Sex. Out 22nd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Quinta Perspectiva: Profundidade

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

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Quando começa um novo ano, muitas pessoas pensam na sua vida e procuram fazer um exame de consciência. Ninguém poderia imaginar que 2020 pudesse ser do modo como foi para todo o mundo. Muitas das fragilidades da vida antes da Covid-19 vieram à tona com a pandemia. Nomeadamente, a superficialidade de vidas assentes em efemeridades. Mas pode haver algo que produza em qualquer dia do ano o impacte que tem o virar de um novo ano? Talvez a perspectiva da profundidade.

O oposto óbvio de uma vida superficial é o de uma vida profunda. Mas esse modo de ser e estar demora tempo a formar-se e informar-nos, e constrói-se, inevitavelmente, através do sofrimento como motor de crescimento pessoal em maturidade. Pressupõe encontrar o espaço para estarmos junto com os nossos pensamentos em solitude, ultrapassando toda e qualquer solidão. Pressupõe um conhecimento da essência de cada aspecto da nossa vida, dos nossos actos, escolhas e, sobretudo, da essência dos relacionamentos.

Durante a pandemia, muitas pessoas foram criando anti-corpos a todas as exigências para a conter, como o uso da máscara, o distanciamento físico, as restrições nos horários, os ajuntamentos advenientes dos encontros nas nossas comunidades, e a dureza dos momentos de confinamento. Quando isso aconteceu, sobretudo, nos períodos de confinamento, naturalmente, o meu olhar e mente voltaram-se para a leitura silenciosa. Na altura desconhecia os efeitos da biblioterapia, e só depois de aumentar substancialmente o tempo de leitura (superior a uma hora de cada vez que pego num livro dos 6 que leio ao mesmo tempo), comecei a dar-me conta de que algo estava a mudar em mim.

Cada livro leva-me a mergulhar em histórias de vida impensáveis, experiências transformativas, novas visões da natureza e do nosso relacionamento com essa, um maior conhecimento do nosso corpo e de como funciona, e, também, como tudo se ligava entre os assuntos, as pessoas, e o tempo. Sentia que a minha mente se aguçava. Sentia haver novos horizontes de vida que se ampliavam. Sentia que a minha vida podia ser mais profunda do que era. Mas o mais notório (e doloroso), passou a ser a superficialidade que via, e vivia, à minha volta, e me entristecia.

A vida pessoal, social, cultural e espiritual passou a ser impulsionada pelo grau de entretenimento consumido pelas pessoas através dos conteúdos que lhe chegam pelos seus ecrãs. No ”The Machine Stops” de E.M. Forster, ou no ”Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou no ”Amusing ouselves to death” de Neil Postman, encontrava a premonição para muito daquilo que vivemos durante 2020 e que a pandemia trouxe à tona: a superficialidade da vida interior.

Uma ferida superficial produz mais dor do que uma profunda por termos os nervos à flor da pele. Mas se me ferir superficialmente no mesmo sítio, vezes sem conta, o resultado é a dormência em relação à dor causada. De tal modo que os gestos que nos levam a uma vida mais profunda não se realizam por negação, mas por desinteresse. O maior perigo da superficialidade é uma vida anestesiada pelo entretenimento que bloqueia as oportunidades que a perspectiva da profundidade pode oferecer.

O novo ano que temos pela frente é uma oportunidade para recomeçarmos e abraçarmos a experiência transformativa dada pela perspectiva da profundidade. Mas acolher, também, a possibilidade de que essa perspectiva nos transforme por dentro e, depois, por fora. Não há sociedade, cultura ou religião que não passe pelo tipo de vida de cada pessoa. Cada vida dá corpo às realidades na esfera da consciência. Realidades visíveis através dos gestos, mas, sobretudo, pelas palavras ditas ou escritas. A superficialidade das vidas leva-nos às divisões que destroem o potencial humano de transformação do cosmos a que Deus nos chama desde sempre. Sim, Deus.

A perspectiva da profundidade abre-nos ao infinito no íntimo de nós mesmos. Há quem não acredite em Deus, mas eu não posso deixar de expressar que não acredito na sua descrença. Vivem, talvez o Deus-Escondido na profundidade da sua vida que não encontrou ainda o motivo certo para o procurar dentro de si. Deus. Qual sentido último da existência que se encontra, frequentemente, recôndito no inconsciente, mas que pode entrar no mundo através do acto consciente da palavra. Aliás, entrou quando se fez Palavra. A perspectiva da profundidade vive da esperança, e vive para o amor como a força subtil que move tudo no universo. Que o próximo ano seja uma oportunidade de (re)encontrar esta perspectiva.


Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay