Seg. Jun 14th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Primeira Perspectiva: a visão do todo

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

 

Os passos que damos constroem caminhos. Esses caminhos ligam pontos e constroem uma história. Porém, será o enquadramento que as perspectivas dão à nossa vida que nos permitem discernir a direcção a dar aos passos, e a estabelecer os pontos de partida e chegada a conectar. O diálogo entre a compreensão do mundo visível e das realidades espirituais invisíveis é feito de passos e pontos, mas precisa, também, de perspectivas. E uma das mais importantes é a proporcionada pela visão do todo.

Darlene é uma enfermeira da unidade de recém-nascidos em Dayton nos Estados Unidos. Uma vez, durante o seu turno, Darlene olhou para um bebé na incubadora e todas as máquinas indicavam que os sinais vitais estavam dentro dos padrões normais. A enfermeira que estava de serviço a monitorizar este bebé não era Darlene, e não mostrava qualquer preocupação pelo seu estado porque os instrumentos indicavam estar tudo normal. Mas, para Darlene, havia alguma coisa que não parecia correcta.

A pele do bebé, em vez da cor rosa uniforme que devia ter na barriga, apresentava leves manchas, e a barriga parecia ligeiramente dilatada. Depois, o adesivo colocado após retirada uma amostra de sangue do tornozelo, apresentava um borrão avermelhado, em vez de um ponto. A criança comia e dormia bem, a pulsação era normal, estava consciente, alerta e até fez uma pequena careta na sequência de um toque de Darlene, mas a presença de todas aqueles pequenos sinais chamou a atenção desta enfermeira experiente.

Darlene foi ter com o médico e partilhou a necessidade de administrar antibióticos intravenosamente ao bebé. O único fundamento do seu pedido era a intuição e o médico respeitou a sua opinião. Após a saída dos resultados de uma série de análises laboratoriais, mostrou-se que aquele bebé estava a entrar num estado de sepse, isto é, uma inflamação geral por todo o corpo causada por uma infecção grave, e potencialmente mortal. Se nada tivesse sido feito, o bebé teria morrido inesperadamente pelo rapidez de propagação da infecção. Mas graças à visão do todo de Darlene, o bebé sobreviveu.

Este episódio contado por Charles Duhigg em ”Mais eficaz, mais rápido, melhor” mostra como ter a visão do todo é uma perspectiva que pode salvar vidas.

O todo implica uma mente que se abre ao horizonte pintado pelos vários sinais que temos diante de nós. Quando nos distanciamos, ganhamos uma perspectiva diferente sobre as coisas e percebemos como se entrelaçam umas das outras. Quando nos focamos demasiado numa parte, de tal modo que perdemos a visão do todo, limitamos o horizonte de conhecimento do mundo que nos permite viver com mais plenitude.

É a diversidade presente no todo que permite desfrutar da riqueza do contributo de cada parte. Cada ideia, gesto, palavra têm o seu valor, mas isolados podem perder o impacte transformativo a produzir nas nossas vidas. Porém, ideias, gestos e palavras entrelaçadas como notas presentes em pautas diferentes, produzem a sinfonia do todo que não só nos dá uma perspectiva mais próxima da realidade, como nos abre a perspectivas que nos projectam para além das realidades visíveis. Por exemplo, salvando a vida de um bebé.


Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay