Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Nono Ponto: Cérebro

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

Os níveis de interpretação e percepção da realidade são compreendidos usando o nosso pensar, e pensamos com o cérebro. O que pensamos e sentimos depende do nosso cérebro. Mas, também, a impressão de haver algo mais para além do que pensamos e sentimos, ainda que não dependa do nosso cérebro, acaba por revelar que essa parte física de nós é um portal para aceder à compreensão do mundo.

Cuidar do nosso cérebro, de certo modo, significa cuidar da nossa compreensão do mundo. Pois, será através dele que tomamos maior consciência da visão indivisível do ser humano que é corpo-mente-espírito. A questão que se coloca está em como cuidar do nosso cérebro.

Existe, naturalmente, uma abordagem física desta questão que se refere à alimentação e ao sono, mas não me irei focar nessas. Irei sugerir uma tríade que me parece fundamental para ligar o cuidado do cérebro a uma visão mais clara daquilo que pode ser o diálogo entre ciência e fé: ler, pensar, transformar.

 

Ler

«Ler é um acto de interioridade, pura e simples. O seu objecto não é o mero consumo de informação… Ao invés, ler é a ocasião do encontro consigo mesmo… O livro é a melhor coisa que os seres humanos alguma vez fizeram.» (James Carroll, autor americano)

O nosso cérebro não está feito para ler. Basta pensar em como as crianças aprendem por si mesmas a andar, e com os adultos a falar, mas só na escola aprendem a ler. Aliás, a dislexia é a prova mais clara de que o nosso cérebro não está preparado para a leitura. A especialista nessa área, Maryanne Wolf, diz mesmo que vê «a dislexia como um lembrete evolucionário diário das diferentes possibilidades de organização do cérebro.»

O processo cognitivo da leitura implica reconfigurar o nosso próprio cérebro. Daí que o mais pequeno detalhe vale quando lemos. Na prática, a leitura muda as nossas vidas e a nossas vidas mudam os nossos hábitos de leitura. Mas, importa estar cientes do «mais importante contributo do cérebro que lê: tempo para pensar» (Maryanne Wolf, em Proust and the Squid).

 

Pensar

A revolução da leitura não é somente neuronal, mas também cultural. Sócrates não era muito a favor da ideia da escrita por recear que o acesso a-crítico à informação prejudicasse o desenvolvimento do pensamento. Para Sócrates, a procura de conhecimento não girava em torno da informação disponível, mas na procura da essência e propósito para a vida. Será que o efeito neuronal positivo que a leitura fez ao cérebro irá comprometer as novas gerações de “nativos digitais” pelo aumento exponencial de uma leitura cada vez mais fixa num ecrã?

É importante salientar que a leitura por si só, não foi a causadora das capacidades cerebrais que floresceram a partir da evolução cultural da escrita acessível a todos (sobretudo após a introdução do espaço), mas sim o dom secreto do tempo para pensar que está no cerne do cérebro que lê e que gerou um desenvolvimento do mesmo sem precedentes na história humana.

Quando abracei de corpo e alma (quase) a leitura de ebooks tinha todas as justificações para que o livro em papel tivesse um fim no futuro próximo. Mas, além disso não ter acontecido, notei que a capacidade de me manter concentrado na leitura diminuía. Chegou ao ponto de não conseguir ler por mais do que 5 a 10 minutos de seguida, sem desviar a minha atenção para outras coisas. Por outro lado, o excesso de tempo de ecrã começou a afectar a minha vista, de tal modo que os olhos cansavam-se mais facilmente e comecei a ter dificuldade a adormecer. Hoje, tudo isto está estudado e reflecte como a leitura digital tende a ser mais superficial. Ao invés de eliminar a leitura em papel, com o tempo, voltei a pegar em livros físicos e, em 2020, já li 62. O que tenho notado desde que recomecei a ler mais livros em papel foi um aumento substancial do tempo em que consigo ficar a ler de seguida (1-2h), enquanto que ver televisão não passa de 15 a 30 minutos.

Quando leio, não é só a página que se lê que importa, mas o vislumbre da página seguinte, o cheiro das páginas, o som do folhear da página. Tudo conta. E não há qualquer distracção, pois, um livro, não tem notificações, tornando-se um momento dedicado, exclusivamente, ao pensar. Um pensar que transforma.

 

Transformar

Se uma palavra se converte em pensamento, um pensamento pode converter-se num mundo de possibilidades nunca antes imaginadas. É por esse motivo que o resultado da leitura que leva a pensar, seja a transformação da nossa vida.

«A leitura transforma as nossas vidas, e as nossas vidas transformam a leitura.» (Maryanne Wolf)

Intriga-me esta frase, mas vai de encontro à experiência que faço, desde há muitos anos, no âmbito do diálogo entre ciência e fé. Quanto mais lia sobre o assunto, mais percebia o quão pouco sabia e o quanto mais havia para saber e investigar. Estava longe de imaginar que essa leitura estivesse a modificar fisicamente o meu cérebro, mas estava.

No diálogo com os não crentes, muitas das suas afirmações não faziam parte de vidas que se deixavam transformar por aquilo que liam. Aliás, frequentemente, verificava que pouco liam. Hoje, existem estudos que confirmam a importância que ler tem sobre a saúde do portal cerebral para uma vida mais consciente de si, dos outros e mundo à nossa volta. Em tempo de pandemia, quem sabe os horizontes que se podem abrir com a leitura desafiante sobre o diálogo entre ciência e fé.


Sugestões

  • Eduardo Duque, Manuel Curado, Manuel da Costa Santos, Alfredo Dinis e Paulo Cruz, “Deus na Universidade – O Que Pensam os Universitários Portugueses Sobre Deus?”, Gradiva, 2011.
  • Alfredo Dinis e João Paiva, “Educação, Ciência e Religião”, Gradiva, 2010.
  • John Haught, “Cristianismo e Evolucionismo em 101 Perguntas e Respostas”, Gradiva, 2009.
  • Guy Consolmagno , “A Mecânica de Deus – Como os Cientistas e os Engenheiros Entendem a Religião”, Publicações Europa-América, 2009.
  • Manuel Curado (Org.), “Porquê Deus Se Temos a Ciência?”, Fronteira do Caos, 2009.
  • Francis Collins, “A Linguagem de Deus”, Editorial Presença, 2007.
  • Luís Manuel Pereira da Silva – Teologia, ciência e verdade: fundamentos para uma definição do estatuto científico da Teologia, segundo W. Pannenberg. Gráfica de Coimbra, 2004.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay