Sex. Out 22nd, 2021

Intelligo quia credo | Variações sobre a fé cristã…

(Parceria com Ecos da Ria – rubrica mensal)

Luís Manuel Pereira da Silva

«Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso…» Assim professamos, domingo após domingo, aquele que, desde o século XVII, foi designado como o ‘credo ou símbolo nicenoconstantinopolitano’.

Noção de símbolo da fé

[A designação ‘símbolo’ é, habitualmente, utilizada para designar os ‘credos’ que, ao longo da história, se foram organizando, reunindo (‘simbolizar’), sendo um dos mais reconhecidos e evocados o ‘símbolo dos apóstolos’, que não analisaremos aqui, cuja designação não quer afirmar que foi formulado pelos apóstolos – o seu aparecimento dá-se no século IV, sendo do século V a primeira versão completa -, mas sim que repercute a fé professada pelos discípulos de Jesus Cristo. Este ‘símbolo dos apóstolos’ tem, reconhecidamente, uma missão ecuménica assinalável, na medida em que as diversas igrejas cristãs se reveem nele, dada a simplicidade das suas formulações. Reproduzimos, no final deste artigo, a versão disponibilizada em https://www.vaticannews.va/pt/oracoes/simbolo-dos-apostolos.html]

O Credo nicenoconstantinopolitano

A designação que foi atribuída ao símbolo que professamos, domingo após domingo (credo nicenoconstantinopolitano) repercute a unidade entre o credo de Niceia (325) e o que foi finalizado no concílio de Constantinopla (381), mas não podemos deixar de notar uma curiosidade que nos servirá, aqui, de base de reflexão. No símbolo professado em Niceia, as primeiras palavras são “Cremos em um só Deus, Pai Omnipotente, criador de todas as coisas visíveis e das invisíveis”. Por sua vez, o símbolo reunido em Constantinopla (e que secunda a fé de Niceia, desenvolvendo-a) inicia-se, na versão latina (aquela que nos chegará e que professamos), com “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, criador do céu e da Terra”.

Niceia assume um sujeito – nós; Constantinopla, na sua versão latina (a versão grega mantém a primeira pessoa do plural), desloca o sujeito da profissão para a pessoa individual.

Sabendo-se da insofismável unidade entre os dois símbolos (designar o segundo como nicenoconstantinopolitano repercute essa unidade), há que interpretar como sendo significativa esta dupla concentração nos sujeitos das afirmações.

Poderíamos recolher deste traço histórico a constatação de que a fé proclamada por cada um de nós não é uma fé individual, à medida do sujeito individual, mas uma fé comunitária que se personaliza e se assume, envolvendo nela não só o intelecto, mas toda a pessoa. Esta visão sobre a fé que é, por um lado, comunitária, mas também muito mais do que adesão intelectual, antes o envolvimento de toda a pessoa, é notória nas próprias formulações do Credo.

A fé em Deus e a fé na Igreja

Se olharmos com atenção a versão latina poderemos fazer uma constatação interessantíssima.

Afirma-se “Credo in unum Deum” (Creio num só Deus), “Credo in unum Dominum Iesum Christum” (Creio num só Senhor, Jesus Cristo), “Credo in Spiritum Sanctum” (Creio no Espírito Santo). Em latim, a preposição ‘in’ seguida de ‘acusativo’ (neste caso, ‘unum Deum’, ‘Unum Christum’ e ‘Spiritum Sanctum’) pode ser traduzida pela ideia de ‘fazer caminho em direção a’, ‘dirigir-se para’. Crer é, assim, muito mais do que uma mera conclusão intelectual, ainda que, certamente, esta dimensão da pessoa não esteja, de modo algum, ausente, mas até omnipresente, mas complementada pelo todo da pessoa. Esta perspetiva é coerente com o que afirmam alguns dos estudiosos da religião que, como Émile Benveniste, fazem derivar a palavra ‘crer’ de uma origem indo-europeia ‘Kred-dhe’, que poderia ser traduzida por ‘colocar o seu coração em alguma coisa’.

Dizer ‘credo in unum Deum’ é mesmo isso que pretende afirmar: encaminho o meu coração para Deus, sendo o coração muito mais do que o órgão, mas símbolo da totalidade do ser, em particular, dos afetos. E, se tivermos em conta que o afeto é a condição que nos permite ‘sermos afetados pelo outro’, então, a reflexão sobre o que é a fé atinge um grau de compreensão que supera as visões individualistas ou meramente intelectuais da fé. Ter fé é deixar-se habitar por Aquele em quem se crê. (Tão fecunda foi, ao longo da história, esta metáfora da ‘habitação’ de Deus no coração do Homem…)

Curiosamente, também, e regressando à versão latina do ‘Credo nicenoconstantinopolitano’, é possível constatar que os padres conciliares de Constantinopla não quiseram reservar à fé na Igreja o mesmo grau de adesão que se espera do crente em relação a Deus.

Na verdade, enquanto para a fé em Deus, em Jesus Cristo e no Espírito Santo é utilizada a preposição ‘in’ (criando a referida ideia de ‘caminho e adesão total do ser a…’), no caso da Igreja, a fé professada no símbolo aqui analisado expressa-se através de um ‘acusativo’ sem a preposição (‘Credo unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam’), podendo ser traduzido por ‘creio a Igreja’. A Igreja é merecedora de fé, mas não no mesmo nível que é devido a Deus, pois ela é a comunidade em caminho, ela mesma peregrina com a humanidade. Tal constatação não deve relativizar o papel e missão da Igreja, mas colocá-la ao serviço do absoluto que a transcende. A história cedeu, em alguns momentos, a tentações de absolutização do caminho em relação à meta, mas a consciência que, desde o Vaticano II, a Igreja tem de que a verdade ‘subsiste’ mas não se esgota na Igreja, favorece o diálogo, o encontro e a abertura.

Desafios que deveremos recordar e renovar, domingo a domingo, sempre que, na nossa língua, professarmos ‘Credo in unum Deum’, mas também ‘Credo unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam’).

(*Para a reflexão aqui recolhida, tomámos por referência uma obra que se tornou um clássico para os estudos teológicos, o Enchiridion …’, uma obra de que possuímos a 36ª edição, uma coletânea iniciada, em 1854, por Heinrich Denzinger. Esta edição devemo-la a Peter Hünermann que atualizou o trabalho iniciado por aquele professor alemão do século XIX. Nesta obra, coligem-se os principais documentos da tradição católica, renovadamente atualizados.)

Símbolo dos apóstolos – credo formulado entre os séculos IV e V.

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;

nasceu da Virgem Maria;

padeceu sob Pôncio Pilatos,

foi crucificado, morto e sepultado;

desceu à mansão dos mortos;

ressuscitou ao terceiro dia;

subiu aos Céus;

está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,

de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo;

na santa Igreja Católica;

na comunhão dos Santos;

na remissão dos pecados;

na ressurreição da carne;

e na vida eterna. Amen

Credo nicenoconstantinopolitano (Concílio de Constantinopla – 381)

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do Céu e da Terra,
De todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigénito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado, não criado, consubstancial ao Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação
desceu dos Céus.
E encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria.
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
e subiu aos Céus,
onde está sentado à direita do Pai.
De novo há-de vir em sua glória
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu Reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele que falou pelos Profetas.
Creio na Igreja,
Una, Santa, Católica e Apostólica.
Professo um só batismo para a remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos
e vida do mundo que há-de vir.
Amém.


Imagem de Phill Sacre por Pixabay