Sáb. Out 16th, 2021
(Entrevista concedida ao jornal diocesano Correio do Vouga)

“A nossa diocese de Aveiro pode dar mais vocações, assim nos empenhemos todos”

 

“Chamados a seguir Jesus”, o livro que acaba de ser publicado, recolhe as principais intervenções vocacionais do Bispo de Aveiro em momentos como as Semanas dos Seminários, as Missas Crismais e as ordenações diaconais e presbiterais. Nesta entrevista, a pretexto do livro, D. António Moiteiro sugere o desenvolvimento de uma “cultura vocacional” nas famílias e comunidades e deixa um apelo aos padres e consagrados: “Temos de mostrar com a nossa vida que o ser padre ou consagrado vale a pena, é um projeto de vida com sentido e torna-nos felizes”. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira

 

CORREIO DO VOUGA – O fio condutor do seu livro é a vocação para padre e de consagração. Como define vocação?

D. ANTÓNIO MOITEIRO – A vocação consiste num chamamento por parte de Deus e na resposta que cada um de nós dá a esse chamamento. Por isso, é necessário estar atentos e escutar o que Deus tem para nos dizer através dos sinais que vai colocando na nossa vida, para depois respondermos com generosidade.

O Sr. Bispo oferece este livro à Diocese numa altura em que Plano Pastoral está centrado na família. Família e vocação estão unidas?

Este livro tem uma história. O ano pastoral de 2020/21 era dedicado às vocações de consagração e, se não fosse a pandemia, estávamos, na Diocese, com este tema, englobando as vocações sacerdotais, religiosas e outras formas de vida consagrada. Fruto da Covid-19 tivemos de adiar esta temática para mais tarde. Eu não podia ficar de braços cruzados perante um tema tão importante para a vida das nossas paróquias e da Diocese. O meu contributo seria publicar tudo aquilo que escrevi sobre as vocações e a vida do nosso presbitério ao longo dos anos que levo como bispo de Aveiro. Na próxima quinta-feira santa, como já é habitual todos os anos, oferecei este livro aos sacerdotes e diáconos da Diocese, a fim de em conjunto podermos abrir caminhos vocacionais entre nós.

O livro é uma compilação de intervenções sobre a vocação nos seus seis anos de serviço e na condução da Diocese de Aveiro. A Diocese, ou seja, as paróquias, os padres, os cristãos em geral… estão despertos para a urgência vocacional?

A minha convicção é esta: se não há vocações é porque não há vida comunitária, uma vida paroquial que seja comunhão e de encontro. Há pouco trabalho com os jovens e as vocações surgem de encontros pessoais, sendo a vida comunitária a melhor base para que haja vocações de consagração. O recenseamento à prática dominical feito em 2019 em todas as paróquias da Diocese alerta para isto mesmo. Como referi recentemente numa carta aos sacerdotes sobre a pastoral familiar, também na pastoral vocacional precisamos de um novo Pentecostes que nos nos faça sair de uma Igreja fechada em si mesma. A pandemia tem trazido sinais muito positivos de encontro, contactos dos nossos sacerdotes com os seus paroquianos através dos meios on-line ou pessoais e isso é muito positivo. Reinventámos uma nova forma de presença que precisamos de consolidar e de aprofundar.

O P.e Manuel Joaquim Rocha, no Prefácio, começa por traçar o percurso biográfico do Sr. Bispo, para realçar a sua vivência multifacetada do ministério sacerdotal, nomeadamente como pároco, diretor espiritual do seminário e especialista em catequese. O facto de ter essa vida pastoral multifacetada deu-lhe uma visão diferente da temática vocacional? Em quê? Como?

A tarefa das vocações diz respeito a toda a Igreja, a todas as instituições, a todas as paróquias e a cada um dos cristãos. Todos somos chamados a desenvolver uma cultura vocacional em toda a Diocese e tem de ser transversal a toda a pastoral diocesana. É a partir da formação cristã que podemos lançar as bases de uma cultura vocacional para o matrimónio e para a vida de consagração. Os pais têm um papel importante no despertar da vocação dos seus filhos, mas também a paróquia, com os dinamismos comunitários que lhe são próprios, deve ter como prioridade a pastoral vocacional.

No seu entender, porque há falta de vocações para padre? Haverá uma só causa ou várias? Quais?

São várias as causas, mas julgo que a mais importante é a forma como vivemos e testemunhamos a nossa fé e o nosso estilo de vida. Vemos, por exemplo, como vários movimentos na Igreja têm vocações e isso é  fruto da formação cristã e da sua vida comunitária. Temos de mostrar com a nossa vida que o ser padre ou consagrado vale a pena, é um projeto de vida com sentido e torna-nos felizes. Seguir Jesus é deixar-se enamorar por um projeto de vida e ser capaz de o concretizar numa vida alegre e disponível para os outros. Sabemos que Deus nunca falta, o que nos pede é generosidade e fidelidade.

Como o Sr. Bispo veio da Guarda, passou por Braga, está em Aveiro e conhece certamente as outras dioceses, permita-nos fazer esta pergunta. Há alguma diocese com muitas vocações?

Em Portugal há dioceses com mais ordenações e outras com menos, mas são insuficientes para as necessidades do povo de Deus. Tenho uma convicção profunda: a nossa diocese de Aveiro pode dar mais vocações, assim nos empenhemos todos. Temos jovens, uma população trabalhadora e empreendedora, porque não propor um ideal de vida que seja transformador da sociedade em que vivemos? A pandemia veio pôr a nu alguns problemas da nossa sociedade: as desigualdades sociais agravaram-se e os que já tinham muito não sofrem da mesma maneira com esta crise e ainda conseguiram ganhar mais. As desigualdades aumentaram. Esta situação não nos deve inquietar e lutar por um mundo melhor? O serviço aos mais pobres e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna não é uma opção do Evangelho? Este não é um ideal que merece a vida de uma pessoa?

 

Já ouvimos o Sr. Bispo dizer, no final de uma ordenação (citamos de memória): “As pessoas pedem-me padres, como se eu os tivesse. Mas eles não estão aqui; estão aí”. Ou seja, estão no meio da assembleia, nas comunidades, nas famílias, sendo necessário um despertar vocacional. Na Diocese de Aveiro, o serviço do despertar vocacional (“secretariado das vocações” ou da “pastoral vocacional”) já passou por várias modalidades. Como está agora?

Confesso que este é um campo da pastoral diocesana que necessita uma renovação profunda e um empenhamento de todos: bispo, sacerdotes, consagrados, leigos e as próprias comunidades cristãs( paróquias). Sem o esforço de todos não vamos a lado nenhum. É certo que a nossa Diocese, entre as dioceses do nosso país, vai tendo um número razoável de sacerdotes para a vida paroquial que temos. Mas isto não nos pode descansar. Temos de alargar o nosso horizonte para toda a Igreja e a partilha com quem mais precisa, mesmo em recursos humanos, é uma exigência do Evangelho. O apelo que faço é que nos empenhemos todos nesta missão de despertar novas vocações de consagração, não esquecendo a oração como um dos meios mais eficazes – “pedi ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe”.