Modos de interação entre ciência e religião 

π [Pessoas & Ideias]


π.5 ~ Polkinghorne e o Chá

Miguel Oliveira Panão

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Como pode um corpo que morreu, ressuscitar, se não se manifesta materialmente? A tendência é a de separarmos as águas e darmos explicações científicas ou teológicas, sem que se cruzem. Um dia, ouvi John Polkinghorne (1930-2021) dar um simples exemplo que mudou a minha percepção. Polkinghorne foi um físico teórico, teólogo e sacerdote anglicano que muito contribuiu para o diálogo interactivo entre ciência e religião, tendo ganho o prémio Templeton em 2002 pelos imensos e profundos contributos que deu ao longo da sua vida para a descoberta da dimensão espiritual humana. Porém, dos vários contributos, um dos que mais me marcou foi a mensagem que surge a simples pergunta: por que razão ferve a água?

Numa sala de aula diante de estudantes adolescentes, verto água para dentro de um jarro elétrico e encarno uma ideia brilhante de Polkinghorne que parte da pergunta — «por que razão diriam que ferve a água?» — De seguida, começo a explicar que dentro do jarro existe uma resistência eléctrica que, ligada à corrente, dissipa calor fornecendo-o à água por efeito de Joule, até que esta atinge a temperatura de saturação. Depois de atingida esta temperatura, a água começa a mudar da fase líquida para a gasosa, e forma bolhinhas de vapor de água. Essas bolhinhas crescem e indicam-nos que a água está a ferver. Em síntese, a água ferve porque forneço energia para que mude do estado líquido ao estado gasoso. Mas a este momento, Polkinghorne acrescenta — «ou a água ferve porque quero fazer chá.»

A explicação científica para a razão da água ferver e a explicação sobre a intenção que tenho para isso — fazer chá — ilustra como duas explicações distintas para a mesma pergunta não precisam de ser competitivas, mas podem ser complementares na descrição que fazem da realidade. Essa complementaridade provém da existência de vários níveis de interpretação da realidade. No caso do chá feito de água que fervi, o nível físico não se sobrepõe ao nível da intenção humana. O mesmo acontece quando ciência e religião procuram responder às mesmas questões. Não são competitivas, mas as respostas encontram-se a diferentes níveis de interpretação da realidade. Por exemplo, se Deus criou o universo, por que razão surgem novas espécies e conseguimos encontrar uma explicação biológica para isso?

Polkinghorne diz que — «um mundo evolucionário deve ser teologicamente compreendido como uma criação que o Criador permitiu “criar-se a si própria”.» — abrindo um rasgo intelectivo sobre a potencialidade criativa presente no íntimo da própria criação. Quando um fenómeno na natureza se explica com a invenção de uma lei física, uma visão antiquada da acção de Deus pode sentir-se ameaçada pelo progresso científico. Porém, se acolhermos que Deus criou um mundo que se cria, qualquer fruto da evolução enquadra-se na pintura que possui a assinatura criativa do Seu Criador. E mesmo os milagres, que muitos associam a uma acção pontual e intervencionista de Deus, exigem uma mudança de perspectiva iluminada pelos diferentes níveis de interpretação da realidade de uma criação que se cria a si mesma. No seu livro “One World”, Polkinghorne ajuda a entender os milagres de um modo aberto e mais profundo, partindo da universalidade questionável da Lei de Ohm.

Um fio elétrico conduz electricidade por ter disponível uma diferença de potencial elétrico ou voltagem. Nas tomadas que temos em nossas casas acedemos a essa voltagem. Depois, como os nossos aparelhos possuem uma certa resistência elétrica, será preciso uma voltagem mínima para que a corrente elétrica possa fluir pelos fios elétricos e aceder a lâmpada para podermos ler um livro de noite. Porém, em 1911, Kammerlingh Onnes arrefeceu de tal modo uns metais que, abaixo de uma certa temperatura crítica, a resistência elétrica praticamente não existia, e contra a Lei de Ohm, a corrente elétrica fluía sem qualquer voltagem. Havia-se descoberto os materiais supercondutores. Diz Polkinghorne que — «a descoberta do estado supercondutor não significou que a física, de repente, tornou-se irracional. Era, simplesmente, o caso da existência de uma racionalidade mais elevada do que a conhecida até então no mundo quotidiano de Ohm.» E o que tem isto a ver com os milagres?

Se, de um momento para o outro, um acto nosso nunca realizado, abre uma nova perspectiva sobre a realidade e sobre o modo como as coisas acontecem, a ciência generaliza e verifica a reprodutibilidade. Porém, quando os eventos são únicos como a emergência de um universo, ou o nascimento de uma certa personalidade histórica (e.g. Einstein), não é possível reproduzir o Big Bang ou Einstein, por serem eventos únicos que alteraram, profundamente, a nossa visão do mundo. É sobre esta perspectiva que Polkinghorne diz que — «os milagres são vistos, não como truques celestiais conjurados, mas como sinais, intelecções para uma racionalidade mais profunda do que a que normalmente nos é perceptível.»

Os milagres existem quando alteram profundamente a nossa visão do mundo e da realidade. Quando Polkinghorne naquele vídeo diz, — «a água ferve porque quero fazer chá.» — dentro da minha mente realizou-se uma sinapse única que alterou profundamente o modo como passei a ver o mundo. Sem que se desse conta, Polkinghorne havia ajudado Deus a realizar no meu pensamento, um pequeno e profundo milagre.


Imagem de Rosalia Ricotta por Pixabay