Seg. Jun 14th, 2021

No 20.º aniversário da Morte do Pe. Arménio

Padre Arménio – Músico. A sua relação com os órgãos de Aveiro [12]

Domingos Peixoto
  1. O órgão da Igreja do Seminário de Santa Joana Princesa

          Conhecendo o Pe. Arménio a importância histórica do órgão de tubos e a primazia que lhe é dada antes e depois do Concílio Vaticano II, era impensável a sua ausência na casa de formação do clero. A construção do órgão impunha-se como parte integrante das obras da conclusão da Igreja do Seminário: agora, como sempre, era uma prioridade. Assim, dispondo de peças essenciais – um someiro duplo, diversas partes da mecânica e um considerável número de tubos – e contando com mão-de-obra gratuita de familiares e amigos, lançou-se na aventura de construir um instrumento com pouco dinheiro. Os trabalhos iniciaram-se em 1978, pouco depois de deixar definitivamente a Paróquia da Glória.

          Construir um órgão supõe um projecto não menos complexo do que o de uma casa… Dizia-se frequentemente que o órgão e o relógio eram as máquinas mais engenhosas produzidas pelo cérebro humano até à revolução industrial. Além disso, antes de entrar na igreja, o órgão adquiriu um estatuto de nobreza, devendo ser bem parecido e bem falante. Assim, além do rosto e da estatura, é necessário projectar a sonoridade e  planear meticulosamente toda a máquina que o põe a falar; só com uma planificação cuidada e uma rigorosa execução, o projecto poderá chegar a bom porto. O Pe. Arménio documentou-se o melhor que pôde, estudando tratados de organaria. Estamos em presença de um trabalho multidisciplinar que, além de numerosas e delicadas questões do foro da Matemática e da Acústica, abrange o tratamento de madeiras, metais e peles, supondo meios e equipamento adequados.

          O órgão foi concebido com uma fachada de madeira, com tubos novos, decorados pela sua irmã Albina, e dimensionado para as duas partes (separadas) do someiro duplo de que dispunha, com registos divididos, com 25 canais à esquerda e 26 à direita, ou seja, teclados com 51 notas (Dó1-Dó3 / Dó#3-Ré5). Foi acrescentada uma pedaleira de curtas dimensões e de apenas 25 notas (2 oitavas, Dó1-Dó3 (correspondendo à parte grave do teclado); não sabemos se ela constava do plano inicial, uma vez que na consola não existem orifícios para os puxadores dos seus três registos.

          Enquanto viveu Joaquim Rodrigues, o Pe. Arménio ainda contou com a sua colaboração. Disso nos dá conta uma carta de 19 de Novembro de 1981, expedida da Reitoria do Seminário de Santa Joana, a propósito das medidas do fole e  de alguns tubos:

“Caríssimo amigo. Os meus cumprimentos respeitosos […] Conforme lhe tinha dito, gostaria que o fole tivesse dois pequenos foles de enchimento para evitar as ventoinhas, que são muito barulhentas. Porém, descobri no mercado um motor rotativo muito silencioso. Tem um tambor muito grande para não apertar o ar, o que permite um grande caudal de ar, com bastante pressão sem fazer o zumbido. Por isso, já não é necessário fazer os dois pequenos foles de enchimento. Basta fazer o fole grande conforme as medidas que lhe dei. Embora este motor seja um pouco mais caro que os outros, também é certo que se poupa no fole, que neste caso fica reduzido a um reservatório de ar. Como agora é mais simples, pedia-lhe que andasse a toda a força com ele, a ver se está pronto no fim deste ano […]

Então já me arranjou os tubos pequeninos para os cheios e as misturas? Espero que sim. Desejando que o seu trabalho lhe decorra pelo melhor, me subscrevo com um grande abraço. Pe. Arménio”[1].

            Os ‘tubos pequeninos’ a que o Pe. Arménio se refere não devem ser do cheio (registo inexistente), mas de um Piccolo do teclado I e, eventualmente, da Terceira ou do Nazardo do teclado II.

Numa outra carta, cuja data se não conseguiu apurar, o Pe. Arménio dá conta a Joaquim Rodrigues do estado da montagem do órgão:

            “Caríssimo Joaquim. Recebi a sua carta à qual passo a responder

1.º Quanto ao órgão, está todo montado: tubos nas embutes [sic], tubos soldados e respectivos registos […] Por hoje é tudo. Um grande abraço. Pe. Arménio”[2].

[1] Carta de 1981.11.19 (Aveiro, Reitoria do Seminário).

[2] Carta s/d (Aveiro, Reitoria do Seminário).