Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Um encontro na Rússia

António Jorge Pires Ferreira

 

No dia 16 de setembro de 1888, o escritor aveirense Jaime de Magalhães Lima visitou o romancista Leão Tolstoi na Rússia, mais concretamente em Iasnaia Poliana, a aldeia para onde o escritor russo se refugiara, longe da “civilização corrompida”, para se dedicar à agricultura e a outros trabalhos braçais.

Não se pode dizer que o encontro entre o aveirense, então com 27 anos, e o russo, com 60 anos, tenha decorrido na maior das cordialidades. Jaime de Magalhães Lima dedicava ao russo a “mais ilimitada admiração” pelo seu modo humilde de viver, mas discordava das suas ideias de “nihilismo”, “abolição da propriedade, do estado, de todos os vínculos e de todas as dependências”, como relatou no livro “Cidades e paisagens”.

Jaime de Magalhães Lima, acompanhado de um intérprete, definiu a sua profissão como “proprietário”, algo que desagradou ao russo. “O que há de melhor é pedir esmola; ser intérprete já é melhor do que ser proprietário, mas ser proprietário é o que eu conheço de pior”, disse-lhe Tolstoi.

Depois do encontro, o aveirense enviou a Tolstoi um exemplar dos “Sonetos”, de Antero de Quental, em alemão. A carta de 15 de março de 1889 que acompanhou o livro está no Museu Tolstoi, em Moscovo. Nela, Jaime de Magalhães Lima agradece ao russo a receção na sua casa, “uma das mais doces e encantadoras recordações da minha vida”.

Não se sabe se Tolstoi respondeu por carta a Jaime de Magalhães Lima. Se respondeu, não sobreviveu qualquer registo. Mas escreveu no seu diário, no dia 15 de março de 1889: “Li Quental. Ótimo”.


Fotos: Jaime Magalhães Lima e Tolstoi