Biblioteca Musical do Porto. E no Seminário de São Pedro e São Paulo – o único em que a liturgia era acompanhada por órgão de tubos – existiam dois instrumentos em funcionamento: o grande órgão no coro alto, da autoria de Augusto Joaquim Claro, e um pequeno órgão de coro na capela-mor. Além disso, durante a sua permanência em Braga, o Pe. Arménio ouvia regularmente, nas cerimónias solenes, um dos órgãos da Sé.

          No Seminário dos Olivais não existia órgão de tubos; apenas no final da década de 60 aí foi instalado por D. Flentrop um instrumento histórico da autoria de Joaquim António Peres Fontanes, proveniente de uma igreja do Patriarcado.

          Para uma pessoa com extraordinária habilidade de mãos, a organaria era uma tentação: é tão fascinante a riqueza da sonoridade do órgão, como a própria mecânica, em que se pode observar todo o percurso do movimento iniciado no teclado. Mas não se tratava apenas de uma ‘tentação’; o Pe. Arménio sentia a necessidade de restituir a fala aos instrumentos, de lhes devolver a funcionalidade e de os adaptar à renovação litúrgica em curso. Assim, numa primeira fase, acompanhou o trabalho dos organeiros Rodrigues, indicando-lhes alterações que entendia deverem ser feitas e, numa segunda fase (como veremos adiante), procurou estudar e documentar-se para, aproveitando alguns materiais-base já existentes, se abalançar na construção de um órgão para a Igreja do Seminário.

          A propósito, veja-se esta passagem do seu curriculum no programa do citado concerto pelos Pequenos Cantores da Glória, em 1973:

“[…] Ele que é organista, faz-se também organeiro; e consegue colocar no coro alto da Sé, refundido e aumentado, o cansado órgão da velha igreja de São Domingos”.