Ilda da Fontoura Pires

Há uns poucos anos viajei para o Tibete. Um dos meus objectivos era conhecer mais de perto o Budismo Tibetano nas suas diversas manifestações. Visitámos vários mosteiros todos na montanha, não fosse o Tibete uma imensa montanha. Tudo acontece para cima dos 3 mil metros onde fica Lassa e o Potala. Observei e tentei entrar por dentro de tudo o que presenciava. Todos os mosteiros abrem com uma grande sala, a sala de meditação, onde os monges meditam em conjunto, ou recitando mantras, às vezes acompanhados com instrumentos musicais, ou em silêncio. Os monges tibetanos são verdadeiros profissionais da meditação. Meditam durante horas e horas e nem para tomar um chá ou comer uma tigela de sopa interrompem a  meditação. Outros tratam de lhes fazer chegar o alimento. De facto a função destes monges é meditar. Nalguns mosteiros, a par da meditação, também se dedicam aos estudos filosóficos, à escrita e investigação. Para além da meditação em grupo é frequente encontramos, num qualquer cantinho dum mosteiro, por exemplo no Potala, monges solitários em total quietude e silêncio.

A par da meditação, e à volta da sala da mesma, muitas outras coisas acontecem. É a religiosidade popular, tal como a conhecemos no ocidente, nas suas mais exuberantes manifestações: práticas sacrificiais tais como arrastar-se por um longo percurso, prostrações oferta de bandeiras, de cachecóis coloridos, cera, dinheiro e tantas outras coisas. Os monges permanecem alheios a todo este bulício que acontece à sua volta. Meditam simplesmente.

Foi o contacto com estes mosteiros que despertou no Ocidente o gosto pela meditação, como resposta à necessidade de diminuir o ritmo acelerado em que se vive nesta parte do mundo. Aos poucos, pequenos grupos de meditação foram aparecendo, reunindo-se regularmente, geralmente sob a orientação dum Mestre. A grande maioria são de inspiração budista, mas também os há de inspiração hinduísta. Hoje proliferam sobretudo nas cidades.

Ao mesmo tempo, nos mosteiros de inspiração cristã foi-se tomando consciência de que era importante ir mais além das orações, das rezas e dos ofícios. Era preciso, para além destas, cultivar a oração silenciosa, a meditação, já não como exercício da razão, do pensamento como era tradição, mas como experiência de quietude e de silêncio. A partir desta tomada de consciência, alguns monges  investigaram  os inícios do Cristianismo, verificando que também nesses tempos primordiais tinha havido correntes de meditação e meditantes. Investigaram-se os Padres e Madres do deserto e seus ensinamentos sobre o assunto.

John Main, monge beneditino, cria a Meditação Cristã e deixa-nos largas instruções sobre a mesma. “Meditar, diz John Main, é um caminho para chegarmos ao nosso próprio centro, ao mais fundo do nosso ser e aí permanecermos – parados, silenciosos, atentos”  (John Main, em Silêncio e quietude em todos os momentos, p.14); e mais adiante referindo-se especificamente à Meditação Cristã, diz: “O objectivo mais importante da meditação cristã é permitir que a presença misteriosa e silenciosa de Deus, que está dentro de nós, se torne cada vez mais, não apenas uma realidade, mas a realidade das nossas vidas; para que se torne essa realidade que dá sentido, forma e propósito a tudo o que fazemos, a tudo o que somos” (ibidem). Jean-Yves Leloup tendo passado por várias experiências espirituais, entre as quais a vivência entre os monges gregos do Monte Atos e pelo Budismo, funda, no sul de França um Mosteiro ortodoxo onde a meditação é prática fundamental.

Pablo d`Ors, um sacerdote galego, depois de, também ele, ter passado por várias experiências de meditação cria o seu próprio método meditativo e dá corpo a um grupo “Os Amigos do Deserto” hoje espalhado por várias cidades espanholas e não só.

Por influência de Pablo d’Ors, que esteve várias vezes em Portugal, passando algumas dessas vezes por Aveiro, nasceu, na Paróquia da Vera Cruz, um grupo de Meditação Cristã. Como qualquer outro grupo, este teve um início tímido, mas foi-se afirmando e ganhando consistência. Neste momento, o grupo reúne todas as semanas às segundas, 19.30 horas. Meditamos durante 20 minutos com esse ensejo de, na quietude e no silêncio, descermos até ao mais profundo de nós mesmo e aí nos encontrarmos connosco e com o nosso Deus. Se ao princípio parece difícil, com a continuação, a meditação torna-se uma necessidade diária da qual já não abdicamos. No silêncio interior que vamos conseguindo acontece a abertura e encontro connosco próprios. Acontece a abertura aos outros. Acontece o encontro com o Deus que nos habita e nos ama. Acontece o abandono a Deus e à sua vontade.

E os frutos, poderá alguém perguntar? Bom, não meditamos com o objectivo de alcançar frutos, mas eles vão aparecendo no quotidiano da nossa existência numa maior paz interior e serenidade, numa maior capacidade de discernimento e numa maior presença consciente nos afazeres do dia-a-dia.

O  grupo, que conta hoje com cerca de 15 pessoas, é um grupo aberto onde qualquer pessoa pode aparecer, se assim o entender, ainda que seja só para “ver” e experimentar, sem qualquer espécie de compromisso.


Imagem de Benjamin Balazs por Pixabay