Seg. Jun 14th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Quarto Ponto: 3D+1

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

O ser humano sente na pele e pensa. Não é difícil aceitar que todos somos feitos de uma dimensão material e outra mental. Mas o que acontece quando restringimos a nossa visão da realidade a estas duas dimensões? Vivemos numa Flatland.

Este é o título da obra mais conhecida de Edwin Abbott, professor e teólogo, onde imagina um mundo habitado por seres a duas dimensões, visitados por uma esfera que mostra como a realidade está para além daquilo que experimentam no corpo e pensamento. Existe uma terceira dimensão que reduzida à Flatland parece ser um ponto que se transforma em círculo, em vez de conceber a esfera que realmente é.

Assemelha-se ao que acontece no diálogo entre ciência e fé. Quando reduzimos o que podemos apreender às dimensões material e mental do ser humano, mais difícil se torna conceber o que está para além dessas dimensões. Existe uma terceira dimensão, a espiritual, que faz mais do que desafiar as concepções que temos do mundo. Desafia a nossa própria vida que não é somente activa, mas, também, contemplativa.

Porém, a aproximação a uma visão da realidade mais completa não se pode restringir a estas três dimensões (material, mental e espiritual). É preciso uma quarta dimensão porque o mundo não é um sistema estático, mas dinâmico e evolutivo. Para experimentarmos a realidade que queremos compreender precisamos de tempo, a quarta dimensão.

O cerne da natureza é relacional e narrativo, por isso, compreendê-la profundamente só é possível na história. É o resultado de acolhermos a ideia de “sermos” a 3D+1 consiste na capacidade de antecipação. Pois, nela reconhecemos o facto de vivermos imersos num universo inacabado, cuja aventura religiosa encontra-se em permanente (re)começo. Mas de que vive, por seu lado, a antecipação para percebemos como a concretizar?

”Antecipação […] vive das virtudes da confiança e paciência, esperando no silêncio e, por vezes, nas sombras, por uma narrativa coerente mais profunda a nascer no horizonte do não-ainda.” (John Haught, The New Cosmic Story).

 

Imagem de 3209107 por Pixabay