FORMAR PARA CUIDAR | 2
Pe. Georgino Rocha
A pessoa fragilizada, sobretudo quando doente em fase avançada, sente-se frequentemente sozinha, com esperanças intermitentes e grandes aflições. É normal que o filme da sua vida passe uma e outra vez, que aflorem problemas mal ou não resolvidos, relações ainda não refeitas e outras questões que causam inquietações de consciência. E se está hospitalizada, vê-se condicionada por regras inibidoras da liberdade de expressão e da espontaneidade de comunicação. O mesmo pode acontecer noutros espaços como na família ou em lares. E os seus direitos correm o risco de ficar nas páginas dos livros ou no silêncio dos corredores e dos blocos de notas. A pretexto de não incomodar ou violentar convicções.
O visitador que realmente quer saber cuidar terá de ser muito sensível a esta possibilidade e dar-lhe voz sempre que necessário. De forma correcta. Mas verdadeira. Com serenidade activa. E alargar o horizonte a outras situações que possam ocorrer, pois é a pessoa doente em todas as suas dimensões que “está em jogo”; é o seu bem integral. Também religioso e espiritual. Os “ganhos” correm mundo a partir do sucedido ao grupo de jovenzinhos da Tailândia. Por isso, convém destacar as seguintes notas de orientação.
1. Situar-se no conjunto dos serviços prestados, designadamente pela Igreja nas suas modalidades pastorais. Tais como a visita personalizada, o apoio familiar, a rede de pessoas em dor, a oração de libertação, a leitura da Palavra de Deus, a reconciliação sacramental, a unção das pessoas idosas ou doentes, a comunhão eucarística como presença de Jesus feito companhia e alimento, e como relação com a comunidade cristã de que se é membro desde o batismo. A pessoa doente tem sempre lugar na assembleia dominical que é a grande reunião dos cristãos. Se não pode estar presente, saiba que também é lembrada e se reza por ela e, se for o caso, um enviado da comunidade eclesial pode trazer-lhe a comunhão e fazer uma breve celebração.
2. Prestar especial atenção aos momentos críticos, sobretudo de agonia e morte. Saber situar esta fase no percurso de uma vida e reconhecer que Deus está sempre presente para ajudar, desde que deixemos, pois respeita a nossa liberdade. Os sacramentos, sendo importantes, não esgotam o amor misericordioso de Jesus Cristo.
Cuidar de forma especial a família “traumatizada” pela aproximação do desfecho final e pela vivência do luto.
3. Dar testemunho da dignidade e do valor de quem é doente, ajudando a descobrir a esperança que nasce do amor. E sugerir áreas dignas de ser amadas que devem merecer o nosso “interesse”: outras pessoas em situação semelhante, os empobrecidos forçados, os entristecidos pelo infortúnio, o pessoal médico, os familiares e tantos outros. Amar com o amor que Jesus oferece a quem é seu amigo.
“Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o ser humano, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo”. Bento XVI, Spe Salvi, nº 37. A história regista nomes ilustres de quem “fez obra” na escola do sofrimento.
4. Estabelecer prioridades: Anunciar a boa nova do sofrimento assumido por amor; empenhar-se em reduzir o sofrimento imposto e injusto; promover a auto-estima de quem está doente; fomentar ou criar um relacionamento em rede entre quem sofre e deseja estar acompanhado; propor oportunamente a celebração dos sacramentos; reconhecer que, em todas as fases da doença, está discretamente presente Jesus Cristo para ajudar, recorrendo a formas que às vezes nos desconcertam; assumir, com seriedade e honradez, expressões do amor cristão, a prestação de cuidados incluídos no serviço de voluntariado que nos foi confiado.
5. A grandeza da humanidade: A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade e a Igreja.
Sofrer com o outro, pelos outros, sofrer por amor da verdade e da justiça e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: eis os elementos fundamentais da humanidade. Bento XVI, Spe Salvi, nº 39.
6. A entusiasmante missão de acompanhar
A visita à pessoa fragilizada, sobretudo nas fases mais agudas da crise, abre a porta a um itinerário de acompanhamento rico de humanidade. Em atitude de reciprocidade. Cada um oferece ao outro o que tem de melhor: O enfermo, a precariedade da vida humana, o estado de ânimo e a sua possível evolução espiritual; o visitante, o tempo feito dom, a solicitude respeitosa e a garantia de proximidade atenta.
O Papa Francisco, em mensagem recente, chama a atenção para a urgência de saber estar presente junto de quem vive períodos de desorientação e mesmo de erro; presente para “com verdade e misericórdia” ajudar a reencontrar o seu rosto autêntico na verdade e no bem; para redescobrir com confiança o amor paterno de Deus e “os caminhos para construir um mundo mais humano”.
Que bela missão a nossa! Formar para cuidar: a alegria de dar, o prazer de receber. Amor solidário que suaviza dores, alimenta a esperança, irmana na humanidade.