Qua. Out 27th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

TRÊS POESIAS VOLTAS AO DIVINO

José Vicente Rodrigues*

Um pastorinho

  1. Voltar ao divino era uma moda ou costume que consistia em tomar uma poesia profana, que normalmente cantava o amor puramente humano, e, com uns retoques, se mudava, acrescentava, transformava, tornando a peça tornava-se num poema ao amor divino.

Volta ao divino, esta poesia fala de Cristo e da alma. Cristo é apresentado na veste de Pastor e a alma de pastora, como no Cântico.

Outro elemento substancial, além dos dois protagonistas, é a árvore, da qual se fala só explicitamente no fim. Não é senão a árvore da Cruz.

  1. A composição está cheia de teologia e psicologia amorosa: teologia da redenção; psicologia no modo de apresentar e, pouco a pouco, ir agravando as dores nascidas do amor diante da ingratidão e o esquecimento, dores que se descobrem e coroam na morte de cruz: morte de amor.

Quem desejar um comentário mais denso deste poema pode consultar nas Obras do Santo:

– CB 11: onde se fala das dores e angústias do amante na ausência da pessoa amada;

– CB 23: da redenção e salvação dos homens por meio do sacrifício de Cristo na árvore da Cruz.

– CB 22, 1: de Cristo Bom Pastor.

– 2 S 7, 11: da solidão de Cristo na morte.

Cf. também em OC, p. 99, nota 18, e no apêndice (na 2ª edição de Madrid 1980, pp. 1333-1334). Um dos textos profanos do poema “volto ao divino”.

Atrás de um amoroso lance

  1. Nesta poesia, também «volta ao divino», os quatro primeiros versos contêm o tema que se desenvolve e comenta nas estrofes seguintes.

Basta lê-la uma vez para se dar conta dos termos técnicos e das alusões contínuas à falcoaria ou caça de aves «que se fazia com falcões, gaviões e outros pássaros que perseguiam a presa até a ferir ou matar» (Dicionário da Academia).

É uma composição cheia de doutrina, especialmente sobre a virtude da esperança.

  1. Elementos substanciais

Deus é a caça, a presa a alcançar. A alma aparece representada numa ave de rapina (julgo tratar-se de falcão), que se lança, que tenta e volta a tentar e, finalmente, consegue alcançar a presa.

A alma lança-se na aventura da caça do Senhor porque está cheia de amor e esperança. O princípio que sustenta toda a doutrina é «quanto maior é o amor e a esperança (=esperança de fé) tanto mais alto é o voo da alma e tanto mais certo o êxito da caça». Na última estrofe encontramos a sentença favorita do Santo: «porque esperança do céu tanto alcança quanto espera», repetida quase literalmente em 2 N 21, 8; 3 S 7, 2, onde estabelece este princípio: «acerca de Deus, quanto mais a alma espera, mais alcança». Nos Processos canónicos ao interrogar-se sobre a sua firme esperança e confiança, pergunta-se às testemunhas: «Se sabem se a esta fé tão viva acompanhava uma fervorosa esperança em Deus, tão grande que costumava trazer ordinariamente na boca estas palavras: “oh esperança do céu, que tanto alcanças, quanto esperas” (BMC 14, 4, número 12: Informações. E no Interrogatório do Processo Apostólico, ibid., p. 309).

  1. Algum outro detalhe pode esclarecer o conteúdo doutrinal das páginas do Santo poeta. Neste caso, sabendo que se tratava de uma poesia «volta ao divino», o estudo ou a consideração do suporte profano da poesia fornece já de por si uma chave interpretativa muito válida. Conhecer, por exemplo, as qualidades dos falcões, gaviões, etc., e o modo de os criar, domesticar, ensinar e adestrar para a caça e aplicar esses modos e qualidades e transferi-los para a alma caçadora de Deus, enriqueceria muito o comentário.
  2. Bastaria recordar como os falcões são tremendamente atrevidos e audazes e obedecem só e sempre por fome. As três virtudes teologais produzem no homem o vazio, a desnudez, o desprendimento de todas as coisas criadas e, portanto, nas potências dessa mesma pessoa humana: memória, entendimento e vontade nasce e aumenta a fome e a sede de Deus que, especialmente, para o fim da iluminação e purificação da alma são intoleráveis (cf. CH 3, nn. 18-22: da fome produzida na memória pela esperança fala ali mesmo, n. 21). Não sendo uma fome produzida à força de braços ou de vontade, ou puramente activa, há que pensar logo numa espécie de fome infusa ou infundida e aumentada activamente por Deus para que se tenha mais fome e sede d’Ele.
  3. Este tema de alta presa não se limita a esta poesia. Para intuir o que pode significar na mente e na imaginação do poeta: cf. como em CB 31, 8 e em CA 22, 4, se chama a Deus «divina ave das alturas», e, feitas as aplicações pertinentes, conclui-se: «… coisa muito credível é que a ave de baixo voo (= a alma) possa prender a águia real (= Deus) muito subida, se ela se abaixa querendo ser presa». Domingo de Soto no seu Tratado do amor de Deus, em sintonia com São João da Cruz, chama à alma «generoso sacre» (variedade de falcão) e, depois de ter feito uma descrição impressionante e de como há que «sacudir as asas do seu desejo e da sua esperança e encher-se de amor e de uma santíssima coragem» no voo para o divino, conclui com ternura: «Porque Deus não é garça que foge, mas é incomparavelmente maior o seu desejo de que o alcancemos para nos comunicar a sua Divindade e a sua glória de que o que nós temos de O alcançar e gozar d’Ele».

Por toda a formosura

  1. Com as duas anteriores é uma poesia «volta ao divino». O tema a comentar encontra-se nos quatro primeiros versos. Nos últimos resume-se toda a poesia, as estrofes intermédias são o comentário.

O sentido geral é o de uma composição toda ela dedicada, em tensão, a exaltar a transcendência de Deus sobre todas as coisas criadas: doces, formosas, altas…; todas distam infinitamente de Deus e estão, são-nos oferecidas como meios que nos remetem, nos aproximam, nos levam a Deus, e não nos afastam d’Ele.

  1. A alma sabendo por fé e conhecendo por experiência que a doçura, a formosura, a suavidade de Deus transcende todas as coisas e encontrando-se, ao mesmo tempo, tocada pelo amor ardente do mesmo Deus, não se pode apegar a nada, nem se perde por nada, nem por ninguém.

Guiada e empurrada pela fé e o amor aspira sempre e de todos os modos a «um não sei quê que se alcança por ventura»: Deus. Em CB 7, 9-10 e em 7, 9-11 comenta o verso: um não sei quê que ficam balbuciando» nesse mesmo sentido fundamental de transcendência. Podem ler-se também as canções CB 6, 8, 9, 10. A expressão «nunca eu me perderei» pode ilustrar-se desde o comentário de CB 29, 7-11 e CA 20, 3-7, quando interpreta «direis que me perdi, que, andando enamorada, me dei por perdida e fui ganhada».

Conclusão geral

  1. Por estas poucas páginas dedicadas a ilustrar, de modo sumário, estas cinco poesias de entre as não comentadas pelo Santo poeta, se pode compreender a importância doutrinal das mesmas e de qualquer outro texto. Estes poemas, e mesmo os não comentados aqui, são como recriações poéticas, às vezes antecipações, às vezes também sínteses das suas grandes obras ou de alguma secção das mesmas; e tornam-se sempre expoentes do seu pensamento e testemunho das suas vivências, substanciadas assim em verso directo ou também «volto ao divino».

*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 200 -202.


Imagem de Lars_Nissen por Pixabay