Ter. Dez 7th, 2021

O livro: Papa Francisco – A Revolução Imparável

 

(Da capa do livro)

A eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa correspondeu a uma espera e a uma esperança. As pessoas vêem nele, no seu modo de estar e de dizer, naquilo que propõe, a possibilidade de uma concretização. Será que a revolução do Papa Francisco é imparável?

Os obstáculos são muitos, mas há uma revolução em marcha, que, mesmo que venha a ter retrocessos, será difícil de ser travada nas suas intuições mais importantes. É verdade que talvez a elevada fasquia colocada pelas circunstâncias de uma Igreja e de um mundo em crise condene o pontificado a não satisfazer toda a gente, tais foram as expectativas criadas. Mas Francisco já mostrou que entende esses problemas e insiste naquilo que, para ele, continua a ser essencial: a busca de Deus, as relações interpessoais baseadas no acolhimento e na justiça, a liberdade do Evangelho.

António Marujo e Joaquim Franco, jornalistas com uma vida profissional dedicada à actualidade religiosa, lançam um olhar interpretativo sobre a forma como o Papa escuta o mundo, a ideia de revolução da ternura que ele já propôs, o desprendimento da atitude, o papel do discernimento, o cuidado da Criação, o carácter insubstituível do diálogo, a prioridade do combate à pobreza ou a reabilitação da política para se sobrepor à ditadura da estatística e do dinheiro. Esta é uma obra imprescindível para conhecer os caminhos e as (im)possibilidades da revolução do Papa Francisco.

 

Reproduz-se, a seguir, um excerto da introdução do livro
Edição: Manuscrito 
(336 pág., 17,90 euros)

Pode haver algo de novo neste livro?

Ainda se poderá dizer alguma coisa de novo sobre o Papa Francisco?

A pergunta é legítima, se pensarmos nas centenas de livros centrados na figura do primeiro Papa latino‐americano da história do catolicismo que, em quatro anos, foram publica‐ dos em todo o mundo. Só em Portugal, são já mais de quatro dezenas os livros que, com textos do próprio Jorge Mario Bergoglio/Papa Francisco ou sobre ele, ajudam a conhecer a figura. Por isso, devemos começar honestamente por perguntar se ainda é possível dizer algo de novo.

Foi também essa a pergunta que nos colocámos quando assumimos o desafio de entrar na aventura de reler e rever as palavras, os gestos, as decisões e os apelos de um Papa que — com excepções que confirmam a regra — recolhe uma simpatia generalizada e transversal a vários sectores da sociedade, e não apenas dentro da Igreja Católica.

Esta pode ser a primeira dificuldade. Vindo do povo, «quase do m do mundo», Jorge Mario Bergoglio assumiu o lugar que hoje ocupa correspondendo a uma expectativa e a uma esperança. E as pessoas, não apenas dentro da Igreja, mas em várias instâncias, viram nele, no seu modo de estar e de dizer, na forma como vive e naquilo que propõe, a concretização de uma grande parte dessa expectativa e dessa esperança.

Talvez a elevada fasquia que lhe foi colocada pelas circunstâncias de uma Igreja e de um mundo em crise faça com que o pontificado esteja condenado a não satisfazer toda a gente, tais foram as expectativas criadas.

Não deixa de ser interessante o facto de o pensamento do personagem em causa ter uma origem «clássica». Trata‐se, afinal, de um jesuíta de formação que foi eleito Papa a pensar em Francisco de Assis. Tremenda ironia da história, com estranhas coincidências. Poucos dias antes do conclave que o elegeu, andava um homem nas imediações do Vaticano com um cartaz onde se lia Francisco I Papa. Se alguém dissesse que isso iria acontecer, seria considerado um desconhecedor da vida da Igreja.

Não falta quem tente interpretar a eleição e o pontificado de Francisco. Por um lado, a boa imprensa e os elogios de sectores mais abertos à mudança no interior do catolicismo ou na sociedade. Por outro, a incompreensão inicial, as explicações ensaiadas a partir de padrões mais tradicionalistas, com o escrutínio ao pormenor de gestos e palavras do Papa.

Com Francisco, a Igreja e o mundo vivem um momento invulgar e imprevisível. Entre a simplicidade e a espontaneidade, ele quebra protocolos e diz o que pretende. Como recordamos sobretudo no primeiro capítulo, recusou inicial‐ mente os adornos papais, pediu as orações do povo por ele, deu indícios de uma colegialidade perdida no tempo romano. Expressou ainda o desejo de uma Igreja pobre e para os pobres — o que exige o empenho eclesial na erradicação da pobreza, a promoção da justiça e da paz, e a necessária intervenção política dos cristãos.

Logo nos primeiros dias usou de uma linguagem pastoral, da qual não se solta, próxima e popular. Homem normal, de invulgar perspicácia, prefere continuar a gerir parte da sua agenda, telefona para quem entende, em qualquer parte do mundo, utiliza uma linguagem que toda a gente percebe…

Mas isso não impede que haja teologia, e teologia profunda, naquilo que propõe, apesar de vários críticos dizerem que o seu pensamento é pobre. Ou, no que é outra forma de apoucar o Papa, afirmarem que o que ele diz não traz novidade — esquecendo que a novidade não se faz apenas por se dizer coisas diferentes, mas também pela forma de as dizer e pelo facto de, uma vez ditas, elas serem acompanhadas da coerência de quem as propõe.

Este não é um Papa para fazer uma revolução imponderada, mas alguém que sabe bem o que pretende e que é capaz de surpreender, seja a Igreja, no diálogo interno, entre reivindicações de abertura à modernidade e resistências à mudança, seja o mundo, no diálogo ecuménico e inter‐religioso ou na criação de pontes de confiança para os grandes debates políticos e sociais.

