‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
Temos diante nós a carta 257 de Edith Stein, dirigida a uma jovem professora, em que ela responde às suas inquietações e dá alguns conselhos de como se comportar diante dos outros: «o que podemos fazer é colocarmo-nos nas mãos de Deus, colaborando com Ele no que nos pede; diante dos outros o melhor é agudizar o nosso olhar para encontrar o grão de ouros que todos têm dentro de si».

Edith Stein*

«A solidão, de que me falas, em certo sentido é característica da vida espiritual. Quanto mais uma pessoa se aproxima de Deus, menos influencia têm sobre ela  as amarras naturais, se pelo contrario uma pessoa permanece profundamente dependente das outras, continuará a sentir e a ser uma pessoa totalmente natural levada pelos sentimentos e ser-lhe-á muito difícil a separação de qualquer realidade humana. Mesmo entre pessoas que têm a mesma atitude interior, as influências naturais dos sentidos, muitas vezes incomodam e estorvam, não permitindo que se alcance aquela harmonia que seria possível. Na pátria eterna será muito distinto, às vezes já percebemos aqui algum destelho disso.

A verdade é que não podemos fazer muito, podemos apenas pôr-nos nas mãos de Deus e pedir-lhe que seja Ele quem faça tudo. Claro está que nós temos que fazer o que Ele nos pede e isto significa fazer a nossa parte.

Em relação aos sentimentos de repulsa que sentes diante das limitações das pessoas, domina-os e oferece-os, age como se eles não existissem. Quando estiveres com outras pessoas pensa que existe algo comum que os une e que é mais forte do que aquilo que os separa e procura estar ligada a isso. Não se deve forçar o diálogo sobre a religião; mas também não se devem perder as oportunidades de dizer o essencial, adaptando-o de forma simples e acessível aos outros.

O facto de que te sejam muito notórias as debilidades das pessoas, não deve ser motivo de preocupação. Um falso idealismo não tem sentido. Mas não confies demasiado na perspicácia do teu olhar. Deus é o único que vê o interior das pessoas. Ele vê o mau, mas também vê o mais pequenino grãozito de ouro, que, com frequência, a nós nos passa desapercebido, e que na verdade existe em todas as pessoas. Acredita neste grãozito de ouro presente em cada pessoa e para isso pede a Deus que te conceda um olhar penetrante.

Creio que tu és uma alma simples. Mas o teu entendimento move-se por caminhos muito sinuosos. Por isso não podes falar nem escrever com simplicidade, e as pessoas que se apoiam em manifestações palpáveis- e são a maioria- acabam por errar.

Deste companheiro inquieto, que é o entendimento, provêm os frequentes desassossegos. Tu escutas o que ele te mostra e que aqui e ali te causou obstáculo no caminhar, e isto proporciona-te insegurança, apesar de no íntimo do teu coração tu conheceres perfeitamente o teu caminho. Penso que seria bom se fosses capaz de pôr o entendimento em dieta, rezar mais e ler menos, bem como discutir o menos possível com outras pessoas. Penso que na relação com as outras pessoas devemos ir ao encontro dos seus interesses e necessidades, que muitas vezes também são as nossas. Isto quando há alguém de quem podemos esperar ajuda.

Não deves apegar-te demasiado a pensamentos que, segundo leste, são coerentes, e, facilmente conservas na memória repetindo-os mecanicamente. Aprofunda-os, pensa no que pessoalmente te dizem a ti e verás como se te imporá o dever de os comunicar. Não é possível fazer um esquema geral das coisas, é necessário refletir e provar, para ver quando e como as coisas apresentam resultados mais eficientes.

Recebe uma saudação muito amiga, tua

Edith Stein»

* Edith Stein, Obras Completas. Vol I – Escritos Autobiográficos y Cartas. Carta 257. Coeditores Ediciones El Carmen, Editorial de Espiritualidad, Editorial Monte Carmelo. Pp 896-898.
Imagem de Bruno Glätsch por Pixabay