‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

Numa das suas últimas conferências, lida na cidade de Berlim em 1933 e titulada Formação da juventude à luz da fé católica59, Edith procura desenhar a imagem do homem – o que tem de chegar a ser – a partir das palavras de Jesus. Parte desses textos evangélicos onde se pergunta directamente a Jesus:
        • Mt 19, 18: «que hei-de fazer de bom para alcançar a vida eterna?»
        • Mt 22, 37: «qual é o maio mandamento da Lei?»
As respostas de Jesus, embora em diversos contextos, oferecem um conteúdo semelhante:
        • Mt 19, 18: «guarda os mandamentos».
        • Mt 22, 36-40: «Amarás o Senhor teu DeusAmarás o próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas».
E a conclusão de Edith em base a estes textos é a seguinte:
«Tendo em conta tudo isto, entende-se que o autêntico cristão é aquele que observa os mandamentos, mas fazendo preceder no cumprimento dos mesmos, o cumprimento perfeito do maior de todos: o amor perfeito ao Senhor.
Do amor de Deus procedem imediatamente o temo reverencial e a adoração; o amor ao próximo, amor fraterno por todos os filhos de Deus, e o conseguinte comportamento com eles; do amor a Deus procede o amor a si que nasce do amor a Deus (de facto temos que “amar o próximo como a nós mesmos”), e daí o comportamento adequado connosco mesmos. O homem que vive deste modo não ostenta uma perfeição simplesmente natural, mas vive de um princípio sobrenatural. De facto, podemos amar a deus porque Ele nos amou primeiro… O amor a Deus é esse único necessário que o Senhor propões à atarefada Marta (cf. Lc 10, 41-42)»60.
No mandamento do amor, na sua tríplice direcção (Deus, o próximo, nós mesmos), Edith descobre o fundamento do homem perfeito61. E esse será, então, o objectivo primordial de todo o trabalho formativo e educativo. Mais ainda, observa na vida de Jesus a chave exegética do mandamento do amor: «Toda a doutrina de Jesus pode ser interpretada como uma exegese dos mandamentos e das disposições da Lei como mandamento do amor»62. Mas este amor não é um simples ideal inalcançável com as forças naturais do homem. Este amor só é possível a partir da configuração com Cristo, desde a união com Deus. E o homem tema cesso a este amor dispondo-se activamente. Radica aí a santidade. A perfeição, tal como Cristo a apresenta, consiste numa «disposição da alma»:
«O justo tem as rendas da sua alma nas suas mãos, é senhor de si mesmo; não existe nada nele, nem entre as criaturas, que tenha a capacidade de apoderar-se dele. Mas ele é dono de si só para se entregar a outro dono, ao seu Dono, Deus;… com o abandono de um filho amoroso e confiado, que entrega completamente ao Pai a si mesmo e a programação da sua vida»63.

 

Na dinâmica das Bem-aventuranças

O caminho ou via que Cristo traça no Evangelho para conseguir essa plenitude no amor tem um rosto real nas Bem-aventuranças e nos conselhos evangélicos. Edith não se detém nestes últimos, mas noutra obra escreverá: «Isto é o que Maria pede aos seus filhos, e o que o seu Filho aconselhará aos seus amigos: o caminho da pobreza, obediência e castidade. Pedem isto porque este é o caminho que eles mesmos elegeram. E têm-no que percorrer porque é o caminho real da perfeição, indicado pela mesma Santíssima Trindade»64.

Em relação às Bem-aventuranças Edith detém-se a esquadrinhar o significado de cada uma delas, constatando que o amor é a raiz de todas as virtudes. Julgo que as suas palavras são suficientemente claras que não necessitam de comentários ulteriores. Por outro lado, trata-se de um texto ainda inédito em língua portuguesa. Seguimos literalmente a sua reflexão à luz do texto de Mt 5, 1-1265:

«Bem-aventurados os pobres em espírito». Esta afirmação tão mal compreendida e indevidamente usada, em modo blasfemo, Jesus refere-a aos humildes e aos que temem a Deus. Devem ser nomeados em primeiro lugar, porque o temor de Deus é o princípio da sabedoria. O homem que teme a Deus sabe que tudo o que é do mundo é «vaidade e presunção do espírito», que tudo – incluído ele próprio – é um nada diante de Deus. Aqueles que não temem a Deus são orgulhosos e presunçosos, que se consideram grandes porque possuem bens e dons terrenos e apenas cobiçam estes. É por isso que é difícil ser pobre em espírito se se possuem bens terrenos, e o conselho do Senhor ao jovem rico é : “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres” (Mt 19, 21).

«Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra». Por terra entende-se a “terra dos vivos”, a segura herança eterna. É aos mansos que é feita a promessa, aos que não resistem ao mal, mas vencem o mal com o bem (temos aqui, com efeito, um “mandamento maior” que o Senhor contrapôs expressamente aos do Antigo Testamento: Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos). Vai também recordado, aqui, que o Senhor é exemplo destas duas fundamentais virtudes cristãs: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

«Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados». Os que se voltam para Deus devem renunciar ao que amavam neste mundo, e isto não acontece sem dor. Mas o Espírito-Paráclito cumula-os por este seu gesto de alegria celeste.

«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados». Estes são aqueles que desejam o verdadeiro, o bem imutável. Mas a justiça não é senão a perfeição, que consiste em cumprir a vontade de Deus; tal cumprimento é por si mesmo saciedade, sacia por si só; o Senhor diz efetivamente: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou” (Jo 4, 34); esta é a água bebendo da qual não se terá mais sede, “a água que jorra para a vida eterna” (Jo 4, 14).

 «Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus». Os puros de coração são aqueles que estão livres de ávidos desejos de coisas mundanas, e também aqueles que não estão mais cheios de si, e satisfeitos de si mesmos e do desejo de se fazer valer a si mesmos. São aqueles pobres em espírito que já reconheceram a vaidade de tudo o que é mundano, e com este conhecimento dirigiram o seu olhar para Deus. Esses são simples, simplificados porque possuem um único desejo; e porque o Senhor se deixa encontrar por aqueles que o procuram com todo o coração, esses verão a Deus.

E porque só uma coisa domina neles, e nada neles se opõe ao Senhor, são os construtores de paz, em harmonia com Deus e consigo mesmos, e por isso filhos de Deus, imagem de Deus; neles as cobiças são amansadas e submetidas à razão, é restaurada neles a harmonia original, restaurada a paz, e procedem em paz com todos os que de modo semelhante são homens de boa vontade: esta é a vida da perfeita sabedoria, que nada de exterior pode perturbar.

Tais homens são pedras de tropeço para os príncipes deste mundo e para os seus sequazes. Por isso, têm que ser perseguições por causa da justiça, mas desse modo será deles o Reino dos Céus.

Esta longa reflexão de Edith sobre o sentido das Bem-aventuranças, coloca-nos diante dos valores essenciais do Reino, da plenitude do homem. Todo o homem foi chamado a realizar na sua vida esta altíssima vocação: é a mesma para todos, sem nenhuma diferença: “já não há judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28)66. Certamente cada um realizará este único fim vocacional a partir do seu carisma próprio e pessoal (cf. 1 Co 12)67, desde um chamamento particular a exprimir de formas diferentes esse amor (cf. a unção de Betânia: Mt 26, 6-13)68. E entre essas formas convinha considerar, com um claro fundamento bíblico, a diversidade entre homem e mulher: “homem e mulher os criou” (Gn 1, 27)69.


59 Em ESW XII, 209-230.

60 ESW XII, 216-217.

61 Um desenvolvimento do que significa para Edite uma vida na tríplice direcção do amor encontramo-lo amplamente desenvolvido no seu escrito O mistério do Natal, em Obras 380-386. Nesta obra fala-nos da realização do amor como: ser um com Deus, ser um em Deus, e cumprir a vontade de Deus.

62 Ib. 216, nota 9.

63 Ib. 219.

64 A festa dos Reis Magos (1942), em Obras 251-252.

65 Ib. 217-219.

66 ESW XII, 219-220.

67 Ib. 220.

68 Ib.

69 Ib. 220-221.

*Edith Stein, La Formación de la Juventud a la Luz de la fé Católica, Obras Completas IV, Escritos Antropológicos y pedagógicos. Coeditores: Espiritualidad – Monte Carmelo – El Carmen, 2003.

 

Imagem de Rudy and Peter Skitterians por Pixabay