Encontrar Deus em tudo | A beleza, o mistério e a vida…**

Rosa Lopes*

Há interpelações que um professor nunca esquece. Esta foi uma delas.

Professora… o meu avô morreu.

Uma aula interrompida por instantes. O silêncio instalou-se naturalmente na sala. Mas, depois, aquele aluno do 5.º ano acrescentou, com uma serenidade desarmante:

Sinto muitas saudades dele… mas sei que ele vai olhar por mim.

Na simplicidade daquela frase acabada de pronunciar habitava uma esperança que não precisava de grandes discursos. Apenas de alguém que a acolhesse com respeito.

Naquele momento compreendi que já não estávamos apenas na sala de aula. Estávamos diante de uma das grandes perguntas da existência humana. Falávamos da perda, da saudade, da esperança e do amor que a ausência não consegue apagar. Nenhuma inteligência artificial podia responder por ele. Porque há perguntas que não procuram uma resposta. Procuram apenas um lugar onde possam ser ditas.

Nesse momento compreendi, uma vez mais, a verdadeira missão da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica.

Vivemos num tempo extraordinário. Nunca a escola dispôs de tantos recursos tecnológicos para ensinar. Nunca os alunos tiveram acesso a tanta informação. Em poucos segundos, a inteligência artificial responde a perguntas, escreve textos, cria imagens, traduz idiomas e organiza conhecimento que, até há poucos anos, parecia impensável. E, no entanto, permanece uma pergunta que nenhuma tecnologia consegue responder por nós: o que significa ser verdadeiramente humano?

Talvez seja precisamente aqui que resida uma das maiores atualidades da Educação Moral e Religiosa Católica. Não porque ofereça respostas fáceis, nem porque pretenda substituir outras áreas do saber, mas porque continua a cultivar aquilo que a escola nunca pode perder: o espaço das grandes perguntas.

Educar nunca foi apenas transmitir conhecimentos. Educar é acompanhar pessoas. É ajudá-las a descobrir quem são, a reconhecer a sua dignidade, a encontrar sentido para a própria existência e a aprender que a liberdade só floresce plenamente quando nos abrimos ao outro.

Ao longo da minha experiência docente tenho descoberto que estas continuam a ser as perguntas dos jovens. Talvez mudem as circunstâncias, as identidades, talvez mudem as palavras, mas a inquietação permanece. Quem sou eu? Porque existe o sofrimento? O que acontece quando perdemos alguém que amamos? Como posso ser feliz? Vale a pena fazer o bem?

Nenhuma destas perguntas pertence apenas à religião. Pertencem à condição humana.

O ser humano não se define apenas por aquilo que sabe, que produz ou conquista. Compreende-se, antes de mais, pela sua capacidade de se relacionar, de cuidar, de amar e de responder ao outro. Antes de aprendermos a falar, alguém pronunciou o nosso nome.

Antes de aprendermos a amar, alguém nos amou. Talvez seja por isso que ninguém cresce sozinho.

Vivemos numa cultura que valoriza a autonomia, a eficiência e o desempenho. Aprendemos a medir quase tudo: os resultados, a produtividade, as competências. Mas há dimensões da vida que recusam qualquer tipo de medida. A amizade. A compaixão. O perdão. A confiança. A esperança. É precisamente aí que a Educação Moral e Religiosa Católica continua a oferecer um contributo profundamente humanizador.

A EMRC oferece aos alunos algo cada vez mais raro: tempo. Tempo para parar quando tudo acelera. Tempo para escutar quando tudo é ruído. Tempo para olhar para dentro quando o mundo insiste em olhar para fora. Talvez seja nesse silêncio que muitos jovens começam, finalmente, a ouvir as perguntas que trazem no coração.

Educar é também despertar para a beleza. A beleza da criação, da arte, da música, do silêncio, da amizade e da solidariedade. Porque quem aprende a contemplar dificilmente se resigna a viver apenas na lógica da racionalidade e da utilidade. Também por isso a EMRC ajuda os alunos a olhar criticamente para a cultura contemporânea. A inteligência artificial constitui uma oportunidade extraordinária para a humanidade e seria um erro recebê-la com medo. O verdadeiro desafio não é tecnológico. É profundamente humano.

Como utilizar toda esta capacidade sem perder aquilo que nos torna verdadeiramente pessoas?

As máquinas aprendem padrões. Produzem linguagem. Reconhecem emoções. Mas não experimentam a profundidade da gratidão. Não conhecem a bondade e a ternura. Não se emocionam perante a beleza. Não permanecem ao lado de quem sofre. Não amam.

É por isso que continuo a acreditar profundamente na Educação Moral e Religiosa Católica. Não porque ensine aquilo que mais nenhuma disciplina ensina, mas porque recorda continuamente aquilo que nenhuma disciplina pode esquecer, que cada aluno é muito mais do que o seu desempenho, as suas classificações ou as suas competências. É uma pessoa. E todo uma vida que merece ser escutada, respeitada e acompanhada no caminho da descoberta do sentido.

Enquanto professora, descubro isso sempre que um aluno encontra coragem para confiar ao professor aquilo que nenhuma ficha de avaliação alguma vez conseguirá medir. Como naquele dia. “Professora… o meu avô morreu.” Talvez aquele menino nunca venha a recordar os conteúdos daquela aula. Mas quero acreditar que guardará para sempre a certeza de que houve um lugar na escola onde a sua dor teve lugar sem pedir autorização, onde a sua esperança foi acolhida e onde a sua humanidade encontrou espaço para crescer.

Talvez seja isso educar. Não ter resposta para tudo. Mas permanecer, ficar.

Num mundo onde a inteligência artificial continuará, inevitavelmente, a transformar a forma como aprendemos, trabalhamos e como comunicamos, acredito que o maior desafio da educação permanecerá o mesmo: formar pessoas capazes de cuidar, de discernir, de construir relações e de descobrir que a vida encontra a sua maior riqueza quando é vivida como dom.

Podemos ensinar uma máquina a pensar. Mas só uma pessoa pode ajudar outra a descobrir que a sua vida tem sentido. E talvez seja precisamente aqui que resida, hoje, a mais bela e urgente missão da Educação Moral e Religiosa Católica.


10 de julho de 2026

*Arquiteta – OA nº 21505 – CCP nº F660345/2017

*frequenta o Mestrado em Ciências Religiosas


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