São muitos os desafios, as interrogações e as variáveis. Aceitá‐los como parte do processo, sem perder o horizonte da fé e da convicção, é já uma grande transformação na Igreja — institucional, cansada e previsível —, num tempo que pede criatividade e ousadia.

Esta capacidade de surpreender diariamente é, de resto, uma das novidades maiores de Francisco, que pretende dar novas formas à mensagem de sempre que transporta consigo.

***

Que mensagem é essa? Este livro procura dar uma resposta a esta pergunta. Na era da velocidade, o Papa Francisco exprime uma proposta revolucionária que vai aos alicerces do Evangelho e aponta para a redescoberta do concreto, dos afectos: em tudo na vida, à semelhança das relações familiares, é preciso ser‐se capaz de reaprender a dizer as coisas que foram deixadas pelo caminho; como, por exemplo, «com licença», «obrigado» e «desculpa».

Este é um tríptico que Francisco utiliza com frequência. Nas Jornadas Mundiais da Juventude, em Julho de 2016, em Cracóvia, na Polónia, o Papa relacionou as três expressões para enaltecer a coragem dos jovens que decidem casar. Na verdade, é quando se dirige às famílias que Francisco vê uma «porta de entrada» onde estão «escritas» estas três palavras (em italiano ou em espanhol, línguas usadas por Bergoglio, permesso/permiso, grazie/gracias e scusa/perdón).

Se, numa tradução livre, a primeira também pode ser traduzida por «por favor» ou «posso?», a segunda remete‐nos para o reconhecimento e a gratidão (dar graças), que em português é habitualmente utilizado com um sentido mais profundo («obrigado»), implicando vínculo e dever de retribuição, enquanto a terceira faz o percurso para o sentido reconciliador do perdão.

Não se tratando de palavras mortas, estas expressões caíram numa certa banalização. Mas o Papa não está preocupado com etimologias episódicas e recupera o sentido perene dos vocábulos para ligar o verbo da vida ao substantivo da relação: «São palavras simples, mas não tão fáceis de pôr em prática! Elas encerram em si uma grande força: o vigor de proteger o lar, até no meio de inúmeras dificuldades e provações; ao contrário, a sua falta gradualmente abre fendas que até o podem fazer ruir.»1 «Com licença», explica, porque «entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa existência, exige a delicadeza de uma atitude não invasiva, que renova a confiança e o respeito»; «obrigado» porque «devemos tornar‐nos intransigentes sobre a educação para a gratidão e o reconhecimento: a dignidade da pessoa e a justiça social passam ambas por aqui»; «desculpa», palavra «difícil e deveras necessária», é, nas prioridades de Francisco, «o vocábulo precioso» sem o qual começam as «dilacerações nas famílias» por não serem «capazes de perdoar».

O Papa apresentou estas explicações numa audiência a 13 de Maio de 2015. Com o seu habitual sentido de humor (uma dimensão que abordaremos adiante), ele reconhece que há desentendimentos que podem fazer «voar pratos», mas aconselha um ponto de esforço conhecido nos grupos católicos de reflexão familiar: «Nunca termineis o dia sem fazer as pazes.»

É um princípio de vida. E, ao propor recuperar o essencial através daquilo que parece simples, o Papa está a sugerir que a revolução (a palavra também é dele, proferida em várias ocasiões) se faça no mais fundo da nossa humanidade, do que revela a comum condição dos seres humanos.

É, assim entendemos, um movimento imparável. Mesmo que venha a sofrer alguns recuos, aquilo que Francisco iniciou já não terá retorno, porque corresponde às expectativas de muita gente. Interna e externamente, o Papa tem obstáculos e inimigos. «Os mais perigosos estão dentro, porque ocupam cargos de poder», verifica Harvey Cox. O teólogo norte‐americano, pastor da Igreja Baptista, fala numa «vida difícil» para Francisco, que enfrenta uma tarefa «demasiado grande para terminá‐la no seu pontificado». Em vários aspectos a reforma é irreversível e continuará com o sucessor, prevê Cox, pois «as pessoas estão a ver e a saborear o que ela significa e não vai parar só porque não será Francisco a liderar o processo… pode ser mais difícil, mas não vai parar»2.

Se alguém espera uma mudança profunda no catolicismo, convém que perceba que ela, a fazer‐se, não se limitará à vontade e à capacidade de um homem só — mesmo que esse homem seja o Papa. A mudança carece de um caminho longo e Francisco limitou‐se a entrar nesse caminho, que começou nas suas origens, passou pelos bairros periféricos de Buenos Aires e chegou à centralidade romana, cujos sintomas de decadência e afastamento dos valores essenciais do Evangelho levaram Bento XVI a provocar a primeira grande ruptura com o seu gesto de resignação. Este é um caminho de imperfeição, como o próprio Francisco admite, que se deve fazer através do discernimento, na proximidade dos casos concretos da vida. Esta chave pode abrir os muitos baús fechados das certezas, tão absolutas quanto frágeis, da religião. E não só, pode acrescentar‐se. A margem de incerteza nas procuras da fé é o campo de manobra de Francisco. Como o próprio diz, «se alguém tem a resposta a todas as perguntas, […] é um falso profeta que usa a religião para si próprio»3.

Notas

  • 1  Papa Francisco, Audiência Geral, 13 de Maio de 2015.
  • 2  Entrevista de Harvey Cox, Religion Digital, 20 de Fevereiro de 2017.
  • 3  Brotéria, vol. 177, n.o 2/3 (Agosto/Setembro), 2013.