(Uma parceria com o Correio do Vouga)
O Concílio de Niceia começou há 1700 anos, no dia 20 de maio de 325. Com estas Perguntas & Respostas, fique a saber o essencial do Concílio que nos deu o Credo e a data da Páscoa. Primeira parte.
Porque é que o Concílio de Niceia é importante para a Igreja?
Niceia foi o primeiro concílio para toda a Igreja, ou seja, ecuménico (“ecumene” significava em grego “toda a parte habitada”). Inaugurou uma série que continua até ao século XX, com o II Concílio do Vaticano, o 21.º concílio ecuménico. “Niceia é um marco miliário na história da Igreja”, escreveu o Papa Francisco na bula de proclamação do Jubileu de 2025, porque “teve a missão de preservar a unidade, então seriamente ameaçada pela negação da plena divindade de Jesus Cristo e da sua igualdade com o Pai”.
Niceia é importante não apenas para os católicos. Todas as grandes confissões cristãs aceitam Niceia. Uma das características do movimento ecuménico (aqui no sentido de diálogo e aproximação dos cristãos em busca da unidade) é precisamente aceitar o que veio de Niceia.
Que assuntos foram debatidos em Niceia?
Podemos dividir os assuntos de Niceia em três: a questão da divindade de Jesus; a questão da data de Páscoa e uma série de outras questões menores.
Quanto tempo durou o concílio?
O Concílio começou no dia 20 de maio de 325 e durou até 25 de agosto do mesmo ano.
Quem o convocou e porquê?
O Concílio foi convocado pelo Imperador Constantino e realizou-se num dos seus palácios imperiais, em Niceia, atual Iznik, um pouco a sul de Istambul, na parte asiática da Turquia. O imperador pagou ou pôs ao serviço dos bispos transporte de todas as partes do império. No entendimento do imperador, que ainda tem o título de Sumo Pontífice (ou seja, “o maior construtor de pontes”, de unidade – título que mais tarde o Papa herdará) era importante que a Igreja chegasse a um consenso, que ultrapassasse uma questão que estava a dividi-la. Entendia-se na altura que a unidade espiritual era importante para a coesão do império. Antes de convocar o concílio, Constantino escreve uma carta ao padre Ário e ao bispo Alexandre, ambos da grande cidade de Alexandria, onde os ânimos estavam mais exacerbados, em que diz (segundo o historiador Eusébio de Cesareia, que morreu em 339): “Soube a origem do vosso diferendo. Tu, Alexandre, pediste aos teus sacerdotes que cada um pensasse sobre um certo texto, ou antes sobre um pormenor insignificante. Tu, Ário, exprimiste imprudentemente uma reflexão que não devias ter comunicado. Daí que a divisão se tenha instalado entre vós, a comunhão tenha sido rejeitada, o povo de tenha dividido e a unidade se tenha quebrado…” O texto bíblico a que Constantino alude é Provérbios 8,22, que diz, sobre a origem da Sabedoria, “O Senhor criou-me, como primícias das suas obras”. Ora se a Sabedoria (o Logos) é Jesus, para Ário, Jesus é uma criatura. E assim começa a crise.
O que defendia, então, Ário?
Depois da condenação do arianismo (heresia do padre Ário; nada tem a ver com a teoria da supremacia da raça ariana), os escritos de Ário são queimados. Ele tinha escrito o livro “A talia” (“O banquete”), onde expunha os seus pensamentos. Sabemos de alguns deles porque os adversários os citam: “Deus não foi sempre pai. Houve um tempo em que não havia ainda Pai; depois tornou-se Pai. O Filho não existia sempre. Todas as coisas foram feitas do nada. Todas as coisas são criaturas e obras e o próprio Verbo de Deus foi feito do nada. Houve um tempo em que Ele não existia. Não existia antes de ser feito. Ele começou também por ser criado. Porque Deus estava sozinho, o Verbo e a Sabedoria não existiam ainda. (…) Por natureza, o Verbo está como todos nós sujeito à mudança (…). O Verbo não é verdadeiro Deus. (…) Separadas por natureza, afastadas, estranhas e sem relações entre si são as essências do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eles são, portanto, totalmente diferentes em essência e em glória”.
A questão da natureza dividia assim tanto as pessoas?
A questão surgiu em Alexandria (no Egito), uma das cidades mais populosas de então. Ário (256-336), um padre austero e com bom nome, quer preservar a unicidade e transcendência de Deus. Apoiando-se no versículo de Provérbios acima citado e em João 14,28 (“O Pai é mais do que eu”), concebe Jesus com tendo um começo e não sendo exatamente da mesma natureza que o Pai. O bispo Alexandre exige que Ário se emende, pois se o Verbo não é plenamente Deus, o homem não pode ser plenamente divinizado, ou seja, não há salvação. Sem resultado. Ário e os seus seguidores são excomungados em 316. Ário não aceita a excomunhão, pelo contrário, compõe obras e canções para defender as suas ideias. E rebentam tumultos em Alexandria e noutras cidades da parte oriental do Império. O Concílio de Niceia resolve a questão e serena os ânimos, mas por pouco tempo. Depois de Niceia, chega a haver em Antioquia (a terceira cidade do império), cinco bispos, cada um com a sua diferença teológica. E em Roma, em 366, a disputa da sucessão papal provoca 137 mortos. Neste século IV, a teologia estava na rua, como conta Gregório de Nissa (330-395): “Todos os locais da cidade estão cheios destas conversas, as praças, as avenidas. Falam os fanqueiros, os cambistas, os merceeiros. Se perguntas ao cambista o câmbio de uma moeda, ele responde-te com uma dissertação sobre o gerado e o não-gerado. Se queres saber da qualidade e do preço do pão, o padeiro responde-te: «O Pai é o maior, e o filho está-lhe sujeito. Quando perguntas nas termas se o banho está pronto, o gerente declara que o Filho proveio do nada. Não sei que nome hei de dar a esta doença; exaltação, raiva…»”
Os cristãos já eram maioria no império?
Não. Na altura de Niceia, os cristãos eram minoria, talvez 15 por cento dos cidadãos do império. Ainda no início do século IV eram perseguidos e só desde 313 tiveram liberdade de culto. No entanto, seriam já a denominação religiosa maior (os politeísmos estavam muito relacionados com os deuses locais), em rápido crescimento nos meios urbanos, transversal ao império e mais presente no oriente, para onde o poder imperial tendia a deslocar-se. Constantino terá entendido que o cristianismo poderia ser a massa a ligar todo o império e daí se preocupar com os seus problemas.
Quem esteve
em Niceia?
Não há uma lista dos presentes, mas os relatos indicam que seriam cerca de 300 os bispos. Haveria então 1800 bispos. Estiveram presentes um sexto. O imperador presidiu, embora só chegasse a Niceia a 14 de junho, quase um mês depois do início. E não votou nas questões de fé. O Papa Silvestre não esteve presente. Representaram-no três enviados: Ósio de Córdova, e Vito e Vicente de Roma. Dizem os relatos que as assinaturas destes três aparecem sempre em primeiro lugar, sinal da primazia de Roma sobre Antioquia e Alexandria (os outros dois patriarcados importantes na época).
Existe algum documento diretamente de Niceia?
Não. Tudo se perdeu. Mas existem muitos relatos sobre o que lá se passou e o que lá se decidiu. Os escritos mais importantes são de três teólogos que estiveram em Niceia: Atanásio, que era diácono de Alexandre, e a ele viria a suceder em Alexandria; de Eusébio de Cesareia, o primeiro historiador da Igreja; e Eustácio de Antioquia. Muitos outros teólogos abordarão Niceia, como Sócrates de Constantinopla e Hilário de Poitiers.
Continua na próxima semana