Sex. Out 15th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XI – Confiança até à audácia

São João da Cruz relaciona a virtude da esperança com a pobreza espiritual. E a esperança, quer seja no seu movimento para o que deseja – Deus – ou no seu aspirar, actua melhor quanto mais pobre é. A pobreza constitui a força, a perfeição da esperança. Para esperar temos que ser pobres.

A infância espiritual tem como fundamento a doutrina da pobreza e da esperança. É a chave do caminho da infância espiritual de Santa Teresa do Menino Jesus, o seu fundamento teológico.

Como viver a infância espiritual que requer a prática da esperança? Esta prática pede-nos a consciência de sermos filhos de Deus, que o acreditemos verdadeiramente e nos relacionemos com Deus como crianças. É o que convém fazer dada a natureza da nossa graça. Que tem que fazer a criança com Deus? Unir-se a Ele, manter o contacto com Ele.

Como alimentar esta união com Deus? Pelo sentimento da nossa fraqueza, pela experiência da nossa fragilidade. A nossa graça filial só desperta, só entra em acção de uma maneira contínua pelo sentimento da nossa fraqueza. Devemos aceitar e utilizar este sentimento. A pobreza que experimentamos na nossa vida espiritual, na oração, em vez de dobrar-nos sobre nós mesmos, tem que nos lançar para Deus. É este o gesto de confiança que temos que fazer. Deus, na sua misericórdia, espera este acto de esperança.

Isto que vos digo são realidades, não só palavras. A pobreza faz crescer a esperança e faz-nos esperar só em Deus.

Quem será o maior no Reino dos Céus? O que for o mais pequeno (cf. Mc 10, 15), quem não tem nada mas tem a atitude da criança que se dirige a Deus, que espera tudo de Deus. O maior santo será o mais pobre, o que tiver mais confiança. Não o mais pobre em si, mas o mais pobre que olha para Deus e espera em Deus (I 10-6-59).

Em que consiste a confiança? É a esperança, impregnada totalmente de amor. Esperamos porque amamos: esta é a confiança, uma confiança que não só se expressa com actos concretos, mas cria uma atitude interior (QV 938).

A esperança só pode crescer por meio de um empobrecimento progressivo de todo o nosso ser, que a liberta e conduz à confiança. Em que consiste este empobrecimento? Trata-se dos bens materiais? Recordemos que o jovem rico «tinha muitos bens» (Lc 18, 18). O apego a esses bens impede-o de seguir a Jesus. A pobreza não consiste em não ter nada; o essencial é não estar apegado ao que necessitamos. Estes bens materiais não devem reter-nos: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16, 13).

A pobreza espiritual é uma atitude da alma que não podemos alcançar por nós mesmos. Os laços que nos atam às nossas riquezas é Deus quem os desata. É Ele quem nos faz realmente pobres e é Ele que vem a nós quando já não há nada em nós que impeça a sua chegada. Na nossa vida espiritual gostaríamos de nos guiar pelos nossos desejos, fazer alguma coisa por Deus mas segundo as nossas ideias, ganhar «méritos». Na oração, o que, por vezes, nos molesta é um determinado modo de procurar luz, um desejo de encontrar a Deus conforme os nossos gostos.

E, contudo, a maioria das vezes experimentamos os fracassos, a incapacidade que temos de ir a Deus, de pelo menos ter um «bom pensamento» ou fazer um acto de amor. A experiência algo dolorosa da nossa pobreza é uma das primeiras luzes que Deus nos dá. E esta experiência não se pode evitar.

Que fazer? Pensar que não estamos feitos para isto e deixar a oração? Não! É o momento da espera, da pura esperança. «Sem Mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5): este princípio serve de guia para toda a vida espiritual, temos que nos convencer disto. Aprender a permanecer diante de Deus tendo só a experiência da nossa pobreza é o esforço que temos de fazer. Acudir a Deus transforma-se agora em algo muito mais activo.

Trata-se de saber usar a nossa pobreza; o êxito na oração é o êxito do pobre (I 10-6-59). Temos que pedir a Deus que actue segundo a sua maneira de ser. Ele é misericórdia, amor que se dá: este é o ser de Deus. o amor em Deus não é uma simples qualidade. Se formos realmente pobres diante d’Ele, então Ele nos invadirá. Se formos verdadeiramente pobres, teremos confiança porque é experiência da misericórdia; e sem confiança – esperança impregnada de amor – a pobreza seria insuportável.

Meu Deus,

Quero amar-Vos no meio da minha pobreza.

Procuro-Vos. Olhai o vosso filho.

Peço-Vos, meu Deus,

que sigais o movimento do vosso amor de pai

e venhais a mim.

Com confiança, espero a vossa vinda.

A grande doutora da virtude da esperança é Teresa do Menino Jesus. Fala-nos de um «pequeno caminho…», «o caminho do amor e da confiança» (UC 12. 8. 3). Recomenda-nos permanecer diante de Deus como uma «criancinha» (Ms B 4 r), aprender a transformar as nossas fraquezas e até os nossos pecados em «vasos de misericórdia», e convida-nos a ter uma «confiança cega» na misericórdia divina.

Explica-nos que queria «encontrar um ascensor para ir a Jesus» e o ascensor que encontrou são «os braços de Jesus! Só a força de Deus nos pode levar a Ele! Mas enquanto esperamos o ascensor, temos que ter paciência, e não sermos passivos. Teresa fica no começo da escada que não pode subir sozinha, chama por Jesus «levantando o seu pequeno pé», e Deus desce e leva-a até Ele.

Uma atitude evangélica de grande pureza, muito simples e exigente: dar prioridade à acção de Deus, abandonar-se… confiando «até à audácia», Teresa afirma: Nunca teremos demasiada confiança em Deus, tão poderoso e tão misericordioso. D’Ele se alcança quanto se espera» (A 140). Estas palavras, ditas pouco antes de morrer, exprimem nela o fruto de uma experiência de vida em contínua relação com Deus e com uma caridade radiante no meio de uma espessa noite da fé.

Jacques Fesch, um condenado à morte que se converteu a Deus na prisão, escreve na noite anterior à sua execução: «A execução realizar-se-á amanhã de manhã… Jesus está muito perto de mim. Atrai-me cada vez mais… É de noite mas estou em paz… Espero o amor» (Dentro de cinco dias verei Jesus. Diário da prisão).

Quando a pobreza é experiência do amor, transforma-se em pobreza amada, por muito dolorosa que seja. Todos somos filhos pródigos, e seja qual for o abismo de mistério em que estivermos metidos, é sempre o abismo da misericórdia que se abre diante de nós se chamarmos por ele. Por mais longe que estejamos, jesus virá buscar-nos. Esta invencível confiança em Deus dá a paz.

Feliz o coração do publicano da parábola cuja humilde oração tocou o coração de Deus (Lc 18, 9-14).

«Bem-aventurados os pobres em espírito…» (Mt 5, 3).


Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay