Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXV Passo | A insondável profundidade de Jesus

Colocas-te sob o olhar de Deus e reparas até que ponto Ele te ama como és. Com um amor pessoal. Quem quer que sejas. Estejas como estejas. Deus é assim, todo Amor. No mais íntimo do seu ser. O seu amor por ti não depende do teu amor por Ele. A sua fé em ti não diminui por causa da tua falta de fé n’Ele. Ele busca o teu coração. Entrega-te, pois, a Ele!

Podes dizer: «Deus não me interessa», e isso não alterará em nada a realidade de que Ele te ama. Deus sonha sempre com a felicidade dos sus filhos. E com a sua proximidade. É evidente que Deus não é indiferente se o amas ou não: um amante nunca é indiferente. Deus ama sempre. Mas respeita. Não quer arrancar à força o teu amor. Não força a tua porta, mas ama com discrição. Quando lha abres um pouco, o seu Espírito entra um pouco, como uma leve brisa. Às vezes, basta muito pouco para que sintas que o teu coração respira melhor.

Assim, pois, abre a porta do teu coração e atrever-te a olhar a Deus que está aí. E verás como Ele te mostra o seu Filho Jesus: «Este é o meu Filho muito amado, escutai-O» (Mt 17, 5). Deus gostaria de ver o seu Filho Jesus ressuscitado em ti. Deus deseja o teu renascimento espiritual. Todo o teu ser está em jogo. A que alturas és chamado!

Isabel, a jovem carmelita, que agora nos propomos seguir é uma grande crente, uma grande enamorada. Está invadida por um ideal sublime: o de «ser imagem de Cristo», ideal que o Novo Testamento propõe realmente a todo o cristão (cf. Rm 8, 29). Isabel não persegue este ideal, em primeiro lugar, para si mesma, para a sua própria glória e a sua felicidade pessoal, mas para alegria e amor de Deus, convertendo-se já aqui na terra em «louvor de glória» do seu maravilhoso Amor salvador.

Nisto consiste a sua grande tarefa (o seu «ofício»), que quer realizar na terra como no céu. Ser um «louvor de glória», louvor do amor do Pai que nos salva em Jesus: S. Paulo no-lo descreve como missão de todos (Ef 1, 4-6), das pessoas normais e correntes, leigos, consagrados, cada um na nossa medida e na nossa vida concreta, encarnada no quotidiano.

Quem conheça a Jesus poderá compreender a Deus. Nessa hora em que a sua vida está a ponto de extinguir-se, Isabel repete com mais força do que nunca: «Não quero saber senão a Jesus», «o Crucificado por amor», nesse «Mistério» que nunca acabaremos de explorar. Jesus é o nosso único «Mestre», a «Imagem» (o «Modelo») que orienta a nossa identidade cristã até que cheguemos à «identificação» com Ele.

Onde nos poderemos encontrar com Jesus? Ele está muito perto. Somos templo de Deus (1 Co 6, 19). Jesus, com o seu Pai, fez em nós a sua morada (Jo 14, 23; 15, 4), depois de enviar o Espírito aos nossos corações (Jo 14, 17; Rm 5, 5; 8, 9; Gl 4, 6). E Isabel lança-se no «fundo do abismo sem fundo»: esse abismo é a sua alma que desemboca na Trindade infinita, qual rio imenso, sem que se possa distinguir quando se converte em Oceano ao misturar-se com o fluxo e o refluxo das suas ondas.

No mais profundo do teu ser flui um Oceano, que é para ti Fonte inesgotável e eterna. Um dia beberás abundantemente dele. Porque hás-de viver tanto tempo sedento e árido? Jesus convida-te a mudar de sede e de fonte. Esta é a finalidade de um retiro espiritual. Também tu tens no fundo do coração uma «adega interior».

Somos tão racionais, tão calculadores, tão ciosamente centrados nos nossos interesses pessoais e tão esquecidos do grande Interesse  que é Deus, que um pouco de embriaguez espiritual nos viria muito bem e ser-nos-ia remédio santo. Isabel, como a esposa do Cântico dos Cânticos, provou o vinho do amor e já não pode esquecer o Amado.

Repara também como neste primeiro «dia» de retiro Isabel está muito perto de Maria. Maria é a «inenarrável»: ninguém penetrou melhor do que ela no «segredo» de Jesus e ninguém foi tão penetrado por Ele. Maria é a grande iniciada que anseia introduzir-te no conhecimento de Jesus. Maria quer ensinar-te a felicidade de dizer «sim».

O texto de Isabel

  1. «Nescivi». Nada mais soube. Eis o que canta a esposa do Cântico dos Cânticos depois de ter sido introduzida na adega interior. Parece-me que este deve ser também o refrão de um louvor de glória neste primeiro dia de retiro, em que o Mestre a faz penetrar no fundo do abismo sem fundo, para lhe ensinar a exercer o ofício que será o seu durante a eternidade e no qual se deve já exercitar no tempo, que é como a eternidade começada, mas sempre em progresso.

