O BELO HORRÍVEL DA TRAGÉDIA
Comissão Diocesana da Cultura – Aveiro
A onda que varreu certas regiões do País marca a nossa realidade com cenas dantescas em que o belo e o horrível tomam rosto e deixam marcas profundas. Aos factos, junta-se o coro de vozes que repercutem o acontecido e o pintam com as mais variadas cores. Em que, por vezes, se aninha um certo clubismo partidário.
O horrível surge nas chamas devoradoras de vidas humanas, de bens materiais e, sobretudo, da esperança de quem luta tantos anos por sossego e conforto. O horrível surge na aflição incontida de quem vê o fogo inclemente a avançar e não tem com que lhe fazer frente ou auxílio pronto e eficaz a chegar. O horrível espelha-se na terra queimada, nos restos ardidos, nas cinzas poeirentas a poluírem a atmosfera, na fuga dos viandantes à procura de vias de circulação, nas lágrimas secas pela amargura e dor. Especialmente no (des)jeito de certos repórteres e entrevistadores no contacto com as pessoas atingidas e sofridas.
O belo vai emergindo e toma feição. E dá gosto fazer-lhe o realce devido: A coragem assumida, a ajuda solidária de familiares e vizinhos, a mobilização de recursos individuais e associativos, o esforço de muitos, por vezes, até à exaustão, o acolhimento aos sem tecto em casas de amigos e de instituições de beneficência, sobretudo de Centros Sociais e Paroquiais e de Misericórdias, até de espaços de igrejas, a oferta de bens de primeira necessidade e de consumo imediato, as mensagens de conforto feitas presença amiga e solícita de responsáveis pelo bem integral da população, designadamente párocos, diáconos e enfermeiros e médicos. O belo brilha de forma irradiante na relação solidária reforçada e no desejo confiante de que “fogo, nunca mais”.
“Que chova, sim! Mas que o discernimento mostre que os recursos naturais são limitados! Que o bom senso impeça mãos criminosas de atear incêndios! E que quem tem de decidir, decida! Basta de calculismos, estratégias de comunicação, procedimentos meramente administrativos”, afirma a agência Ecclesia, domingo 16, em plena tragédia.
De facto, o horrível pode dar o lugar ao belo da ajuda pronta a quem realmente precisa no rescaldo do ocorrido, da responsabilidade assumida, da definição clara e aplicação oportuna de regras comuns, de contenção exemplar dos prevaricadores, do respeito pela criação e pelas criaturas, do cuidado atenta ao outro e da relação de proximidade. O belo de uma sociedade mais humanizada!