Qua. Out 27th, 2021

D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro

Na conclusão do seu artigo sobre o Catecismo de Bartolomeu dos Mártires (ver I parte), D. António Moiteiro explica o que é um catecismo, que esta palavra surgiu pela primeira vez num livro português, e que o catecismo de Bartolomeu dos Mártires, destinado aos padres, tinha duas partes, uma com as matérias divididas de acordo com as virtudes teologais e outra com homilias para serem lidas ao longo do ano litúrgico.

 

O que é um catecismo?

Um catecismo deve apresentar, com fidelidade e de modo orgânico, o ensinamento da Sagrada Escritura, da Tradição viva na Igreja e do Magistério autêntico, bem como a herança espiritual dos Padres, dos Santos da Igreja, para permitir conhecer melhor o mistério cristão e reavivar a fé do povo de Deus. Deve ter em conta as explicitações da doutrina que, no decurso dos tempos, o Espírito Santo sugeriu à Igreja.

Frei Bartolomeu dos Mártires

É também necessário que ajude a iluminar, com a luz da fé, as novas situações e os problemas que ainda não tinham surgido no passado. O Catecismo incluirá, portanto, coisas novas e velhas (cf. Mt 13,52), porque a fé é sempre a mesma e, simultaneamente, é fonte de luzes sempre novas.

Capa do Catecismo de Frei Bartolomeu dos Mártires numa edição de 1962

Para compreendermos o uso dos vários catecismos que se utilizaram na catequese ao longo dos últimos cinco séculos, temos de ter em conta uma divisão que me parece muito importante: catecismo «maiores» e catecismo «menores». Os primeiros dizem respeito apenas aos conteúdos catequese e, como tal, têm apenas como preocupação apresentar a doutrina cristã, tal como a Igreja a propõe e quer dar a conhecer. Os catecismos menores destinam-se aos catequizandos, com uma pedagogia adaptada à sua idade e metodologia adequadas. Um exemplo de catecismo «maior» é o Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, e de catecismo «menor», cada um dos dez catecismos do Programa Nacional de Catequese.

A palavra «catecismo» foi utilizada pela primeira vez a nível mundial no CATECISMO pequeno da doctrina e instruiçam que os cristãos ham de creer e obrar pera conseguir a benaventurança, feito pelo português Diogo Ortiz e publicado em Lisboa em 1504.

 

Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais

O Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais, ou o Catecismo de Frei Bartolomeu dos Mártires, foi publicado no dia 3 de novembro de 1664, dois anos antes do catecismo Romano, e procurou introduzir em Portugal a reforma do concílio de Trento. Pretendia ser um travão à ignorância religiosa do povo português. Era destinado aos sacerdotes, para os ajudar na pregação e na missão de pastores do povo de Deus.

Túmulo de Frei Bartolomeu dos Mártires, na igreja do Convento de São Domingos (ou da Santa Cruz), Viana do Castelo

«Querendo eu, de alguma maneira, acudir a este mal (como me obriga o meu oficio pastoral), pela multidão de freguesias que há neste Arcebispado de Braga, na maior parte das quais não há pregação, determinei ordenar a seguinte doutrina, acomodada ao propósito que disse, isto é, qual convém para se dizer a gente popular, para os trazer a algum conhecimento e amor de Deus. E, por isso, não quis multiplicar autoridades, nem trazer doutrinas de teologia escuras e difíceis de entender. Somente escolhi aquilo que me pareceu ser mais conveniente a este propósito».

A estrutura do catecismo

O Catecismo ou Doutrina Cristã insere-se na tradição catequética do seu tempo, ao dividir as matérias no primeiro livro segundo as virtudes teologais da fé, esperança e caridade e, no segundo as homilias para o ano litúrgico.

«Em crer, esperar, amar e fazer consiste toda a sabedoria, justiça e santidade cristã. E a fé e esperança sem caridade e obras (sem as quais não pode estar a caridade) ficam mortas e não limpam nem justificam a alma, nem têm valor diante de Deus. (…) E, assim, como o exercício da fé, isto é, as verdades que se hão de expressamente crer, se contêm no credo, e o exercício da esperança, isto é, as coisas que devemos esperar e desejar, se contêm no Pater Noster, assim o exercício da caridade, que são as obras que a caridade obriga fazer, se contêm nos preceitos e Mandamentos que Deus nos deixou em Sua Lei».

O livro segundo são as homilias que os sacerdotes deviam fazer durante o ano litúrgico. O próprio autor explica como se deve usar o livro primeiro e o segundo: «mandamos a qualquer abade, reitor, vigário ou capelão deste nosso Arcebispado que, em cada domingo ou dia de guarda, para o qual, no presente livro, se não acha ordenado especial sermão ou prática, leia um capítulo da Doutrina Cristã; e, nas Festas ou Domingos para os quais vão escritos particulares sermões, leia, em cada Domingo ou Festa, o Sermão que lhe pertence».

+ António Moiteiro