«Nescivi!»… Já não sei mais nada, já nada mais quero saber, senão conhecê-lo, a Ele, a comunhão com os seus sofrimentos, a conformidade com a sua morte (Fil 3, 10). «Aqueles que Deus conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu divino Filho», o Crucificado por amor. Quando estiver totalmente identificada com este Exemplo divino, toda transposta n’Ele, e Ele em mim, então cumprirei a minha vocação eterna, aquela pela qual Deus me elegeu n’Ele (Ef 1, 4), «in principio» [desde o princípio], aquela que continuarei «in aeternum» [por toda a eternidade], quando, já mergulhada no seio da minha Trindade, eu puder ser o incessante louvor da sua glória, Laudem gloriae ejus [Louvor da sua glória: Ef 1, 12].

  1. «Ninguém viu o Pai – diz-nos S. João –, senão o Filho e aqueles a quem o Filho o quis revelar» (Jo 6, 46; Mt 11, 27). Parece-me que também se pode dizer: «Ninguém penetrou o mistério de Cristo na sua profundidade, a não ser a Virgem». João e Madalena viram bem longe neste mistério, S. Paulo fala muitas vezes da «inteligência que dele lhe foi dada» e, no entanto, como todos os santos ficam na sombra quando se observa a lucidez da Virgem!…

Ela é o inenarrável [é] o «segredo» que guardava e meditava no seu coração» (Lc 2, 19), [e] que nenhuma língua pôde revelar, nem pena alguma traduzir!

Esta Mãe de graça vai formar a minha alma a fim de que esta sua pequena filha seja uma imagem viva, «cativante», do seu primogénito, o Filho do Eterno, Aquele que foi o perfeito louvor de glória de seu Pai.

 

Sugestões para orar

Deus envolve-te e penetra-te. Um retiro espiritual tem de ser um mergulho na Presença de Deus. Sentirás durante muito tempo o seu efeito benéfico. Não há nada que te possa ser espiritualmente mais benéfico.

É evidente que isso não acontecerá sem um pequeno esforço da tua parte. É preciso cultivar a relação, treinar-te nela, entrar nela. «Vou confiar-lhe o meu “segredo” – diz Isabel –: pense nesse Deus que habita em si e do qual é templo… Pouco a pouco a alma acostuma-se a viver na sua doce companhia e compreende que leva no seu interior um pequeno céu onde Deus do amor pôs a sua morada» (Ct 249).

Na tua vida há muitas actividades simples e não poucas situações que não requerem toda a tua atenção, momentos «perdidos» que costumas gastar em devaneios mais ou menos infecundos. Porque não aprendes a utilizá-los melhor, recordando de vez em quando, e inclusive com frequência, que Deus está muito perto e que podes falar e viver com Ele «como com um ser querido do qual não nos podemos separar»? (Ct 280). Faz falta muito pouco, uma palavra, um olhar, apenas prestar atenção ao grande Presente.

Podes também fazer intencionalmente algumas pausas de silêncio, de vez em quando, porque o julgas importante. Pausas, isto é, olhar a Deus. Alegra-te, porque o Deus eterno está tão perto e és seu filho. Deixa que penetre em ti a consciência dessa Presença que o Espírito Santo te concede: em silêncio, tal como a seiva circula pela planta, o Espírito te irá renovando insensivelmente e, depois, entregar-te-á diferente, à realidade.

Prolonga um pouco esse contacto com os «Três», presentes no céu da tua alma e te olham com o assombro amoroso com que um pai, uma mãe, ou um irmão mais velho olham para o benjamim da casa. Um desses momentos prolongados, alimentados por algumas palavras ou um simples olhar saído do coração, vale mil vezes mais do que uma série de orações repetidas sem atenção. É como se Deus escutasse em ti a música do Espírito.

Aprende a multiplicar esses momentos, a «acostumar-te pouco a pouco a viver nessa doce companhia» da Trindade, que é toda ela acolhida, como dizia Isabel. Acostuma-te, persevera, volta a começar uma e outra vez com suavidade.

«Usa sempre fazer muitos actos de amor, porque acendem e enternecem a alma». Pelo exercício da Presença de Deus, vais-te convertendo, sem te dares conta, num orante. E talvez o teu coração se prepare para receber de Deus essa capacidade de ressonância diante da Presença divina da qual escrevia Isabel falando de si mesma: «Sinto-o tão vivo dentro da minha alma, que só necessito de recolher-me para o encontrar no meu interior. E isto torna-me totalmente feliz» (Ct 169).

Podes usar, por exemplo, esta invocação: Vinde, Espírito de Jesus. Acendei em nós o fogo do vosso Amor!


 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay