Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Sétima Perspectiva: Interioridade

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

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Há uma realidade que apenas nós conhecemos, a que vivemos na interioridade. A perspectiva da interioridade é muito particular porque a experimentamos como algo real e palpável, mas que os outros não podem medir ou observar, sem que lhes partilhemos. Ainda que as neurociências meçam as zonas activadas do nosso cérebro quando pensamos e sentimos, essas nada dizem sobre o conteúdo daquilo que se passa no nosso interior. Nesse sentido, esta é uma perspectiva misteriosa e infinita.

Quando queremos criar um hábito, o nosso objectivo é mudar um determinado comportamento. E mudar um comportamento implica um movimento radial entre três camadas. A camada mais exterior são os resultados. Por exemplo, escrever um livro. A camada mais interior seguinte são os processos que criamos para chegar aos resultados; por exemplo, o hábito de escrever todos os dias. E a camada mais interior de todas é a identidade. Isto é, por querer escrever um livro torno-me escritor. E parece que o movimento dos resultados aos processos até à identidade é o caminho da interioridade, mas esse dá-se, precisamente, no movimento contrário da identidade pelos processos até aos resultados. Assim, a perspectiva da interioridade é um ponto de partida. No exemplo anterior, primeiro sou escritor, logo, desenvolvo um hábito de escrita e o resultado é o livro que escrevo. A perspectiva aberta pela interioridade é a dos actos enraizados na identidade.

A demonstração do infinito presente nesta perspectiva está na ilimitada imaginação humana. Dentro da nossa cabeça podemos criar mundos e enredos maiores do que os que os jovens criam no Minecraft. A imaginação tem apenas os limites que impomos a nós próprios. E não há forma de a demonstrar aos outros senão pela comunicação da nossa interioridade. O que acontece, então, a quem afirma não ter imaginação? Penso que precisa de recuperar a perspectiva da interioridade. Pois, além da sua infinitude, nela reside também o mistério. Mas não somente o significado de mistério como um enigma a resolver, mas, antes, tudo o que por dentro da nossa mente passa e não entendemos. Quando isso acontece desperta em nós a curiosidade. Por isso, qualquer mistério como realidade que se esconde aos nossos olhos físicos, mas se abre ao olhar da imaginação, desenvolve em nós a capacidade humana da curiosidade.

Há um risco para quem resiste a esta perspectiva e prefere viver na superficialidade dos fluxos de informação. Esse risco é o de pensar que apenas o ser humano possui interioridade. Mas, a verdade é que até uma montanha possui interioridade.

Quando contemplamos a natureza apenas como paisagem, perdemos a oportunidade de a conhecer profundamente. Há uma diferença entre o que é contemplado ao largo e o que é contemplado em profundidade. E dessa distinção provém a perspectiva da interioridade sobre o mundo à nossa volta. A escritora Nan Shepherd diz que — «há mais do que a luxúria pelo topo de uma montanha que um ajuste fisiológico perfeito exige. O que há de novo reside no interior da montanha. Algo move-se entre mim e ela. O lugar e a mente podem interpenetrar-se até que a natureza de ambos se altere. (…) A montanha tem um interior.»

A perspectiva da interioridade é a de um fio ténue, finíssimo, que serve de interface entre o mundo físico que podemos tocar, passando pelo mundo para lá do físico que podemos imaginar, para culminar no mundo Real que ninguém pode conhecer a não ser que lhe seja dado a conhecer. Tudo o que conseguimos é vislumbrar a Realidade.

Quando a nossa interioridade acolhe a possibilidade de que tudo à sua volta possui, também, uma interioridade, abrimos dentro de nós uma oportunidade para deixar falar Aquele que conhece tudo o que existe a partir do seu interior. Aquela voz é mais do que uma intuição ou consciência. É uma presença misteriosa que une as diversas interioridades para as transformar. A perspectiva da interioridade acaba por nos levar a fazer uma experiência de Deus, ainda que seja difícil de O reconhecer. Por vezes analisamos mais as nossas experiências do que acolhemos a transformação que podem fazer em nós.

Deixar-se conduzir pela perspectiva da interioridade significa confiar na permanente evolução do olhar que temos sobre as coisas ao reconhecer-lhes a posse de um “interior.” E o que emerge da diversidade de “interiores” será uma unidade entre a nossa consciência e tudo o que existe na criação. Uma unidade que não subsiste pela nossa vontade, mas pela experiência de uma subtil e silenciosa Presença.


Imagem de Comfreak por Pixabay